Urbanoia – Final - Jorge Machado
Jorge Machado
Escritor desde os doze anos de idade (quando conheci a literatura e adotei o pseudônimo temporário de "Jorge Mamado"). Fui apresentado ao horror tarde, nas estantes da biblioteca pública do ensino médio. Desde então sigo na busca do funesto e do reprovável como forma de resistência à apatia e ao conformismo dessa geração.
Brinquei de punk durante a adolescência tardia e troquei a água pela cerveja. Depois pela pinga. Depois voltei aos livros. Viciado em gás lacrimogêneo e spray de pimenta, sonho em explodir o Ancapistão usando um artefato com a grafia "Propriedade é roubo" na fuselagem.





Urbanoia – Final

No meio das raízes descomunalmente grandes, ocas montadas no abraço da formação arbórea. Caindo de joelhos, observei a reunião de uma tribo inteira, corpos musculosos pintados com urucum, jenipapo e babaçu, plumagens de aves desconhecidas enfeitando os pulsos e cocares, peles de onça pintada estendidas sobre as articulações, sementes de formato pentagonal coladas ao corpo com resina, ossos atravessados nas orelhas, narizes e bocas, mulheres segurando peças de artesanato belíssimas abaixo dos seios, crianças olhando assustadas por trás de suas mães; os originários pareciam me aguardar naquele momento, à frente deles havia um banquete preparado com temperos que jamais alguém fora daquelas cercanias havia provado.

O silêncio durou uma eternidade. Por fim, o homem que se encontrava ao centro dos originários, feições duras, mãos enormes, músculos trabalhados, um olhar que transmitia um gélido tremeluzir em minha pele, agachou-se e sussurrou algo no ouvido de uma criança, seus olhos não me abandonando nem por um segundo. O menino assentiu e andou até o banquete. Recolheu a vasilha da figueira cuja brasa morria lentamente, andou em minha direção, abandonou a vasilha com o líquido espesso próximo a mim e correu de volta para as pernas de seu suposto pai.

Houve cinco minutos inteiros de silêncio, a cumbuca esfriava lentamente. Cedendo, apavorado, peguei a cumbuca e levei aos lábios. Não havia sopa mais saborosa em toda a terra. O caldo espesso, levemente salgado, coberto de sedimentos de ervas e temperos, reanimou meu corpo pouco a pouco.

Os originários explodiram em súbita festa. Houve dança, bebedeira, sexo, uma comemoração que pareceu durar dias, tambores que retumbavam ininterruptamente, flechas alçadas ao céu envoltas em chamas, cantorias, sorrisos, lutas que pareciam cumprir um ritual de extravasamento, incensos que tinham um cheiro doce que causava engulhos, escaladas na estrutura da árvore gigante, mais dança, a dança parecia nunca acabar, era executada no compasso dos tambores, flautas acompanhavam a cantoria.

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Jorge Machado
Urbanoia – Final

No meio das raízes descomunalmente grandes, ocas montadas no abraço da formação arbórea. Caindo de joelhos, observei a reunião de uma tribo inteira, corpos musculosos pintados com urucum, jenipapo e babaçu, plumagens de aves desconhecidas enfeitando os pulsos e cocares, peles de onça pintada estendidas sobre as articulações, sementes de formato pentagonal coladas ao corpo com resina, ossos atravessados nas orelhas, narizes e bocas, mulheres segurando peças de artesanato belíssimas abaixo dos seios, crianças olhando assustadas por trás de suas mães; os originários pareciam me aguardar naquele momento, à frente deles havia um banquete preparado com temperos que jamais alguém fora daquelas cercanias havia provado.

O silêncio durou uma eternidade. Por fim, o homem que se encontrava ao centro dos originários, feições duras, mãos enormes, músculos trabalhados, um olhar que transmitia um gélido tremeluzir em minha pele, agachou-se e sussurrou algo no ouvido de uma criança, seus olhos não me abandonando nem por um segundo. O menino assentiu e andou até o banquete. Recolheu a vasilha da figueira cuja brasa morria lentamente, andou em minha direção, abandonou a vasilha com o líquido espesso próximo a mim e correu de volta para as pernas de seu suposto pai.

Houve cinco minutos inteiros de silêncio, a cumbuca esfriava lentamente. Cedendo, apavorado, peguei a cumbuca e levei aos lábios. Não havia sopa mais saborosa em toda a terra. O caldo espesso, levemente salgado, coberto de sedimentos de ervas e temperos, reanimou meu corpo pouco a pouco.

Os originários explodiram em súbita festa. Houve dança, bebedeira, sexo, uma comemoração que pareceu durar dias, tambores que retumbavam ininterruptamente, flechas alçadas ao céu envoltas em chamas, cantorias, sorrisos, lutas que pareciam cumprir um ritual de extravasamento, incensos que tinham um cheiro doce que causava engulhos, escaladas na estrutura da árvore gigante, mais dança, a dança parecia nunca acabar, era executada no compasso dos tambores, flautas acompanhavam a cantoria.

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