Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Jorge Machado
Escritor desde os doze anos de idade (quando conheci a literatura e adotei o pseudônimo temporário de "Jorge Mamado"). Fui apresentado ao horror tarde, nas estantes da biblioteca pública do ensino médio. Desde então sigo na busca do funesto e do reprovável como forma de resistência à apatia e ao conformismo dessa geração.
Brinquei de punk durante a adolescência tardia e troquei a água pela cerveja. Depois pela pinga. Depois voltei aos livros. Viciado em gás lacrimogêneo e spray de pimenta, sonho em explodir o Ancapistão usando um artefato com a grafia "Propriedade é roubo" na fuselagem.





O último verso do poeta

O último verso soará estranho demais. Não transparecia o real sentimento preso em seu peito. Olhava o papel a sua frente e sentia um pesar imenso, uma sensação aterradora de incompletude, de vazio. O que estava faltando? Qual a palavra que procurava? Quais as combinações e consonâncias perfeitas que estava procurando? Num acesso de raiva irracional Flavio esmurrou o tampo da mesa de mogno e depois a arremessou no chão.

[INFERNO!]

Precisava dar um teco. A droga já se esvaíra de seu organismo agora. O processo estava ficando cada vez mais preocupante. Dez gramas antes eram o suficiente para a brisa de uma noite. Agora não bastavam mais. Precisava cheirar vinte. Em breve seriam trinta e nesse interim seu corpo se definhava transformando-se lentamente numa massa enrugada que embrulhava os ossos. Quanto tempo fazia mesmo? A menos de um mês estava saudável esteticamente. Ainda podia olhar-se no espelho e se reconhecer. Agora parecia olhar para o instante que precedia o cadáver.

[QUEM É VOCÊ, ESTRANHO?]

Podia sentir o odor da própria decomposição trescalando no ar e seguindo-o, um cheiro rascante, o cheiro da morte. Como chegara a esse estágio? Haveria volta? Não, não havia. Não desde que ela o deixara para sempre.

[PUTA DESGRAÇADA!]

Raquel o havia laçado prometendo a almejada felicidade e depois se desvencilhara de seus braços. Deixara-o à deriva, impotente, solitário. Nem sequer havia explicado o motivo de sua partida. Soubera de um amigo que a vadia estava em Milão seguindo a carreira de modelo.

[PUTA!]

Páginas: 1 2 3

Jorge Machado
O último verso do poeta

O último verso soará estranho demais. Não transparecia o real sentimento preso em seu peito. Olhava o papel a sua frente e sentia um pesar imenso, uma sensação aterradora de incompletude, de vazio. O que estava faltando? Qual a palavra que procurava? Quais as combinações e consonâncias perfeitas que estava procurando? Num acesso de raiva irracional Flavio esmurrou o tampo da mesa de mogno e depois a arremessou no chão.

[INFERNO!]

Precisava dar um teco. A droga já se esvaíra de seu organismo agora. O processo estava ficando cada vez mais preocupante. Dez gramas antes eram o suficiente para a brisa de uma noite. Agora não bastavam mais. Precisava cheirar vinte. Em breve seriam trinta e nesse interim seu corpo se definhava transformando-se lentamente numa massa enrugada que embrulhava os ossos. Quanto tempo fazia mesmo? A menos de um mês estava saudável esteticamente. Ainda podia olhar-se no espelho e se reconhecer. Agora parecia olhar para o instante que precedia o cadáver.

[QUEM É VOCÊ, ESTRANHO?]

Podia sentir o odor da própria decomposição trescalando no ar e seguindo-o, um cheiro rascante, o cheiro da morte. Como chegara a esse estágio? Haveria volta? Não, não havia. Não desde que ela o deixara para sempre.

[PUTA DESGRAÇADA!]

Raquel o havia laçado prometendo a almejada felicidade e depois se desvencilhara de seus braços. Deixara-o à deriva, impotente, solitário. Nem sequer havia explicado o motivo de sua partida. Soubera de um amigo que a vadia estava em Milão seguindo a carreira de modelo.

[PUTA!]

Páginas: 1 2 3