Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Jorge Machado
Escritor desde os doze anos de idade (quando conheci a literatura e adotei o pseudônimo temporário de "Jorge Mamado"). Fui apresentado ao horror tarde, nas estantes da biblioteca pública do ensino médio. Desde então sigo na busca do funesto e do reprovável como forma de resistência à apatia e ao conformismo dessa geração.
Brinquei de punk durante a adolescência tardia e troquei a água pela cerveja. Depois pela pinga. Depois voltei aos livros. Viciado em gás lacrimogêneo e spray de pimenta, sonho em explodir o Ancapistão usando um artefato com a grafia "Propriedade é roubo" na fuselagem.





Suco de maçã

Mas o dia seguinte foi diferente.

Quando Lucas acordou naquela manhã Sofia já havia despertado. Ele fez barulho. Ele tomou banho enquanto cantarolava no chuveiro. Ele fez o escândalo a procura do chinelo. Ele perguntou se havia acordado Sofia. E ele saiu para a corrida matinal.

Sofia pegou um pedaço de vidro que estava se descolando do vitrô velho do banheiro. Envolveu o pedacinho de vidro num pano de cozinha e usou um martelo para esmagá-lo. Bateu o vidro até que conseguiu transformar uma boa parte em pó. Colocou um pouco de pó sobre as mãos tomando cuidado para não se cortar.

Quando Lucas chegou ele fez questão de cumprir novamente com o ritual. Estranhou que sua irmã não estava assistindo os desenhos como era costumeiro, nem no celular, nem na televisão, mas decidiu encerrar seu teatro matinal como sempre.

Só percebeu que Sofia sorria quando deu a primeira golada no suco. Sentiu imediatamente a ardência dolorosa na garganta e se apressou em cuspir. O líquido que saiu era escarlate, Sofia riu quando viu as bolas de pingue pongue crescendo no rosto surpreso como naquele episódio do pica-pau em que o urubu vê uma garota bonita. Lucas não demorou a perceber que estava vomitando seu próprio sangue. Os pequeninos fragmentos de vidro se enganchavam no interior da garganta dançando uma valsa demoníaca, ferindo a epiglote e fazendo com que o sangue entrasse lentamente nos pulmões. Lucas olhava incrédulo para sua irmãzinha que nesse momento o encarava de volta e ria.

-Precisa de mais açúcar?

 

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Jorge Machado
Suco de maçã

Mas o dia seguinte foi diferente.

Quando Lucas acordou naquela manhã Sofia já havia despertado. Ele fez barulho. Ele tomou banho enquanto cantarolava no chuveiro. Ele fez o escândalo a procura do chinelo. Ele perguntou se havia acordado Sofia. E ele saiu para a corrida matinal.

Sofia pegou um pedaço de vidro que estava se descolando do vitrô velho do banheiro. Envolveu o pedacinho de vidro num pano de cozinha e usou um martelo para esmagá-lo. Bateu o vidro até que conseguiu transformar uma boa parte em pó. Colocou um pouco de pó sobre as mãos tomando cuidado para não se cortar.

Quando Lucas chegou ele fez questão de cumprir novamente com o ritual. Estranhou que sua irmã não estava assistindo os desenhos como era costumeiro, nem no celular, nem na televisão, mas decidiu encerrar seu teatro matinal como sempre.

Só percebeu que Sofia sorria quando deu a primeira golada no suco. Sentiu imediatamente a ardência dolorosa na garganta e se apressou em cuspir. O líquido que saiu era escarlate, Sofia riu quando viu as bolas de pingue pongue crescendo no rosto surpreso como naquele episódio do pica-pau em que o urubu vê uma garota bonita. Lucas não demorou a perceber que estava vomitando seu próprio sangue. Os pequeninos fragmentos de vidro se enganchavam no interior da garganta dançando uma valsa demoníaca, ferindo a epiglote e fazendo com que o sangue entrasse lentamente nos pulmões. Lucas olhava incrédulo para sua irmãzinha que nesse momento o encarava de volta e ria.

-Precisa de mais açúcar?

 

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