Urbanoia – Final - Jorge Machado
Jorge Machado
Escritor desde os doze anos de idade (quando conheci a literatura e adotei o pseudônimo temporário de "Jorge Mamado"). Fui apresentado ao horror tarde, nas estantes da biblioteca pública do ensino médio. Desde então sigo na busca do funesto e do reprovável como forma de resistência à apatia e ao conformismo dessa geração.
Brinquei de punk durante a adolescência tardia e troquei a água pela cerveja. Depois pela pinga. Depois voltei aos livros. Viciado em gás lacrimogêneo e spray de pimenta, sonho em explodir o Ancapistão usando um artefato com a grafia "Propriedade é roubo" na fuselagem.





Urbanoia – Final

Um grupo de cinco originárias me banhou no rio, afundaram minha cabeça na água como uma estranha dissidência do batismo cristão. Esponjas vegetais levaram embora a sujeira acumulada de três anos de fuga. Levaram-me para uma oca e me secaram abanando folhas de bananeira, uma poção cozinhava na parte externa da oca. Uma das originárias, mais velha, olhos de uma cor que eu jamais vira, entrou na oca com um cachimbo em mãos, tragou a fumaça para os pulmões e soprou em meu rosto. O ritual foi realizado diversas vezes, em todo o corpo. Depois, dois homens realizaram a pintura corporal acompanhados de batucadas de tambor num ritmo semelhante ao maracatu. Fizeram desenhos em toda a extensão de meu corpo, a arte, diferente da usada por todos eles, uma composição de desenhos tribais, símbolos que guardavam similaridade com todas as culturas conhecidas, cores vibrantes, algumas reconhecíveis por meus olhos cansados.

Fui colocado na canoa que destoava de toda a frota, feita de carvalho ou Jatobá, soçobrando na correnteza tímida do enorme rio sem nome. Enquanto me afastava da margem os originários celebravam com danças, flechas eram atiradas para o céu, os cânticos ficavam cada vez mais distantes à medida que o rio me reivindicava para si.

“SHAYT´KATHLUNHK”, bradavam os originários. A pronúncia era sofrida como uma cravelha de violino desajustada. Seria aquele o nome de um deus adormecido?

Confuso, os dias passando entre um cochilo e outro, alimentando-me com as tortilhas embrulhadas em maços de folhas, percebi que os originários haviam deixado uma urna de madeira na embarcação. Ao abrir o baú descobri o que eles desejavam. Havia uma tinta escura em uma cumbuca com tampa, uma enorme folha feita de pele e uma pena. Passei a registrar minha peregrinação na estranha folha. Descrevi tudo o que, quem quer seja, onde quer que esteja, você está lendo neste momento. Tenho quase certeza de que nada me passou despercebido. Espero que este estranho ritual tenha algum significado. Espero que as forças desconhecidas que inspiraram a escritura deste documento sejam benévolas.

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Jorge Machado
Urbanoia – Final

Um grupo de cinco originárias me banhou no rio, afundaram minha cabeça na água como uma estranha dissidência do batismo cristão. Esponjas vegetais levaram embora a sujeira acumulada de três anos de fuga. Levaram-me para uma oca e me secaram abanando folhas de bananeira, uma poção cozinhava na parte externa da oca. Uma das originárias, mais velha, olhos de uma cor que eu jamais vira, entrou na oca com um cachimbo em mãos, tragou a fumaça para os pulmões e soprou em meu rosto. O ritual foi realizado diversas vezes, em todo o corpo. Depois, dois homens realizaram a pintura corporal acompanhados de batucadas de tambor num ritmo semelhante ao maracatu. Fizeram desenhos em toda a extensão de meu corpo, a arte, diferente da usada por todos eles, uma composição de desenhos tribais, símbolos que guardavam similaridade com todas as culturas conhecidas, cores vibrantes, algumas reconhecíveis por meus olhos cansados.

Fui colocado na canoa que destoava de toda a frota, feita de carvalho ou Jatobá, soçobrando na correnteza tímida do enorme rio sem nome. Enquanto me afastava da margem os originários celebravam com danças, flechas eram atiradas para o céu, os cânticos ficavam cada vez mais distantes à medida que o rio me reivindicava para si.

“SHAYT´KATHLUNHK”, bradavam os originários. A pronúncia era sofrida como uma cravelha de violino desajustada. Seria aquele o nome de um deus adormecido?

Confuso, os dias passando entre um cochilo e outro, alimentando-me com as tortilhas embrulhadas em maços de folhas, percebi que os originários haviam deixado uma urna de madeira na embarcação. Ao abrir o baú descobri o que eles desejavam. Havia uma tinta escura em uma cumbuca com tampa, uma enorme folha feita de pele e uma pena. Passei a registrar minha peregrinação na estranha folha. Descrevi tudo o que, quem quer seja, onde quer que esteja, você está lendo neste momento. Tenho quase certeza de que nada me passou despercebido. Espero que este estranho ritual tenha algum significado. Espero que as forças desconhecidas que inspiraram a escritura deste documento sejam benévolas.

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