Identidade - Parte 04 - Jorge Machado
Jorge Machado
Escritor desde os doze anos de idade (quando conheci a literatura e adotei o pseudônimo temporário de "Jorge Mamado"). Fui apresentado ao horror tarde, nas estantes da biblioteca pública do ensino médio. Desde então sigo na busca do funesto e do reprovável como forma de resistência à apatia e ao conformismo dessa geração.
Brinquei de punk durante a adolescência tardia e troquei a água pela cerveja. Depois pela pinga. Depois voltei aos livros. Viciado em gás lacrimogêneo e spray de pimenta, sonho em explodir o Ancapistão usando um artefato com a grafia "Propriedade é roubo" na fuselagem.





Identidade – Parte 04

       Quando Henry foi liberado pela equipe de Descartes, em meio a uma saraivada de luzes fotográficas, sua fisionomia me colocou uma dúvida sincera no coração. Avistei-o primeiramente à distancia. Havia uma familiaridade na face que me desarmou por alguns segundos. Eu não sei exatamente o que esperava, mas nunca tive fé na recuperação completa do rosto. No entanto, o que vi, naquele átimo de segundo, antes de Henry entrar no veículo de Anna, foi o rosto do rapaz sonhador da turma de medicina do segundo semestre de 1994.

       Assim que o carro de Anna arrancou pela rua para escapar dos repórteres, entrei no Mercedes e disparei pela avenida, meu coração dando pulos, a pressão arterial sofrendo uma aceleração que não podia ser contida.

       “Preciso de você em casa, Sofia. Devo chegar ao apartamento em dez minutos”, disse Anna através de um serviço de mensagens de texto.

       “Já estou indo para lá. Estou alguns metros atrás de vocês.”

       Minhas pernas estavam doendo quando cheguei ao terceiro andar – o elevador estava quebrado como sempre. Anna me atendeu com prontidão e disse que Henry repousava em sua cama. Ele estava acordado, no entanto, e ficaria feliz de falar comigo por alguns minutos.

       Andei pelo corredor e não me detive para acariciar Sansão, que estava deitado contra a parede. Entrei no quarto como se estivesse abrindo a porta para a saída de um inferno pessoal. A luz do janelão tomava todo o quarto, uma névoa de desinfetante se espalhava pelo ambiente iluminado. Sentado na cama, com faixas em toda a extensão do torso e braços, Henry me encarava. Por um instante seu rosto ficou estático e pensei no pior, mas as articulações se movimentaram corretamente e cravaram naquele rosto familiar o mais belo de todos os sorrisos da terra.

       Mas o frio continuava, rigoroso e incansável, à despeito da luz.

(continua…)

 

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Jorge Machado
Identidade – Parte 04

       Quando Henry foi liberado pela equipe de Descartes, em meio a uma saraivada de luzes fotográficas, sua fisionomia me colocou uma dúvida sincera no coração. Avistei-o primeiramente à distancia. Havia uma familiaridade na face que me desarmou por alguns segundos. Eu não sei exatamente o que esperava, mas nunca tive fé na recuperação completa do rosto. No entanto, o que vi, naquele átimo de segundo, antes de Henry entrar no veículo de Anna, foi o rosto do rapaz sonhador da turma de medicina do segundo semestre de 1994.

       Assim que o carro de Anna arrancou pela rua para escapar dos repórteres, entrei no Mercedes e disparei pela avenida, meu coração dando pulos, a pressão arterial sofrendo uma aceleração que não podia ser contida.

       “Preciso de você em casa, Sofia. Devo chegar ao apartamento em dez minutos”, disse Anna através de um serviço de mensagens de texto.

       “Já estou indo para lá. Estou alguns metros atrás de vocês.”

       Minhas pernas estavam doendo quando cheguei ao terceiro andar – o elevador estava quebrado como sempre. Anna me atendeu com prontidão e disse que Henry repousava em sua cama. Ele estava acordado, no entanto, e ficaria feliz de falar comigo por alguns minutos.

       Andei pelo corredor e não me detive para acariciar Sansão, que estava deitado contra a parede. Entrei no quarto como se estivesse abrindo a porta para a saída de um inferno pessoal. A luz do janelão tomava todo o quarto, uma névoa de desinfetante se espalhava pelo ambiente iluminado. Sentado na cama, com faixas em toda a extensão do torso e braços, Henry me encarava. Por um instante seu rosto ficou estático e pensei no pior, mas as articulações se movimentaram corretamente e cravaram naquele rosto familiar o mais belo de todos os sorrisos da terra.

       Mas o frio continuava, rigoroso e incansável, à despeito da luz.

(continua…)

 

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