Identidade - Parte 04 - Jorge Machado
Jorge Machado
Escritor desde os doze anos de idade (quando conheci a literatura e adotei o pseudônimo temporário de "Jorge Mamado"). Fui apresentado ao horror tarde, nas estantes da biblioteca pública do ensino médio. Desde então sigo na busca do funesto e do reprovável como forma de resistência à apatia e ao conformismo dessa geração.
Brinquei de punk durante a adolescência tardia e troquei a água pela cerveja. Depois pela pinga. Depois voltei aos livros. Viciado em gás lacrimogêneo e spray de pimenta, sonho em explodir o Ancapistão usando um artefato com a grafia "Propriedade é roubo" na fuselagem.





Identidade – Parte 04

       Ao amanhecer percebi, através da onda de preguiça do corpo recém-desperto, que o frio não se dissipara. Era como se tivesse tomado conta para sempre da cidade, dedos de calcário enregelante dançavam por todo o meu corpo. A primeira coisa que faço todas as manhãs é conferir a correspondência e ler os jornais. Minhas pernas tremiam quando vi a manchete dos dois principais tabloides da capital: “Frankeinstein renasce no século XXI”, e, a mais desonesta, “Monstro voltará à vida nesta semana”. A demonstração definitiva de baixeza jornalística.

       Imediatamente, sem escovar os dentes, ainda com as pantufas, entrei no mercedes e disparei pela garagem. Andei paralelamente ao limite de velocidade e parei o carro na zona azul, o estacionamento rotativo pago de São Paulo. Anna demorou em atender ao meu chamado e, quando o fez, me abraçou como se não me visse há anos.

       “Eles não têm esse direito, têm?”

       Cinco anos de medicina, dois anos de mestrado, quatro anos de doutoramento e eu não sabia o que responder para minha melhor amiga.

       A onda enregelante que encobria a cidade, o vento cortante que rasgava as esquinas escuras, lançava uma opressão dolorida no peito. Quando compreendi o que estava acontecendo toda a esperança se trancou em uma caverna escura, distante, escondeu-se para sempre do mundo.

       Ao lado da biblioteca Mário de Andrade, uma hora depois, na Rua da Consolação, uma fila enorme de repórteres se avolumava a cada minuto na entrada principal da clínica. Havia uma grande movimentação de câmeras fotográficas, filmadoras, microfones e equipamentos de transmissão. Cada repórter parecia uma exata cópia de seu colega, cabelos lisos alinhados, óculos com armação extravagante, barba bem feita e uma sede incomunicável por entrevistas exclusivas. Esperavam ansiosos enquanto eu observava de longe.

       Ao meio dia um alvoroço tomou a multidão de câmeras e Paulo Descartes apareceu usando um jaleco mais branco que o Alaska, um broche brilhante da associação internacional de cirurgia plástica completava o uniforme solene. Ele se aproximou dos repórteres e começou a falar com sua voz de entrevistas – uma modulação grave que usava em palestras e filmagens executivas. Uma emulação, uma farsa que mantinha há anos e aprendera a aperfeiçoar durante os anos.

       “O procedimento estará terminado ainda essa semana. É o caso mais complicado que já peguei em toda a minha vida.

       Precisamos restabelecer a capacidade de Henry de competir nos torneios pelo mundo afora representando nosso país. Estou confiante de que dará certo. Existe uma equipe de profissionais dedicados cuidando do futuro do Senhor Conceição. Faremos um milagre neste rapaz senhoras e senhores.”

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Jorge Machado
Identidade – Parte 04

       Ao amanhecer percebi, através da onda de preguiça do corpo recém-desperto, que o frio não se dissipara. Era como se tivesse tomado conta para sempre da cidade, dedos de calcário enregelante dançavam por todo o meu corpo. A primeira coisa que faço todas as manhãs é conferir a correspondência e ler os jornais. Minhas pernas tremiam quando vi a manchete dos dois principais tabloides da capital: “Frankeinstein renasce no século XXI”, e, a mais desonesta, “Monstro voltará à vida nesta semana”. A demonstração definitiva de baixeza jornalística.

       Imediatamente, sem escovar os dentes, ainda com as pantufas, entrei no mercedes e disparei pela garagem. Andei paralelamente ao limite de velocidade e parei o carro na zona azul, o estacionamento rotativo pago de São Paulo. Anna demorou em atender ao meu chamado e, quando o fez, me abraçou como se não me visse há anos.

       “Eles não têm esse direito, têm?”

       Cinco anos de medicina, dois anos de mestrado, quatro anos de doutoramento e eu não sabia o que responder para minha melhor amiga.

       A onda enregelante que encobria a cidade, o vento cortante que rasgava as esquinas escuras, lançava uma opressão dolorida no peito. Quando compreendi o que estava acontecendo toda a esperança se trancou em uma caverna escura, distante, escondeu-se para sempre do mundo.

       Ao lado da biblioteca Mário de Andrade, uma hora depois, na Rua da Consolação, uma fila enorme de repórteres se avolumava a cada minuto na entrada principal da clínica. Havia uma grande movimentação de câmeras fotográficas, filmadoras, microfones e equipamentos de transmissão. Cada repórter parecia uma exata cópia de seu colega, cabelos lisos alinhados, óculos com armação extravagante, barba bem feita e uma sede incomunicável por entrevistas exclusivas. Esperavam ansiosos enquanto eu observava de longe.

       Ao meio dia um alvoroço tomou a multidão de câmeras e Paulo Descartes apareceu usando um jaleco mais branco que o Alaska, um broche brilhante da associação internacional de cirurgia plástica completava o uniforme solene. Ele se aproximou dos repórteres e começou a falar com sua voz de entrevistas – uma modulação grave que usava em palestras e filmagens executivas. Uma emulação, uma farsa que mantinha há anos e aprendera a aperfeiçoar durante os anos.

       “O procedimento estará terminado ainda essa semana. É o caso mais complicado que já peguei em toda a minha vida.

       Precisamos restabelecer a capacidade de Henry de competir nos torneios pelo mundo afora representando nosso país. Estou confiante de que dará certo. Existe uma equipe de profissionais dedicados cuidando do futuro do Senhor Conceição. Faremos um milagre neste rapaz senhoras e senhores.”

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