Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Jorge Machado
Escritor desde os doze anos de idade (quando conheci a literatura e adotei o pseudônimo temporário de "Jorge Mamado"). Fui apresentado ao horror tarde, nas estantes da biblioteca pública do ensino médio. Desde então sigo na busca do funesto e do reprovável como forma de resistência à apatia e ao conformismo dessa geração.
Brinquei de punk durante a adolescência tardia e troquei a água pela cerveja. Depois pela pinga. Depois voltei aos livros. Viciado em gás lacrimogêneo e spray de pimenta, sonho em explodir o Ancapistão usando um artefato com a grafia "Propriedade é roubo" na fuselagem.





Suco de maçã

Após seu teatro matinal, Lucas começava a encenar o segundo ato do dia: Sentava no sofá enquanto se despedia de sua mãe que se preparava para ir ao trabalho. A porta fechava com um baque e tudo na casa mudava como se um mago tivesse estalado os dedos curvos e sussurrado uma magia esquecida. Lucas ficava largado no sofá e sintonizava a TV em outro canal, um chiado curto de interferência e os moços bem vestidos do Jornal Globobal da tarde se materializavam na superfície pixelada. Lucas sempre mantinha um sorriso no rosto enquanto fingia assistir ao telejornal, os cantos dos olhos, aquelas bolas de pingue pongue gordas que ficariam melhor arrancadas do rosto, espiavam para ver se ela ia chorar. Mas ela não chorava mais, desistira disso há bastante tempo, era uma mocinha e tinha planos mais maduros em mente. Sofia repetia a rotina de esperar o tempo passar até as duas da tarde quando Lucas a trancava no banheiro o resto do dia para sair de casa e conversar com os amigos. O tempo demorava a passar e a imaginação era a única válvula de escape. Sofia brincava com seus pensamentos. Lucas caindo de um precipício como o coyote naquele episódio divertido de segunda. Lucas sendo esmagado por uma bigorna de duzentos quilos, os pés saindo do chapéu no qual seu corpo havia sido prensado e dançando em desespero. Lucas dentro de uma caixa de madeira sendo serrado por um mágico inexperiente. Ela se sentia uma boba rindo das coisas que desejava em sua mente. Nem precisava de TV de vez em quando, tinha aquilo que sua tia Anastácia chamava de uma imaginação fértil, uma capacidade de viajar sem sair do lugar, apenas criando cenas engraçadas na cabeça. Ela havia aprendido isso todas as tardes que ficava enclausurada no banheiro.

Todo dia.

Sempre igual.

João voltava sempre às oito da noite e demorava horas para se “lembrar” de Sarah e destrancar a porta do banheiro, a menina ansiava por sair e poder mexer no celular, mas sabia que isso costumava demorar. “Nada de contar para a mamãe, ou jogo esse celular no rio!”, a voz anasalada de Lucas repetia toda santa tarde.

Todo!

Dia!

Sempre!

Igual!

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Jorge Machado
Suco de maçã

Após seu teatro matinal, Lucas começava a encenar o segundo ato do dia: Sentava no sofá enquanto se despedia de sua mãe que se preparava para ir ao trabalho. A porta fechava com um baque e tudo na casa mudava como se um mago tivesse estalado os dedos curvos e sussurrado uma magia esquecida. Lucas ficava largado no sofá e sintonizava a TV em outro canal, um chiado curto de interferência e os moços bem vestidos do Jornal Globobal da tarde se materializavam na superfície pixelada. Lucas sempre mantinha um sorriso no rosto enquanto fingia assistir ao telejornal, os cantos dos olhos, aquelas bolas de pingue pongue gordas que ficariam melhor arrancadas do rosto, espiavam para ver se ela ia chorar. Mas ela não chorava mais, desistira disso há bastante tempo, era uma mocinha e tinha planos mais maduros em mente. Sofia repetia a rotina de esperar o tempo passar até as duas da tarde quando Lucas a trancava no banheiro o resto do dia para sair de casa e conversar com os amigos. O tempo demorava a passar e a imaginação era a única válvula de escape. Sofia brincava com seus pensamentos. Lucas caindo de um precipício como o coyote naquele episódio divertido de segunda. Lucas sendo esmagado por uma bigorna de duzentos quilos, os pés saindo do chapéu no qual seu corpo havia sido prensado e dançando em desespero. Lucas dentro de uma caixa de madeira sendo serrado por um mágico inexperiente. Ela se sentia uma boba rindo das coisas que desejava em sua mente. Nem precisava de TV de vez em quando, tinha aquilo que sua tia Anastácia chamava de uma imaginação fértil, uma capacidade de viajar sem sair do lugar, apenas criando cenas engraçadas na cabeça. Ela havia aprendido isso todas as tardes que ficava enclausurada no banheiro.

Todo dia.

Sempre igual.

João voltava sempre às oito da noite e demorava horas para se “lembrar” de Sarah e destrancar a porta do banheiro, a menina ansiava por sair e poder mexer no celular, mas sabia que isso costumava demorar. “Nada de contar para a mamãe, ou jogo esse celular no rio!”, a voz anasalada de Lucas repetia toda santa tarde.

Todo!

Dia!

Sempre!

Igual!

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