Urbanoia – Final - Jorge Machado
Jorge Machado
Escritor desde os doze anos de idade (quando conheci a literatura e adotei o pseudônimo temporário de "Jorge Mamado"). Fui apresentado ao horror tarde, nas estantes da biblioteca pública do ensino médio. Desde então sigo na busca do funesto e do reprovável como forma de resistência à apatia e ao conformismo dessa geração.
Brinquei de punk durante a adolescência tardia e troquei a água pela cerveja. Depois pela pinga. Depois voltei aos livros. Viciado em gás lacrimogêneo e spray de pimenta, sonho em explodir o Ancapistão usando um artefato com a grafia "Propriedade é roubo" na fuselagem.





Urbanoia – Final

Uma charneca crestada, uma pousada que aguardava as férias dos proprietários, trilhas de barro usadas por amantes do trekking, prédios rareando aos poucos, novas modalidades de vegetação que só eram cultivadas naquela região abraçavam com certa ternura a nova paisagem, pássaros passavam a ser ouvidos com maior frequência, suas serenatas cabriolando no ar para quem quisesse dar atenção, um canto que quase me fazia esquecer do tremor stalinista da betoneira, o demônio que seguia em seu ímpeto homicida, incansável, uma força para a qual a vida humana era indistinguível do rastejamento dos vermes.

A paisagem se tornava cada vez menos urbanizada, as casas davam lugar às árvores, os edifícios davam lugar ao mangue, as ruminações caóticas de carros acelerando no trânsito eram substituídas por uma cacofonia selvagem de carbono em movimento, grossas raízes, formações naturais centenárias, serpenteavam pela terra onde os insetos e formas de vida diversas pulsavam, o mundo se invertia em sua ordem e dava lugar a uma terra sem filosofia nem moral, uma dimensão onde todas as técnicas haviam sido desinventadas.

O golem de cimento apareceu assim que me embrenhei na mata. Um som horrível de árvores sendo derrubadas, jatobás imensos se dobrando sobre si mesmos, as bases se convertendo em um torvelinho de ripas e farpas em suspensão na nuvem de poeira, pássaros esvoaçando amedrontados, pequenos animais em fuga, uma trilha de destruição ambiental se formando na mata virgem. O som da vibração era um longo lamento, uma súplica impossível de atender, contraditória, a um só tempo a dádiva do fim da fuga e o desgosto da morte pela violência.

Correr pela selva é uma tarefa praticamente impossível, motivo pelo qual cheguei a pensar que aquele seria o ambiente perfeito para o triunfo da súcubo. Mas o demônio também encontrava dificuldades na locomoção. Com o passar das horas de perseguição ficou claro que a força que usara para derrubar as árvores era apenas uma explosão inicial. Não havia folego para continuar… Assim me pareceu.

Durante dois dias de caminhada pela floresta me alimentei de plantas, flores, ervas, cogumelos, frutos de aparência exótica, hortaliças amargas, sementes de difícil digestão, pequenos animais e insetos, um banquete se comparado com as caçambas de lixo da capital paulista. Vomitei e fiz uma anotação mental para evitar as flores amarelas em formato de cata-vento, aparentemente venenosas apesar da beleza estética.

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Jorge Machado
Urbanoia – Final

Uma charneca crestada, uma pousada que aguardava as férias dos proprietários, trilhas de barro usadas por amantes do trekking, prédios rareando aos poucos, novas modalidades de vegetação que só eram cultivadas naquela região abraçavam com certa ternura a nova paisagem, pássaros passavam a ser ouvidos com maior frequência, suas serenatas cabriolando no ar para quem quisesse dar atenção, um canto que quase me fazia esquecer do tremor stalinista da betoneira, o demônio que seguia em seu ímpeto homicida, incansável, uma força para a qual a vida humana era indistinguível do rastejamento dos vermes.

A paisagem se tornava cada vez menos urbanizada, as casas davam lugar às árvores, os edifícios davam lugar ao mangue, as ruminações caóticas de carros acelerando no trânsito eram substituídas por uma cacofonia selvagem de carbono em movimento, grossas raízes, formações naturais centenárias, serpenteavam pela terra onde os insetos e formas de vida diversas pulsavam, o mundo se invertia em sua ordem e dava lugar a uma terra sem filosofia nem moral, uma dimensão onde todas as técnicas haviam sido desinventadas.

O golem de cimento apareceu assim que me embrenhei na mata. Um som horrível de árvores sendo derrubadas, jatobás imensos se dobrando sobre si mesmos, as bases se convertendo em um torvelinho de ripas e farpas em suspensão na nuvem de poeira, pássaros esvoaçando amedrontados, pequenos animais em fuga, uma trilha de destruição ambiental se formando na mata virgem. O som da vibração era um longo lamento, uma súplica impossível de atender, contraditória, a um só tempo a dádiva do fim da fuga e o desgosto da morte pela violência.

Correr pela selva é uma tarefa praticamente impossível, motivo pelo qual cheguei a pensar que aquele seria o ambiente perfeito para o triunfo da súcubo. Mas o demônio também encontrava dificuldades na locomoção. Com o passar das horas de perseguição ficou claro que a força que usara para derrubar as árvores era apenas uma explosão inicial. Não havia folego para continuar… Assim me pareceu.

Durante dois dias de caminhada pela floresta me alimentei de plantas, flores, ervas, cogumelos, frutos de aparência exótica, hortaliças amargas, sementes de difícil digestão, pequenos animais e insetos, um banquete se comparado com as caçambas de lixo da capital paulista. Vomitei e fiz uma anotação mental para evitar as flores amarelas em formato de cata-vento, aparentemente venenosas apesar da beleza estética.

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