Urbanoia - parte 2 - Jorge Machado
Jorge Machado
Escritor desde os doze anos de idade (quando conheci a literatura e adotei o pseudônimo temporário de "Jorge Mamado"). Fui apresentado ao horror tarde, nas estantes da biblioteca pública do ensino médio. Desde então sigo na busca do funesto e do reprovável como forma de resistência à apatia e ao conformismo dessa geração.
Brinquei de punk durante a adolescência tardia e troquei a água pela cerveja. Depois pela pinga. Depois voltei aos livros. Viciado em gás lacrimogêneo e spray de pimenta, sonho em explodir o Ancapistão usando um artefato com a grafia "Propriedade é roubo" na fuselagem.





Urbanoia – parte 2

Leia a primeira parte aqui: http://maldohorror.com.br/jorge-machado/urbanoia/

“Sr. Vasquez?”.
“Não tenho tempo Dr. O senhor precisa me ouvir. Tem uma coisa, coisa, uma coisa… uma coisa atrás de mim. Ela está sussurrando, mas já parou.”
“Acalme-se, Adão. Vou pegar um copo d’água…”.
“Você não entende. Agora está silencioso, mas a coisa, coisa vai voltar a fazer barulho a qualquer momento.”
“Do que você está falando, Adão?”
“Do som. É como uma betoneira. O mundo inteiro treme. Ninguém notou, as pessoas estavam ocupadas demais com seus celulares, mas o mundo inteiro começou a tremer! E vai tremer de novo! E quando isso acontecer já vai ser tarde para fazer qualquer coisa!”
“Você não está bem, Adão. Sente-se. Vou pedir para a Laura lhe trazer um café bem quente.”
O doutor Otaviano era um negacionista do demônio de cimento. Insistia em ignorar as amplas evidências de sua atuação pelo mundo.
“Eu não preciso de café. Ela está vindo!”
“Ela quem?”
“A conta. A somatória. A punição!”
Foi quando as paredes começaram a trepidar ruidosamente.
“O senhor está ouvindo?”
“Ouvindo o que?”
“O senhor está fora de si Dr.! Perdeu completamente a sanidade!”
Assim, cônscio de que a súcubo estava no corredor ao lado, espremendo-se pelas paredes com a ajuda de seus tentáculos de cimento e vidro moído, tomei a única atitude lúcida possível, saltando do segundo andar do prédio e caindo sobre um Citroën vermelho. A dor venceu a inconsciência. Levantei-me e, ajustando o braço – quebrado em várias partes – por sobre o colo, cambaleei pela rua em busca de uma saída. Os ossos de dois dedos estavam expostos e pareciam dois gravetos sujos e tortos que balançavam para fora da carne rompida. Eu sabia que a trilha de sangue que estava deixando não seria a pista que ajudaria o Golem a me achar. Ela me encontraria em qualquer canto da terra.

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Jorge Machado
Urbanoia – parte 2

Leia a primeira parte aqui: http://maldohorror.com.br/jorge-machado/urbanoia/

“Sr. Vasquez?”.
“Não tenho tempo Dr. O senhor precisa me ouvir. Tem uma coisa, coisa, uma coisa… uma coisa atrás de mim. Ela está sussurrando, mas já parou.”
“Acalme-se, Adão. Vou pegar um copo d’água…”.
“Você não entende. Agora está silencioso, mas a coisa, coisa vai voltar a fazer barulho a qualquer momento.”
“Do que você está falando, Adão?”
“Do som. É como uma betoneira. O mundo inteiro treme. Ninguém notou, as pessoas estavam ocupadas demais com seus celulares, mas o mundo inteiro começou a tremer! E vai tremer de novo! E quando isso acontecer já vai ser tarde para fazer qualquer coisa!”
“Você não está bem, Adão. Sente-se. Vou pedir para a Laura lhe trazer um café bem quente.”
O doutor Otaviano era um negacionista do demônio de cimento. Insistia em ignorar as amplas evidências de sua atuação pelo mundo.
“Eu não preciso de café. Ela está vindo!”
“Ela quem?”
“A conta. A somatória. A punição!”
Foi quando as paredes começaram a trepidar ruidosamente.
“O senhor está ouvindo?”
“Ouvindo o que?”
“O senhor está fora de si Dr.! Perdeu completamente a sanidade!”
Assim, cônscio de que a súcubo estava no corredor ao lado, espremendo-se pelas paredes com a ajuda de seus tentáculos de cimento e vidro moído, tomei a única atitude lúcida possível, saltando do segundo andar do prédio e caindo sobre um Citroën vermelho. A dor venceu a inconsciência. Levantei-me e, ajustando o braço – quebrado em várias partes – por sobre o colo, cambaleei pela rua em busca de uma saída. Os ossos de dois dedos estavam expostos e pareciam dois gravetos sujos e tortos que balançavam para fora da carne rompida. Eu sabia que a trilha de sangue que estava deixando não seria a pista que ajudaria o Golem a me achar. Ela me encontraria em qualquer canto da terra.

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