Identidade - Parte 04 - Jorge Machado
Jorge Machado
Escritor desde os doze anos de idade (quando conheci a literatura e adotei o pseudônimo temporário de "Jorge Mamado"). Fui apresentado ao horror tarde, nas estantes da biblioteca pública do ensino médio. Desde então sigo na busca do funesto e do reprovável como forma de resistência à apatia e ao conformismo dessa geração.
Brinquei de punk durante a adolescência tardia e troquei a água pela cerveja. Depois pela pinga. Depois voltei aos livros. Viciado em gás lacrimogêneo e spray de pimenta, sonho em explodir o Ancapistão usando um artefato com a grafia "Propriedade é roubo" na fuselagem.





Identidade – Parte 04

       Os flashes fotográficos metralharam meu marido e seus assessores. Os representantes da imprensa queriam mais um pouco do show, mas o Dr. Descartes deu as costas e os abandonou.

       O arquiteto da encenação midiática, disso eu tinha certeza, era Paulo. Ele sempre foi vaidoso – de fato sempre pensei que essa seria a sua ruína -, mesquinho e soberbo. Fui enganada por anos pela casca perfumada e lisa, mas descobri, com o tempo de matrimônio, sua polpa amarga e rococó. Paulo estava usando Henry como um rato de laboratório, um voluntário para um número circense. Assim como usara – para minha eterna vergonha com minha ajuda – as vítimas de acidentes automobilísticos, as vítimas de sequestros relâmpagos, as vítimas de mutilações e brigas. Construindo fama e fortuna com a desgraça e humilhação de seus pacientes. Alcançando os céus com apoio da montanha de mutilados e deformados pela guerra diária que ocorre nos bastidores da nação. Quando Oppenheimer falou sobre a bomba atômica, em uma época em que incinerar pessoas ainda era uma tarefa que não podia ser feita em escala industrial, ele citou um texto sagrado Hindu, o Bhagavad Gita, alertando o mundo de que a ciência acabava de ser instrumentalizada pelo poder dominante. A ciência como meio, utilitária; e não como um fim em si mesma, uma descoberta. Era assim que Paulo Descartes via a ciência. Como uma ferramenta de conquista, de subjugação do outro.

       Os dias daquela semana se arrastaram como se tudo estivesse congelado. Havia uma névoa de incerteza e medo na metrópole. Um peso brutal se acumulava nas nuvens negras que tomavam conta do firmamento. Eu podia enxergar a silhueta de Paulo em meus pensamentos, recortado por sombras como em um take de filme noir, tremulando em meio a chispas de uma tempestade de raios. Imaginava meu marido na posição do Dr. Frankenstein, em seus devaneios de poder e dominação, fantasiando ser um criador, maquinando como faria para conquistar mais fama e dinheiro com o caso de Henry, a criatura, o monstro. Imaginava-o olhando para o mesmo céu que eu contemplava, envolvido pela eletricidade que deixava rastros incandescentes no horizonte acinzentado.

       As redes sociais, com usuários famintos pela discussão da vida alheia, fervilhavam com posts e memes sobre o que os jornais noticiavam. Notícias falsas, manipuladas com habilidade maldosa, eram espalhadas ao sabor de um milhão de cliques, ganhando cada vez mais alcance, retirando momentaneamente a liberdade de Anna de sair às ruas sem ser perturbada pelos olhares famintos dos espectadores da tragédia.

Páginas: 1 2 3 4 5 6 7

Jorge Machado
Identidade – Parte 04

       Os flashes fotográficos metralharam meu marido e seus assessores. Os representantes da imprensa queriam mais um pouco do show, mas o Dr. Descartes deu as costas e os abandonou.

       O arquiteto da encenação midiática, disso eu tinha certeza, era Paulo. Ele sempre foi vaidoso – de fato sempre pensei que essa seria a sua ruína -, mesquinho e soberbo. Fui enganada por anos pela casca perfumada e lisa, mas descobri, com o tempo de matrimônio, sua polpa amarga e rococó. Paulo estava usando Henry como um rato de laboratório, um voluntário para um número circense. Assim como usara – para minha eterna vergonha com minha ajuda – as vítimas de acidentes automobilísticos, as vítimas de sequestros relâmpagos, as vítimas de mutilações e brigas. Construindo fama e fortuna com a desgraça e humilhação de seus pacientes. Alcançando os céus com apoio da montanha de mutilados e deformados pela guerra diária que ocorre nos bastidores da nação. Quando Oppenheimer falou sobre a bomba atômica, em uma época em que incinerar pessoas ainda era uma tarefa que não podia ser feita em escala industrial, ele citou um texto sagrado Hindu, o Bhagavad Gita, alertando o mundo de que a ciência acabava de ser instrumentalizada pelo poder dominante. A ciência como meio, utilitária; e não como um fim em si mesma, uma descoberta. Era assim que Paulo Descartes via a ciência. Como uma ferramenta de conquista, de subjugação do outro.

       Os dias daquela semana se arrastaram como se tudo estivesse congelado. Havia uma névoa de incerteza e medo na metrópole. Um peso brutal se acumulava nas nuvens negras que tomavam conta do firmamento. Eu podia enxergar a silhueta de Paulo em meus pensamentos, recortado por sombras como em um take de filme noir, tremulando em meio a chispas de uma tempestade de raios. Imaginava meu marido na posição do Dr. Frankenstein, em seus devaneios de poder e dominação, fantasiando ser um criador, maquinando como faria para conquistar mais fama e dinheiro com o caso de Henry, a criatura, o monstro. Imaginava-o olhando para o mesmo céu que eu contemplava, envolvido pela eletricidade que deixava rastros incandescentes no horizonte acinzentado.

       As redes sociais, com usuários famintos pela discussão da vida alheia, fervilhavam com posts e memes sobre o que os jornais noticiavam. Notícias falsas, manipuladas com habilidade maldosa, eram espalhadas ao sabor de um milhão de cliques, ganhando cada vez mais alcance, retirando momentaneamente a liberdade de Anna de sair às ruas sem ser perturbada pelos olhares famintos dos espectadores da tragédia.

Páginas: 1 2 3 4 5 6 7