Suco de maçã - Jorge Machado
Jorge Machado
Escritor desde os doze anos de idade (quando conheci a literatura e adotei o pseudônimo temporário de "Jorge Mamado"). Fui apresentado ao horror tarde, nas estantes da biblioteca pública do ensino médio. Desde então sigo na busca do funesto e do reprovável como forma de resistência à apatia e ao conformismo dessa geração.
Brinquei de punk durante a adolescência tardia e troquei a água pela cerveja. Depois pela pinga. Depois voltei aos livros. Viciado em gás lacrimogêneo e spray de pimenta, sonho em explodir o Ancapistão usando um artefato com a grafia "Propriedade é roubo" na fuselagem.





Suco de maçã

A história se repetia todos os dias, seguindo um ciclo de tormento que deixava a pequena Sofia cada dia mais incomodada: seu irmão mais velho, Lucas, quinze anos de idade real – dez de idade mental -, acordava bem cedo, seis da matina, os pássaros ainda começavam a cantar lá fora. Lucas fazia questão de ser notado, andava praticamente batendo com os pés enfiados no tênis de corrida, as mãos se chocavam em palmas que reverberavam pelos corredores, o celular tocava músicas do Queens of the Stone Age, Smiths ou alguma outra dessas bandas que Sofia detestava com todas as forças. Mantinha o som no máximo enquanto andava pelo corredor em direção à sala, os passos se detinham por alguns segundos quando ele passava próximo de seu quarto, o som, aumentado pela proximidade, ficava insuportável e ela era obrigada a abandonar a zona REM do sono. Percebia que ele, entendendo que isso havia ocorrido, cumprindo sua missão de sadismo matinal, se dava por satisfeito e saía de casa para seu exercício rotineiro.

Todos os dias, refletia Sofia enquanto saboreava as torradas.

Lucas voltava após uma hora, o rosto pingando, o sorriso que a pequena Sofia não suportava estava sempre estampado no rosto, tomava o suco de maçã, coado, sem casca, que sua mãe sempre deixava pronto na mesa da cozinha, e olhava para ela como se não tivesse feito nada demais. “Dormiu bem, princesa?”, os olhos estavam serenos, mentirosos, redondos como bolas de pingue pongue. Sofia se perdia na viagem imaginativa de arrancar aqueles olhos e dar uma boa raquetada, como naqueles desenhos animados que assistia no Youtube, não “Tom e Jerry”, mas aqueles do pica-pau e do Coyote, definitivamente seus favoritos. Gostava também da sátira Simpsoniana que era o “Comichão e Coçadinha”, aquilo é que era entretenimento, uma pena que os produtores ainda não tinham sacado que era aquilo que as crianças de sua idade queriam ver.

Chegava morto de sede e, antes mesmo de fazer qualquer coisa, enchia um copo americano com o suco e entornava o líquido. Fazia questão de fazer barulho para que Sarah pudesse ouvir. O som a irritava como uma agulha encontrada após uma sentada num puff. Era uma irritação que borbulhava no sangue, uma irritação que a pequena cultivava como uma flor repleta de espinhos a qual não faria questão nenhuma de colher. Depois de beber dois copos generosos, ele sempre soltava um Ahhhhhh! enquanto a encarava fixamente, o olhar cínico de peixe.

Todo dia, sempre igual.

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Jorge Machado
Suco de maçã

A história se repetia todos os dias, seguindo um ciclo de tormento que deixava a pequena Sofia cada dia mais incomodada: seu irmão mais velho, Lucas, quinze anos de idade real – dez de idade mental -, acordava bem cedo, seis da matina, os pássaros ainda começavam a cantar lá fora. Lucas fazia questão de ser notado, andava praticamente batendo com os pés enfiados no tênis de corrida, as mãos se chocavam em palmas que reverberavam pelos corredores, o celular tocava músicas do Queens of the Stone Age, Smiths ou alguma outra dessas bandas que Sofia detestava com todas as forças. Mantinha o som no máximo enquanto andava pelo corredor em direção à sala, os passos se detinham por alguns segundos quando ele passava próximo de seu quarto, o som, aumentado pela proximidade, ficava insuportável e ela era obrigada a abandonar a zona REM do sono. Percebia que ele, entendendo que isso havia ocorrido, cumprindo sua missão de sadismo matinal, se dava por satisfeito e saía de casa para seu exercício rotineiro.

Todos os dias, refletia Sofia enquanto saboreava as torradas.

Lucas voltava após uma hora, o rosto pingando, o sorriso que a pequena Sofia não suportava estava sempre estampado no rosto, tomava o suco de maçã, coado, sem casca, que sua mãe sempre deixava pronto na mesa da cozinha, e olhava para ela como se não tivesse feito nada demais. “Dormiu bem, princesa?”, os olhos estavam serenos, mentirosos, redondos como bolas de pingue pongue. Sofia se perdia na viagem imaginativa de arrancar aqueles olhos e dar uma boa raquetada, como naqueles desenhos animados que assistia no Youtube, não “Tom e Jerry”, mas aqueles do pica-pau e do Coyote, definitivamente seus favoritos. Gostava também da sátira Simpsoniana que era o “Comichão e Coçadinha”, aquilo é que era entretenimento, uma pena que os produtores ainda não tinham sacado que era aquilo que as crianças de sua idade queriam ver.

Chegava morto de sede e, antes mesmo de fazer qualquer coisa, enchia um copo americano com o suco e entornava o líquido. Fazia questão de fazer barulho para que Sarah pudesse ouvir. O som a irritava como uma agulha encontrada após uma sentada num puff. Era uma irritação que borbulhava no sangue, uma irritação que a pequena cultivava como uma flor repleta de espinhos a qual não faria questão nenhuma de colher. Depois de beber dois copos generosos, ele sempre soltava um Ahhhhhh! enquanto a encarava fixamente, o olhar cínico de peixe.

Todo dia, sempre igual.

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