Urbanoia – Final - Jorge Machado
Jorge Machado
Escritor desde os doze anos de idade (quando conheci a literatura e adotei o pseudônimo temporário de "Jorge Mamado"). Fui apresentado ao horror tarde, nas estantes da biblioteca pública do ensino médio. Desde então sigo na busca do funesto e do reprovável como forma de resistência à apatia e ao conformismo dessa geração.
Brinquei de punk durante a adolescência tardia e troquei a água pela cerveja. Depois pela pinga. Depois voltei aos livros. Viciado em gás lacrimogêneo e spray de pimenta, sonho em explodir o Ancapistão usando um artefato com a grafia "Propriedade é roubo" na fuselagem.





Urbanoia – Final

Leia a parte 2 aqui: http://maldohorror.com.br/jorge-machado/urbanoia-parte-2/

O segundo ano de meu exílio foi marcado por uma sucessão de choques de realidade que ajudaram a endurecer o meu caráter, formando uma carapaça inexpugnável de vácuo sentimental, ódio e instinto finalmente reunidos em uma parceria que nunca deveria ter acabado, como se estivesse dando vasão para os distantes tambores de minha humanidade selvagem, o pragmatismo natural a todo portador de caninos afiados emergindo das águas negras do sono.

O toco do braço esquerdo era uma formação escamosa e irregular, como as formas dos troncos de árvores antigas, rugoso, repleto de protuberâncias, conservando ainda o ferimento necrosado que nunca cicatrizava, pulsando esporadicamente como uma pústula perpétua. Os sapatos haviam se desgastado completamente, a sola era um buraco que ligava o chão duro à planta calejada dos pés, a peregrinação pela cidade continuava a despeito do desconforto. A besta de concreto apareceu apenas cinco vezes durante todo o segundo ano, suas presas arrastavam o corpo deformado pelo solo e por onde passava deixava vestígios de vidro moído e gesso.

“Fuja daqui!”, sussurrou a moça no tailleur prata, os dentes pareciam lápides, as olheiras duas covas, enquanto passava por mim no terminal rodoviário do Tietê.

“Ela está vindo”, um homem de jaleco branco manchado de sangue no mezanino do mercado municipal, as mãos iam e vinham embalando uma peça de presunto na fatiadora automática, os olhos estavam fixos numa distância impossível de calcular, como se enxergassem para além dos espectros conhecidos.

“Ela é a perdição absoluta”, uma senhora de cabelos ralos, aparência insalubre, maltratada por muito mais do que apenas o tempo, o rosto cheio de feridas, vestia um uniforme cuja origem era impossível de saber fora do ambiente apropriado.

“Fuja antes do inverno”, um padre de olhar cansado na fachada da igreja da Boa Morte, os lábios espremidos como se estivesse prestes a completar sua frase com algo que não estava autorizado, as mãos lentamente desenhando uma cruz no peito e depois repousando na boca.

Páginas: 1 2 3 4 5 6 7

Jorge Machado
Urbanoia – Final

Leia a parte 2 aqui: http://maldohorror.com.br/jorge-machado/urbanoia-parte-2/

O segundo ano de meu exílio foi marcado por uma sucessão de choques de realidade que ajudaram a endurecer o meu caráter, formando uma carapaça inexpugnável de vácuo sentimental, ódio e instinto finalmente reunidos em uma parceria que nunca deveria ter acabado, como se estivesse dando vasão para os distantes tambores de minha humanidade selvagem, o pragmatismo natural a todo portador de caninos afiados emergindo das águas negras do sono.

O toco do braço esquerdo era uma formação escamosa e irregular, como as formas dos troncos de árvores antigas, rugoso, repleto de protuberâncias, conservando ainda o ferimento necrosado que nunca cicatrizava, pulsando esporadicamente como uma pústula perpétua. Os sapatos haviam se desgastado completamente, a sola era um buraco que ligava o chão duro à planta calejada dos pés, a peregrinação pela cidade continuava a despeito do desconforto. A besta de concreto apareceu apenas cinco vezes durante todo o segundo ano, suas presas arrastavam o corpo deformado pelo solo e por onde passava deixava vestígios de vidro moído e gesso.

“Fuja daqui!”, sussurrou a moça no tailleur prata, os dentes pareciam lápides, as olheiras duas covas, enquanto passava por mim no terminal rodoviário do Tietê.

“Ela está vindo”, um homem de jaleco branco manchado de sangue no mezanino do mercado municipal, as mãos iam e vinham embalando uma peça de presunto na fatiadora automática, os olhos estavam fixos numa distância impossível de calcular, como se enxergassem para além dos espectros conhecidos.

“Ela é a perdição absoluta”, uma senhora de cabelos ralos, aparência insalubre, maltratada por muito mais do que apenas o tempo, o rosto cheio de feridas, vestia um uniforme cuja origem era impossível de saber fora do ambiente apropriado.

“Fuja antes do inverno”, um padre de olhar cansado na fachada da igreja da Boa Morte, os lábios espremidos como se estivesse prestes a completar sua frase com algo que não estava autorizado, as mãos lentamente desenhando uma cruz no peito e depois repousando na boca.

Páginas: 1 2 3 4 5 6 7