Identidade - Parte 04 - Jorge Machado
Jorge Machado
Escritor desde os doze anos de idade (quando conheci a literatura e adotei o pseudônimo temporário de "Jorge Mamado"). Fui apresentado ao horror tarde, nas estantes da biblioteca pública do ensino médio. Desde então sigo na busca do funesto e do reprovável como forma de resistência à apatia e ao conformismo dessa geração.
Brinquei de punk durante a adolescência tardia e troquei a água pela cerveja. Depois pela pinga. Depois voltei aos livros. Viciado em gás lacrimogêneo e spray de pimenta, sonho em explodir o Ancapistão usando um artefato com a grafia "Propriedade é roubo" na fuselagem.





Identidade – Parte 04

*

       Henry chegou ao consultório em uma limusine paga por meu marido. Paulo o recebeu com flashes feitos por fotógrafos que ele próprio contratara. A expressão de Henry ao ser captado pela lente era de desalento e vergonha. A expressão de Paulo era de desafio e convicção pessoal. Era uma máscara para aparecer nos simpósios vindouros de cirurgia plástica.

       Eles trocaram algumas palavras brevemente e Henry foi acompanhado por Anna e outras enfermeiras até a sala de espera privativa.

       Fazia muito frio e tenho a impressão, ainda hoje, lembrando em perspectiva, que nunca mais houve calor no mundo.

 

CAPÍTULO IV

       O incêndio agira como uma Blitzkrieg nazista na psique de Henry, deixando-a em frangalhos, reduzida a pedaços desconjuntados, fragmentos perdidos do que antes fora um rapaz sorridente e sonhador. Alfredo, com sua pompa incorrigível, prometia que o tratamento que aplicara – através de longas sessões no consultório fechado com Anna e Henry -, havia coletado cada fragmento da mente cindida com a pinça da psicanálise, usando o método com desenvoltura e elegância, como aprendera nas melhores instituições de ensino do país. A identidade de Henry estava garantida pela, nas palavras de Alfredo, “excelência de seu tratamento especializado”.

       Paulo havia me dito que teria de fazer quatro intervenções no paciente “Trelkovski” – nome codificado que ele e seus auxiliares usavam para se referir a Henry. A primeira cirurgia durou três horas. Era a mais fácil, uma limpeza simples da pele e inserção de enxertos além do planejamento dos próximos passos na reconstrução do tórax, bíceps, tríceps e músculos pontuais dos membros superiores. Algumas dificuldades pareceram ser apontadas na reunião que se seguiu à cirurgia, enquanto Henry ficava em recuperação em um quarto privativo, com Anna. Eu não tinha acesso, na época, aos relatórios que foram produzidos durante esta e outras reuniões e ainda hoje não tenho todos os detalhes que gostaria do procedimento, mas algo parecia estar saindo errado. Minha intuição parecia apitar naquele momento. Como se alguma coisa estivesse sendo tramada a portas fechadas. A chuva descia pesada e o frio não ia embora nunca. Um ramo de eletricidade rasgou o céu da capital e parou no topo de um prédio antigo que podia ser visto da janela panorâmica.

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Jorge Machado
Identidade – Parte 04

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       Henry chegou ao consultório em uma limusine paga por meu marido. Paulo o recebeu com flashes feitos por fotógrafos que ele próprio contratara. A expressão de Henry ao ser captado pela lente era de desalento e vergonha. A expressão de Paulo era de desafio e convicção pessoal. Era uma máscara para aparecer nos simpósios vindouros de cirurgia plástica.

       Eles trocaram algumas palavras brevemente e Henry foi acompanhado por Anna e outras enfermeiras até a sala de espera privativa.

       Fazia muito frio e tenho a impressão, ainda hoje, lembrando em perspectiva, que nunca mais houve calor no mundo.

 

CAPÍTULO IV

       O incêndio agira como uma Blitzkrieg nazista na psique de Henry, deixando-a em frangalhos, reduzida a pedaços desconjuntados, fragmentos perdidos do que antes fora um rapaz sorridente e sonhador. Alfredo, com sua pompa incorrigível, prometia que o tratamento que aplicara – através de longas sessões no consultório fechado com Anna e Henry -, havia coletado cada fragmento da mente cindida com a pinça da psicanálise, usando o método com desenvoltura e elegância, como aprendera nas melhores instituições de ensino do país. A identidade de Henry estava garantida pela, nas palavras de Alfredo, “excelência de seu tratamento especializado”.

       Paulo havia me dito que teria de fazer quatro intervenções no paciente “Trelkovski” – nome codificado que ele e seus auxiliares usavam para se referir a Henry. A primeira cirurgia durou três horas. Era a mais fácil, uma limpeza simples da pele e inserção de enxertos além do planejamento dos próximos passos na reconstrução do tórax, bíceps, tríceps e músculos pontuais dos membros superiores. Algumas dificuldades pareceram ser apontadas na reunião que se seguiu à cirurgia, enquanto Henry ficava em recuperação em um quarto privativo, com Anna. Eu não tinha acesso, na época, aos relatórios que foram produzidos durante esta e outras reuniões e ainda hoje não tenho todos os detalhes que gostaria do procedimento, mas algo parecia estar saindo errado. Minha intuição parecia apitar naquele momento. Como se alguma coisa estivesse sendo tramada a portas fechadas. A chuva descia pesada e o frio não ia embora nunca. Um ramo de eletricidade rasgou o céu da capital e parou no topo de um prédio antigo que podia ser visto da janela panorâmica.

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