Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Jorge Machado
Escritor desde os doze anos de idade (quando conheci a literatura e adotei o pseudônimo temporário de "Jorge Mamado"). Fui apresentado ao horror tarde, nas estantes da biblioteca pública do ensino médio. Desde então sigo na busca do funesto e do reprovável como forma de resistência à apatia e ao conformismo dessa geração.
Brinquei de punk durante a adolescência tardia e troquei a água pela cerveja. Depois pela pinga. Depois voltei aos livros. Viciado em gás lacrimogêneo e spray de pimenta, sonho em explodir o Ancapistão usando um artefato com a grafia "Propriedade é roubo" na fuselagem.





Uma prece para o ar

O homem de terno negro e ar soturno limpou as lágrimas que ainda tinha no rosto e dobrou seus joelhos sobre o piso de mármore da igreja em reverência a seu Deus.

– Pai nosso que estais no céu… Senhor, eu… Humildemente peço perdão pelas minhas inúmeras transgressões. Sei que essa ultima semana me revelei um pecador imperdoável, mas o pastor Alfredo sempre diz que o Senhor perdoa tudo, não é mesmo? Estou em divida com a sua palavra e com seus ensinamentos seculares. Quero que saiba (e Tu tudo sabes) que eu não fiz algo assim tão horrível sem motivos, nem tão pouco acho que o crime pavoroso que cometi representa algo negativo para a humanidade. Para ser totalmente franco penso que o mundo se torna menos amargo e mais aprazível sem ela.

O homem tomou folego e tentou suprimir as lagrimas que teimavam em vazar de seus olhos.

– Vou confessar a Ti, Ser pleno em misericórdia como tudo aconteceu.

“A vida a dois, o sagrado matrimônio iluminado pela Tua luz, estava se tornando insustentável. Até então nunca havia me dado conta da frieza indiferente e do comportamento lascivo-pecaminoso de minha esposa, Maria. Ela sempre havia sido a esposa mais carinhosa e dedicada. Nunca se negara a nada. Sempre fizera tudo o que eu lhe pedia sem pestanejar e mantendo no rosto um sorriso sincero. Nunca se negara a cumprir seu papel de esposa. A coisa começou a mudar muito bruscamente. Quando dei por mim estava sendo bombardeado por insolências provenientes de uma súbita erupção dos verdadeiros sentimentos presos em Maria. Ela se recusava a fazer os serviços domésticos da forma que eu exigia e vivia falando em ser mais independente. Como se eu fosse um louco que a prendesse dentro de casa e a sufocasse a todo o momento. Era claro para mim que Maria estava perdendo o juízo. Ela se recusava até mesmo a fazer sexo comigo. Se recusava a cumprir com uma de suas obrigações matrimoniais mais básicas! A culpa e a incerteza começaram a me corroer desde então”.

“Eu tinha certeza (embora não estivesse munido de nenhuma evidência ou prova concreta) que Maria estava tendo um caso. Só podia ser por isso que tinha enfiado na cabeça ideias tão absurdas e repentinas. Só podia ser o diabo soprando sandices em sua cabeça oca!”

Páginas: 1 2

Jorge Machado
Uma prece para o ar

O homem de terno negro e ar soturno limpou as lágrimas que ainda tinha no rosto e dobrou seus joelhos sobre o piso de mármore da igreja em reverência a seu Deus.

– Pai nosso que estais no céu… Senhor, eu… Humildemente peço perdão pelas minhas inúmeras transgressões. Sei que essa ultima semana me revelei um pecador imperdoável, mas o pastor Alfredo sempre diz que o Senhor perdoa tudo, não é mesmo? Estou em divida com a sua palavra e com seus ensinamentos seculares. Quero que saiba (e Tu tudo sabes) que eu não fiz algo assim tão horrível sem motivos, nem tão pouco acho que o crime pavoroso que cometi representa algo negativo para a humanidade. Para ser totalmente franco penso que o mundo se torna menos amargo e mais aprazível sem ela.

O homem tomou folego e tentou suprimir as lagrimas que teimavam em vazar de seus olhos.

– Vou confessar a Ti, Ser pleno em misericórdia como tudo aconteceu.

“A vida a dois, o sagrado matrimônio iluminado pela Tua luz, estava se tornando insustentável. Até então nunca havia me dado conta da frieza indiferente e do comportamento lascivo-pecaminoso de minha esposa, Maria. Ela sempre havia sido a esposa mais carinhosa e dedicada. Nunca se negara a nada. Sempre fizera tudo o que eu lhe pedia sem pestanejar e mantendo no rosto um sorriso sincero. Nunca se negara a cumprir seu papel de esposa. A coisa começou a mudar muito bruscamente. Quando dei por mim estava sendo bombardeado por insolências provenientes de uma súbita erupção dos verdadeiros sentimentos presos em Maria. Ela se recusava a fazer os serviços domésticos da forma que eu exigia e vivia falando em ser mais independente. Como se eu fosse um louco que a prendesse dentro de casa e a sufocasse a todo o momento. Era claro para mim que Maria estava perdendo o juízo. Ela se recusava até mesmo a fazer sexo comigo. Se recusava a cumprir com uma de suas obrigações matrimoniais mais básicas! A culpa e a incerteza começaram a me corroer desde então”.

“Eu tinha certeza (embora não estivesse munido de nenhuma evidência ou prova concreta) que Maria estava tendo um caso. Só podia ser por isso que tinha enfiado na cabeça ideias tão absurdas e repentinas. Só podia ser o diabo soprando sandices em sua cabeça oca!”

Páginas: 1 2