Identidade - Parte 04 - Jorge Machado
Jorge Machado
Escritor desde os doze anos de idade (quando conheci a literatura e adotei o pseudônimo temporário de "Jorge Mamado"). Fui apresentado ao horror tarde, nas estantes da biblioteca pública do ensino médio. Desde então sigo na busca do funesto e do reprovável como forma de resistência à apatia e ao conformismo dessa geração.
Brinquei de punk durante a adolescência tardia e troquei a água pela cerveja. Depois pela pinga. Depois voltei aos livros. Viciado em gás lacrimogêneo e spray de pimenta, sonho em explodir o Ancapistão usando um artefato com a grafia "Propriedade é roubo" na fuselagem.





Identidade – Parte 04

       Paulo só tinha olhos para o trabalho. A clínica, antes um motivo de orgulho, agora se apresentava em minha vida como um tormento, como um erro do passado que não poderia consertar, como uma sina, um rosto desfigurado que jamais voltaria a sorrir. Enquanto eu me lamentava pelo declínio do casamento, meu marido se debruçava em livros e artigos científicos. Deixara expresso que não queria minha interferência na cirurgia de reconstrução de Henry. Essa seria sua grande obra – se referia ao procedimento nestes termos -, a chance de mudar para sempre a história da reconstituição facial. Dormiu durante dias no escritório, escondido em suas pranchetas com desenhos faciais e seus programas matemáticos de modelagem no computador ligado. Teve ajuda de uma consultoria especializada que não consegui rastrear. Alguns homens chegavam ao consultório a todo o momento levando novas informações. Telefonemas eram trocados diuturnamente, e-mails eram trocados todos os dias. Alguns cirurgiões importantes da Austrália e Reino Unido se interessaram pelo caso e a imprensa tentou uma aproximação, mas foi imediatamente expulsa pelos seguranças da clínica.

       Eu não tinha ideia dos detalhes do procedimento, mas sabia da dificuldade daquela empreitada. Os danos causados pelo fogo são sempre os mais difíceis de resolver. Alguns casos não têm exatamente uma solução ótima. O melhor possível ainda passa longe de uma reconstituição adequada da face. Mas o principal desafio eram os músculos. Não fazia ideia de como Paulo tencionava reconstruir os músculos danificados pelo incêndio. A massa muscular estava tão debilitada – mesmo após as centenas de sessões fitoterápicas – que Henry não conseguia nem sequer levantar totalmente os braços. Como poderia voltar a Levantar pesos de 150 quilos nos ombros?

       Mas, apesar do afastamento gradual que sofria por meu marido, ainda era capaz de reconhecer que Paulo sabia o que estava fazendo. Poucas vezes conheci alguém tão dedicado à profissão. Ele se tornara, com o passar dos anos, um cirurgião especialista em reconstrução e deixara de ser Paulo Descartes, o homem que conheci e amei. Essa mudança se deu gradativamente, como uma represa que é derrubada por uma goteira, a força da água desgastando lentamente a estrutura, formando rachaduras cada vez maiores…

       Foi numa noite em que conversava com Anna pelo Skype que ouvi falar em Alfredo Montalvan. O rapaz, psicanalista renomado, doutor formado pelo Mackenzie em 1997, era o homem contratado pelo Doutor Descartes para acompanhar Henry antes do procedimento cirúrgico. Era um homem de aparência calma, ombros largos, praticante de judô e Krav Magá, grande defensor da eutanásia – o que causava polêmicas desnecessárias em seu nome -, crítico ferrenho dos governos do PT e do PSDB e um apaixonado pela psicanálise – defendendo inclusive que ela tinha o status de ciência e criando animosidade entre alguns de seus colegas. A chave para entender a personalidade de Alfredo era justamente a contradição, o choque, a necessidade constante que ele possuía de se impor diante do outro. Ele próprio, um analista renomado, seria uma mente interessante a ser estudada em um divã.

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Jorge Machado
Identidade – Parte 04

       Paulo só tinha olhos para o trabalho. A clínica, antes um motivo de orgulho, agora se apresentava em minha vida como um tormento, como um erro do passado que não poderia consertar, como uma sina, um rosto desfigurado que jamais voltaria a sorrir. Enquanto eu me lamentava pelo declínio do casamento, meu marido se debruçava em livros e artigos científicos. Deixara expresso que não queria minha interferência na cirurgia de reconstrução de Henry. Essa seria sua grande obra – se referia ao procedimento nestes termos -, a chance de mudar para sempre a história da reconstituição facial. Dormiu durante dias no escritório, escondido em suas pranchetas com desenhos faciais e seus programas matemáticos de modelagem no computador ligado. Teve ajuda de uma consultoria especializada que não consegui rastrear. Alguns homens chegavam ao consultório a todo o momento levando novas informações. Telefonemas eram trocados diuturnamente, e-mails eram trocados todos os dias. Alguns cirurgiões importantes da Austrália e Reino Unido se interessaram pelo caso e a imprensa tentou uma aproximação, mas foi imediatamente expulsa pelos seguranças da clínica.

       Eu não tinha ideia dos detalhes do procedimento, mas sabia da dificuldade daquela empreitada. Os danos causados pelo fogo são sempre os mais difíceis de resolver. Alguns casos não têm exatamente uma solução ótima. O melhor possível ainda passa longe de uma reconstituição adequada da face. Mas o principal desafio eram os músculos. Não fazia ideia de como Paulo tencionava reconstruir os músculos danificados pelo incêndio. A massa muscular estava tão debilitada – mesmo após as centenas de sessões fitoterápicas – que Henry não conseguia nem sequer levantar totalmente os braços. Como poderia voltar a Levantar pesos de 150 quilos nos ombros?

       Mas, apesar do afastamento gradual que sofria por meu marido, ainda era capaz de reconhecer que Paulo sabia o que estava fazendo. Poucas vezes conheci alguém tão dedicado à profissão. Ele se tornara, com o passar dos anos, um cirurgião especialista em reconstrução e deixara de ser Paulo Descartes, o homem que conheci e amei. Essa mudança se deu gradativamente, como uma represa que é derrubada por uma goteira, a força da água desgastando lentamente a estrutura, formando rachaduras cada vez maiores…

       Foi numa noite em que conversava com Anna pelo Skype que ouvi falar em Alfredo Montalvan. O rapaz, psicanalista renomado, doutor formado pelo Mackenzie em 1997, era o homem contratado pelo Doutor Descartes para acompanhar Henry antes do procedimento cirúrgico. Era um homem de aparência calma, ombros largos, praticante de judô e Krav Magá, grande defensor da eutanásia – o que causava polêmicas desnecessárias em seu nome -, crítico ferrenho dos governos do PT e do PSDB e um apaixonado pela psicanálise – defendendo inclusive que ela tinha o status de ciência e criando animosidade entre alguns de seus colegas. A chave para entender a personalidade de Alfredo era justamente a contradição, o choque, a necessidade constante que ele possuía de se impor diante do outro. Ele próprio, um analista renomado, seria uma mente interessante a ser estudada em um divã.

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