Urbanoia – Final - Jorge Machado
Jorge Machado
Escritor desde os doze anos de idade (quando conheci a literatura e adotei o pseudônimo temporário de "Jorge Mamado"). Fui apresentado ao horror tarde, nas estantes da biblioteca pública do ensino médio. Desde então sigo na busca do funesto e do reprovável como forma de resistência à apatia e ao conformismo dessa geração.
Brinquei de punk durante a adolescência tardia e troquei a água pela cerveja. Depois pela pinga. Depois voltei aos livros. Viciado em gás lacrimogêneo e spray de pimenta, sonho em explodir o Ancapistão usando um artefato com a grafia "Propriedade é roubo" na fuselagem.





Urbanoia – Final

E o som da betoneira voltava com cada vez maior frequência e intensidade, uma vibração que ultrapassava a barreira do tempo, ondas mecânicas que condensavam todos os pedidos de socorro já feitos; infanticídios, estupros, enforcamentos – cada estalar vibratório da betoneira um pescoço –, todos os crimes convergindo no semblante tenebroso da súcubo de cimento. Os pés em carne viva pediam por uma pausa, mas naquele inverno de 2021, o demônio parecia disposto a cumprir seu intento. Ao longo de oito dias e nove noites, com a sola dos pés tendo decorado com sangue o Parque da Luz, a Avenida Paulista, o Largo do Arouche, o Parque do Ipiranga, o Bixiga, o Largo do Batata, fui perseguido pelo tremor mal intencionado da criatura, uma dor excruciante tomando conta dos joelhos, a sede e a fome alcançando o auge, as estrelas no céu se unindo na valsa celeste do caos translacional e rotacional da terra, as mesmas constelações capazes de guiar frotas inteiras de desbravadores ibéricos, eram para mim como buracos negros, densos aglomerados supercomprimidos de falta de sentido, incapazes de orientar o caminho de quem quer que fosse.

O corpo humano, levado a condições limites de estresse, pressionado para encontrar constantemente novas soluções, adaptando-se como um fluido num jarro para evitar o perecimento, não é capaz de manter o ritmo por muito tempo, o momento da implosão vai chegando cada vez mais perto a cada minuto, a vontade de viver vai colapsando.

No terceiro ano da caça me encontrei no acostamento da rodovia Transbrasiliana, carretas passando a velocidades assombrosas ao meu lado, a betoneira rugindo de mês em mês, as pernas se tornando próteses de carne surrada que não eram capazes de sentir mais nada, a trilha de asfalto apontando para o norte, cortando São José do Rio Preto em direção a Minas Gerais, Araporã, paisagem cada vez menos familiar, Itumbiara, Morrinhos, Hidrolândia, ocasionalmente um posto de parada que servia aos caminhoneiros e viajantes, pessoas com olhares confusos para minha aparente insanidade, Aparecida de Goiânia, Anápolis, Jaraguá, mudanças geográficas sensíveis, morros e serras que recortavam as fazendas, chuvas que revezavam com longos períodos ensolarados, Uruaçu, Porangatu, rios labirínticos por toda a parte, chegando em Tocantins, Talismã, Alvorada, Figueirópolis, Gurupi, Nova Rosalândia, imensas igrejas, nenhum Deus, Miranorte, Guaraí, o clima seco, a garganta contorcida em agonia, bebendo o próprio suor que descia pela face, passando por Araguaína, Xambioá, adentrando o Pará e desembocando em São Domingos do Araguaia, mas tudo ainda era estrangeiro.

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Jorge Machado
Urbanoia – Final

E o som da betoneira voltava com cada vez maior frequência e intensidade, uma vibração que ultrapassava a barreira do tempo, ondas mecânicas que condensavam todos os pedidos de socorro já feitos; infanticídios, estupros, enforcamentos – cada estalar vibratório da betoneira um pescoço –, todos os crimes convergindo no semblante tenebroso da súcubo de cimento. Os pés em carne viva pediam por uma pausa, mas naquele inverno de 2021, o demônio parecia disposto a cumprir seu intento. Ao longo de oito dias e nove noites, com a sola dos pés tendo decorado com sangue o Parque da Luz, a Avenida Paulista, o Largo do Arouche, o Parque do Ipiranga, o Bixiga, o Largo do Batata, fui perseguido pelo tremor mal intencionado da criatura, uma dor excruciante tomando conta dos joelhos, a sede e a fome alcançando o auge, as estrelas no céu se unindo na valsa celeste do caos translacional e rotacional da terra, as mesmas constelações capazes de guiar frotas inteiras de desbravadores ibéricos, eram para mim como buracos negros, densos aglomerados supercomprimidos de falta de sentido, incapazes de orientar o caminho de quem quer que fosse.

O corpo humano, levado a condições limites de estresse, pressionado para encontrar constantemente novas soluções, adaptando-se como um fluido num jarro para evitar o perecimento, não é capaz de manter o ritmo por muito tempo, o momento da implosão vai chegando cada vez mais perto a cada minuto, a vontade de viver vai colapsando.

No terceiro ano da caça me encontrei no acostamento da rodovia Transbrasiliana, carretas passando a velocidades assombrosas ao meu lado, a betoneira rugindo de mês em mês, as pernas se tornando próteses de carne surrada que não eram capazes de sentir mais nada, a trilha de asfalto apontando para o norte, cortando São José do Rio Preto em direção a Minas Gerais, Araporã, paisagem cada vez menos familiar, Itumbiara, Morrinhos, Hidrolândia, ocasionalmente um posto de parada que servia aos caminhoneiros e viajantes, pessoas com olhares confusos para minha aparente insanidade, Aparecida de Goiânia, Anápolis, Jaraguá, mudanças geográficas sensíveis, morros e serras que recortavam as fazendas, chuvas que revezavam com longos períodos ensolarados, Uruaçu, Porangatu, rios labirínticos por toda a parte, chegando em Tocantins, Talismã, Alvorada, Figueirópolis, Gurupi, Nova Rosalândia, imensas igrejas, nenhum Deus, Miranorte, Guaraí, o clima seco, a garganta contorcida em agonia, bebendo o próprio suor que descia pela face, passando por Araguaína, Xambioá, adentrando o Pará e desembocando em São Domingos do Araguaia, mas tudo ainda era estrangeiro.

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