Identidade - Parte 04 - Jorge Machado
Jorge Machado
Escritor desde os doze anos de idade (quando conheci a literatura e adotei o pseudônimo temporário de "Jorge Mamado"). Fui apresentado ao horror tarde, nas estantes da biblioteca pública do ensino médio. Desde então sigo na busca do funesto e do reprovável como forma de resistência à apatia e ao conformismo dessa geração.
Brinquei de punk durante a adolescência tardia e troquei a água pela cerveja. Depois pela pinga. Depois voltei aos livros. Viciado em gás lacrimogêneo e spray de pimenta, sonho em explodir o Ancapistão usando um artefato com a grafia "Propriedade é roubo" na fuselagem.





Identidade – Parte 04

       Alfredo havia casado com uma escritora, Célia Montalvan, grande romancista brasileira jamais reconhecida. O divórcio ocorrera há mais de dois anos quando Célia assumiu a relação com outro escritor. Não sei que efeitos isso teve sobre ele, nunca o conheci a fundo o suficiente, mas talvez, tenha o empurrado ainda mais para o refúgio do trabalho, essa casamata em que sempre nos escondemos em momentos difíceis. O fato era que Alfredo era um dos membros mais ativos da comunidade de psicanalistas brasileiros, sempre lembrado em entrevistas na televisão, relativamente badalado em mídias sociais, nos canais de comunicação que discutiam o assunto, nas palestras e conferências da comunidade. Sua agenda era uma das mais requisitadas, sempre sendo convidado para dissecar os mistérios da mente humana. Menos a dele próprio, insondável, desconhecida do grande público.

       Célia escreveria uma autobiografia, anos depois, em que contaria alguns fatos que manchariam para sempre a reputação de Alfredo. Essa autobiografia deflagraria uma guerra judicial sem precedentes nos tribunais paulistas.

       Anna disse que conhecera Alfredo ainda antes da faculdade, quando este conduzia as sessões que tivera com sua falecida mãe após um acidente de carro que deixou sequelas irreparáveis na Dona Stella. Sempre que me falava sobre Alfredo, Anna parecia desconfortável e eu descobriria somente muito depois o porquê.

       A terapia de Henry incomodava Anna. Ela me relatou que os problemas de relacionamento com Henry estavam piorando a cada dia, as brigas cada vez mais constantes, as discussões se iniciavam pelas mais irrelevantes alterações na rotina. Sansão estava agitado como nunca, latindo sem parar. Ela contou que um dia, após chegar das compras, Sansão estava no canto da cozinha, tremendo, com a cabeça baixa, ganindo a cada barulho que ouvia. Como se estivesse com medo de alguma coisa. Imaginei na mesma hora o mesmo que ela. Que Henry, num acesso momentâneo de raiva havia batido no cachorro. Perguntei se ela achava que ele poderia ser capaz de…

       “Não. Henry jamais tocou em mim. Ele não seria capaz, é um homem bom que está passando por um momento difícil apenas. Ainda é o mesmo Henry de sempre… voltará a ser…”, seus olhos estavam perdidos na webcam que picotava.
“Não falei por mal Anna. Sabe que amo vocês dois. Conheço o Henry quase tão bem quanto você. Sei que isso não é da índole dele, mas às vezes em momentos difíceis como este as pessoas mudam.”

       “Henry nunca vai mudar! Ele sempre será meu Henry…”

       Ela não me ouvia mais. Estavam ambos passando pelo momento mais difícil da terapia. Na época, tinha certeza de que Alfredo estava fazendo o possível para ajuda-los, mas não sabia o quanto seria possível restaurar o velho Henry. Estava quase chegando à conclusão de que o velho Henry estava morto para sempre. Nada que a cirurgia do dia seguinte àquele pudesse resolver de fato.

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Jorge Machado
Identidade – Parte 04

       Alfredo havia casado com uma escritora, Célia Montalvan, grande romancista brasileira jamais reconhecida. O divórcio ocorrera há mais de dois anos quando Célia assumiu a relação com outro escritor. Não sei que efeitos isso teve sobre ele, nunca o conheci a fundo o suficiente, mas talvez, tenha o empurrado ainda mais para o refúgio do trabalho, essa casamata em que sempre nos escondemos em momentos difíceis. O fato era que Alfredo era um dos membros mais ativos da comunidade de psicanalistas brasileiros, sempre lembrado em entrevistas na televisão, relativamente badalado em mídias sociais, nos canais de comunicação que discutiam o assunto, nas palestras e conferências da comunidade. Sua agenda era uma das mais requisitadas, sempre sendo convidado para dissecar os mistérios da mente humana. Menos a dele próprio, insondável, desconhecida do grande público.

       Célia escreveria uma autobiografia, anos depois, em que contaria alguns fatos que manchariam para sempre a reputação de Alfredo. Essa autobiografia deflagraria uma guerra judicial sem precedentes nos tribunais paulistas.

       Anna disse que conhecera Alfredo ainda antes da faculdade, quando este conduzia as sessões que tivera com sua falecida mãe após um acidente de carro que deixou sequelas irreparáveis na Dona Stella. Sempre que me falava sobre Alfredo, Anna parecia desconfortável e eu descobriria somente muito depois o porquê.

       A terapia de Henry incomodava Anna. Ela me relatou que os problemas de relacionamento com Henry estavam piorando a cada dia, as brigas cada vez mais constantes, as discussões se iniciavam pelas mais irrelevantes alterações na rotina. Sansão estava agitado como nunca, latindo sem parar. Ela contou que um dia, após chegar das compras, Sansão estava no canto da cozinha, tremendo, com a cabeça baixa, ganindo a cada barulho que ouvia. Como se estivesse com medo de alguma coisa. Imaginei na mesma hora o mesmo que ela. Que Henry, num acesso momentâneo de raiva havia batido no cachorro. Perguntei se ela achava que ele poderia ser capaz de…

       “Não. Henry jamais tocou em mim. Ele não seria capaz, é um homem bom que está passando por um momento difícil apenas. Ainda é o mesmo Henry de sempre… voltará a ser…”, seus olhos estavam perdidos na webcam que picotava.
“Não falei por mal Anna. Sabe que amo vocês dois. Conheço o Henry quase tão bem quanto você. Sei que isso não é da índole dele, mas às vezes em momentos difíceis como este as pessoas mudam.”

       “Henry nunca vai mudar! Ele sempre será meu Henry…”

       Ela não me ouvia mais. Estavam ambos passando pelo momento mais difícil da terapia. Na época, tinha certeza de que Alfredo estava fazendo o possível para ajuda-los, mas não sabia o quanto seria possível restaurar o velho Henry. Estava quase chegando à conclusão de que o velho Henry estava morto para sempre. Nada que a cirurgia do dia seguinte àquele pudesse resolver de fato.

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