Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Jorge Machado
Escritor desde os doze anos de idade (quando conheci a literatura e adotei o pseudônimo temporário de "Jorge Mamado"). Fui apresentado ao horror tarde, nas estantes da biblioteca pública do ensino médio. Desde então sigo na busca do funesto e do reprovável como forma de resistência à apatia e ao conformismo dessa geração.
Brinquei de punk durante a adolescência tardia e troquei a água pela cerveja. Depois pela pinga. Depois voltei aos livros. Viciado em gás lacrimogêneo e spray de pimenta, sonho em explodir o Ancapistão usando um artefato com a grafia "Propriedade é roubo" na fuselagem.





O ego, e que a ele pertence

Sentia-me solitário apesar de sua presença. Submerso no catastrofismo de meus pensamentos naturalmente pessimistas e dos terríveis pesadelos que assombram meus devaneios de introspecção, eu estava só – ao seu lado. Podia sentir o frio desolador do vazio mundano embora minha capacidade intelectiva me desse a certeza de que você estava no banco do carona, a acompanhante do homem solitário, a companheira fiel de um ser abandonado. Vituperiosa e inexorável ironia que me esmaga!

Acelero o chevette a fim de provar a mim mesmo que estou vivo. Você reclama da alta velocidade e eu a ignoro como sempre. Já percebi há muito tempo que o que transcende a mim não merece nenhuma atenção. Não há como escapar do caos sufocante do “EU” que clama pela soberania! Simultaneamente, portanto não há como escapar da solidão asfixiante da existência. Os que tentaram se viram envoltos na mentira e quando menos esperavam estavam presos pelas amarras auto piedosa da fantasia que acorrenta o mundo, que embota o pensamento, que oprime os instintos, que venera a fraqueza…

Mas eu não lhe falo nada disso em voz alta.

Você esta assustada. Não olho diretamente para seu rosto, mas posso sentir seu medo. Posso imaginar as sobrancelhas arqueadas, os lábios apertados e aquele franzir da pele de sua testa.

Isso me excita.

Seu medo me excita e você sabe disso. E é só por isso que eu não diminuo. Sei que não existe nada além de mim, nada que transcenda a minha existência, logo você também sabe que não existe. Sabe perfeitamente que não passa de uma representação. Uma efígie mal acabada do ser perfeito que me tornei. Um mero vestígio da minha potência, uma centelha que serve a meu prazer. Por isso, está inquieta. Por isso sente medo, por isso chora e somente por isso me excita. Esta é sua clara função no cosmos. A única razão para que se apresente a mim.

O “EU” ruge em meu íntimo por mais mundo! Quer tudo o que pertence a ele. Quero tudo o que pertence a ele. Quer tudo o que pertence a mim. Quer tudo! Quero tudo!

E você é minha propriedade!

Enquanto acelero o carro contra o muro de concreto, olho pela primeira vez em seus olhos. Seu pânico me deixa entorpecido de alegria genuína! Você percebe que só eu estou usando cinto e isso me prova que você compreende meus anseios. Vejo seu corpo franzino ser arremessado contra o para-brisa enquanto o seu último suspiro se converte num resfolegar engasgado com vidro e sangue. Não me lembro de experimentar um êxtase tão completo de satisfação quanto sinto agora, ao ver sua estrutura corporal decapitada tombar inerte em meus ombros.

Neste momento, tenho tudo o que pertence ao “EU”.

 

Jorge Machado
O ego, e que a ele pertence

Sentia-me solitário apesar de sua presença. Submerso no catastrofismo de meus pensamentos naturalmente pessimistas e dos terríveis pesadelos que assombram meus devaneios de introspecção, eu estava só – ao seu lado. Podia sentir o frio desolador do vazio mundano embora minha capacidade intelectiva me desse a certeza de que você estava no banco do carona, a acompanhante do homem solitário, a companheira fiel de um ser abandonado. Vituperiosa e inexorável ironia que me esmaga!

Acelero o chevette a fim de provar a mim mesmo que estou vivo. Você reclama da alta velocidade e eu a ignoro como sempre. Já percebi há muito tempo que o que transcende a mim não merece nenhuma atenção. Não há como escapar do caos sufocante do “EU” que clama pela soberania! Simultaneamente, portanto não há como escapar da solidão asfixiante da existência. Os que tentaram se viram envoltos na mentira e quando menos esperavam estavam presos pelas amarras auto piedosa da fantasia que acorrenta o mundo, que embota o pensamento, que oprime os instintos, que venera a fraqueza…

Mas eu não lhe falo nada disso em voz alta.

Você esta assustada. Não olho diretamente para seu rosto, mas posso sentir seu medo. Posso imaginar as sobrancelhas arqueadas, os lábios apertados e aquele franzir da pele de sua testa.

Isso me excita.

Seu medo me excita e você sabe disso. E é só por isso que eu não diminuo. Sei que não existe nada além de mim, nada que transcenda a minha existência, logo você também sabe que não existe. Sabe perfeitamente que não passa de uma representação. Uma efígie mal acabada do ser perfeito que me tornei. Um mero vestígio da minha potência, uma centelha que serve a meu prazer. Por isso, está inquieta. Por isso sente medo, por isso chora e somente por isso me excita. Esta é sua clara função no cosmos. A única razão para que se apresente a mim.

O “EU” ruge em meu íntimo por mais mundo! Quer tudo o que pertence a ele. Quero tudo o que pertence a ele. Quer tudo o que pertence a mim. Quer tudo! Quero tudo!

E você é minha propriedade!

Enquanto acelero o carro contra o muro de concreto, olho pela primeira vez em seus olhos. Seu pânico me deixa entorpecido de alegria genuína! Você percebe que só eu estou usando cinto e isso me prova que você compreende meus anseios. Vejo seu corpo franzino ser arremessado contra o para-brisa enquanto o seu último suspiro se converte num resfolegar engasgado com vidro e sangue. Não me lembro de experimentar um êxtase tão completo de satisfação quanto sinto agora, ao ver sua estrutura corporal decapitada tombar inerte em meus ombros.

Neste momento, tenho tudo o que pertence ao “EU”.