Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Jorge Machado
Escritor desde os doze anos de idade (quando conheci a literatura e adotei o pseudônimo temporário de "Jorge Mamado"). Fui apresentado ao horror tarde, nas estantes da biblioteca pública do ensino médio. Desde então sigo na busca do funesto e do reprovável como forma de resistência à apatia e ao conformismo dessa geração.
Brinquei de punk durante a adolescência tardia e troquei a água pela cerveja. Depois pela pinga. Depois voltei aos livros. Viciado em gás lacrimogêneo e spray de pimenta, sonho em explodir o Ancapistão usando um artefato com a grafia "Propriedade é roubo" na fuselagem.





O zumbido

“Ele escolheu uma mulher que não faz mal a uma mosca. Deve ser por isso que ela não consegue matar meu zumbido dentro de sua cabeça”
Tati Bernardi

“…Meus ouvidos têm um zumbido, dia e noite. Posso dizer que estou tendo uma vida desgraçada, porque não posso contar às pessoas que estou ficando surdo. Só para que você tenha uma ideia dessa surdez singular, devo dizer que no teatro preciso me aproximar muito da orquestra para compreender o ator. Se me afasto um pouco, não consigo escutar as notas altas dos instrumentos e dos cantores, e se me afasto um pouquinho mais não ouço absolutamente nada. Consigo, volta e meia, ouvir uma conversa em voz baixa, mas não entendo as palavras, e se alguém grita a sensação é insuportável…”
(Beethoven, 1770-1827 – em carta a um amigo)

 

Nada tem a capacidade de criar mitos como a poesia e a arte. Existe uma dimensão simbólica universal que se repete no tempo e, por força da repetição, cria a verdade. O mito da São Paulo da garoa, imortalizado por Mario de Andrade e outros gênios, era exemplo perfeito disso. Tal como a neblina londrina, a garoa paulista jamais existiu como idealizada pelos cantos poéticos do passado. Rodolfo era um profundo admirador da aura sobrenatural atribuída a sua cidade, mas no fim sabia que São Paulo era, na verdade a terra da tempestade. O cimento e o asfalto eram bombardeados durante o dia com o sol e o calor retido era liberado à tarde pelo efeito ilha de calor urbana. Esse efeito era responsável pela chuva que se materializara momentos antes. Assim como o paulista, a cidade se movimentava durante o dia e ficava triste à noite. As nuvens fechavam o céu e uma angústia opressora tomava conta do lugar. Rodolfo era a expressão perfeita dessa lógica perversa.

Naquela noite a tempestade já amainara o suficiente para que os mendigos pudessem expor suas lamúrias aos indiferentes. O frio nas ruas paulistas gelava os ossos e as folhas das árvores eram arrancadas pela força do vento. Um dos moradores de rua veio até Rodolfo e pediu por uma ajuda para comprar cobertores para aquela noite. Na testa de Rodolfo estava estampado um “foda-se” e ele murmurou algo para justificar a apatia. A jaqueta grossa de couro fazia bem seu papel, mas Rodolfo ainda podia sentir a fúria gélida da noite.

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Jorge Machado
O zumbido

“Ele escolheu uma mulher que não faz mal a uma mosca. Deve ser por isso que ela não consegue matar meu zumbido dentro de sua cabeça”
Tati Bernardi

“…Meus ouvidos têm um zumbido, dia e noite. Posso dizer que estou tendo uma vida desgraçada, porque não posso contar às pessoas que estou ficando surdo. Só para que você tenha uma ideia dessa surdez singular, devo dizer que no teatro preciso me aproximar muito da orquestra para compreender o ator. Se me afasto um pouco, não consigo escutar as notas altas dos instrumentos e dos cantores, e se me afasto um pouquinho mais não ouço absolutamente nada. Consigo, volta e meia, ouvir uma conversa em voz baixa, mas não entendo as palavras, e se alguém grita a sensação é insuportável…”
(Beethoven, 1770-1827 – em carta a um amigo)

 

Nada tem a capacidade de criar mitos como a poesia e a arte. Existe uma dimensão simbólica universal que se repete no tempo e, por força da repetição, cria a verdade. O mito da São Paulo da garoa, imortalizado por Mario de Andrade e outros gênios, era exemplo perfeito disso. Tal como a neblina londrina, a garoa paulista jamais existiu como idealizada pelos cantos poéticos do passado. Rodolfo era um profundo admirador da aura sobrenatural atribuída a sua cidade, mas no fim sabia que São Paulo era, na verdade a terra da tempestade. O cimento e o asfalto eram bombardeados durante o dia com o sol e o calor retido era liberado à tarde pelo efeito ilha de calor urbana. Esse efeito era responsável pela chuva que se materializara momentos antes. Assim como o paulista, a cidade se movimentava durante o dia e ficava triste à noite. As nuvens fechavam o céu e uma angústia opressora tomava conta do lugar. Rodolfo era a expressão perfeita dessa lógica perversa.

Naquela noite a tempestade já amainara o suficiente para que os mendigos pudessem expor suas lamúrias aos indiferentes. O frio nas ruas paulistas gelava os ossos e as folhas das árvores eram arrancadas pela força do vento. Um dos moradores de rua veio até Rodolfo e pediu por uma ajuda para comprar cobertores para aquela noite. Na testa de Rodolfo estava estampado um “foda-se” e ele murmurou algo para justificar a apatia. A jaqueta grossa de couro fazia bem seu papel, mas Rodolfo ainda podia sentir a fúria gélida da noite.

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