Urbanoia – Final - Jorge Machado
Jorge Machado
Escritor desde os doze anos de idade (quando conheci a literatura e adotei o pseudônimo temporário de "Jorge Mamado"). Fui apresentado ao horror tarde, nas estantes da biblioteca pública do ensino médio. Desde então sigo na busca do funesto e do reprovável como forma de resistência à apatia e ao conformismo dessa geração.
Brinquei de punk durante a adolescência tardia e troquei a água pela cerveja. Depois pela pinga. Depois voltei aos livros. Viciado em gás lacrimogêneo e spray de pimenta, sonho em explodir o Ancapistão usando um artefato com a grafia "Propriedade é roubo" na fuselagem.





Urbanoia – Final

A luz do sol mal conseguia penetrar na mata fechada, noite perpétua repleta de gemidos e plantas sibilando, uma comunicação impenetrável, como um aviso vindo de outras dimensões, predadores em toda a parte, caminhando como donos de si, endurecidos pelo ambiente, cada galho que se partia abaixo de meus pés era um convite para ser despedaçado pelas feras. Mas, de alguma forma, permaneci vivo quando cheguei à margem de um imenso rio cuja margem oposta não podia ser vista daquela distância. Os sons da floresta haviam cessado e, enquanto caminhava pelas margens repletas de aclives e obstáculos formados pelas raízes robustas de Cajuaçus, Jacarandás, Tatajubas e Maçarandubas, senti como se olhos estivessem emergindo das nervuras de madeira, juízes de uma ordem desconhecida, como que se assegurando de que seguisse pelo caminho correto, uma sensação que neutralizava a capacidade de raciocínio, tornando impossível conhecer os desígnios da força misteriosa que parecia me guiar.

Três dias depois me deparei com uma frota de canoas que repousavam nas margens do imenso rio. Quinze canoas caiçara provavelmente usadas para a pesca por alguma tribo isolada. Eu não sabia mais se estava no Brasil – embora ainda tudo me parecesse estrangeiro –, a noção do tempo havia sido distorcida durante a caminhada na escuridão da mata de terra firme. Ao ouvir o som de um apito – um silvo que não encontrava paralelo em nenhum som existente –, andei em direção oposta ao rio, passando por um ecossistema peculiar, flores de cores que os olhos não eram capazes de processar, perfumes desconhecidos que acalmavam o espírito, plantas com formas inusitadas, cipós que pareciam espiralar em sua descida das árvores, um tronco único que parecia ter um quilômetro de diâmetro, suas raízes pareciam novas arvores e sua textura lembrava a rocha, firme e reluzente na luz solar que invadia a imensa clareira.

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Jorge Machado
Urbanoia – Final

A luz do sol mal conseguia penetrar na mata fechada, noite perpétua repleta de gemidos e plantas sibilando, uma comunicação impenetrável, como um aviso vindo de outras dimensões, predadores em toda a parte, caminhando como donos de si, endurecidos pelo ambiente, cada galho que se partia abaixo de meus pés era um convite para ser despedaçado pelas feras. Mas, de alguma forma, permaneci vivo quando cheguei à margem de um imenso rio cuja margem oposta não podia ser vista daquela distância. Os sons da floresta haviam cessado e, enquanto caminhava pelas margens repletas de aclives e obstáculos formados pelas raízes robustas de Cajuaçus, Jacarandás, Tatajubas e Maçarandubas, senti como se olhos estivessem emergindo das nervuras de madeira, juízes de uma ordem desconhecida, como que se assegurando de que seguisse pelo caminho correto, uma sensação que neutralizava a capacidade de raciocínio, tornando impossível conhecer os desígnios da força misteriosa que parecia me guiar.

Três dias depois me deparei com uma frota de canoas que repousavam nas margens do imenso rio. Quinze canoas caiçara provavelmente usadas para a pesca por alguma tribo isolada. Eu não sabia mais se estava no Brasil – embora ainda tudo me parecesse estrangeiro –, a noção do tempo havia sido distorcida durante a caminhada na escuridão da mata de terra firme. Ao ouvir o som de um apito – um silvo que não encontrava paralelo em nenhum som existente –, andei em direção oposta ao rio, passando por um ecossistema peculiar, flores de cores que os olhos não eram capazes de processar, perfumes desconhecidos que acalmavam o espírito, plantas com formas inusitadas, cipós que pareciam espiralar em sua descida das árvores, um tronco único que parecia ter um quilômetro de diâmetro, suas raízes pareciam novas arvores e sua textura lembrava a rocha, firme e reluzente na luz solar que invadia a imensa clareira.

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