Urbanoia - parte 2 - Jorge Machado
Jorge Machado
Escritor desde os doze anos de idade (quando conheci a literatura e adotei o pseudônimo temporário de "Jorge Mamado"). Fui apresentado ao horror tarde, nas estantes da biblioteca pública do ensino médio. Desde então sigo na busca do funesto e do reprovável como forma de resistência à apatia e ao conformismo dessa geração.
Brinquei de punk durante a adolescência tardia e troquei a água pela cerveja. Depois pela pinga. Depois voltei aos livros. Viciado em gás lacrimogêneo e spray de pimenta, sonho em explodir o Ancapistão usando um artefato com a grafia "Propriedade é roubo" na fuselagem.





Urbanoia – parte 2

Corri o mais rápido que minhas pernas machucadas permitiam, trotando como um bêbado, usando o braço bom para me equilibrar nos postes e nas paredes. Os passantes, enlouquecidos, me julgavam com olhares que iam da pena ao medo.
O corpo humano, após milhões de anos de seleção, se acostumou com a fuga como uma situação temporária com a qual lida descarregando adrenalina na corrente sanguínea e fornecendo o máximo de energia necessária para escapar do perigo e poder se recompor. No entanto, nem mesmo a natureza em sua infinita capacidade de adaptação, foi capaz de supor um mecanismo de defesa para uma fuga que durasse a vida inteira. Simplesmente não há depósito de energia suficiente para manter o ritmo de uma escapada para sempre. Isso exigiria um repositório infinito de energia. Eu sabia, já nos primeiros anos de caça, que estava fadado à extinção. Nada poderia escapar de tamanha força persecutória.
No primeiro ano de fuga, confuso pela nova condição, martelando os pensamentos em busca de uma solução minimamente dolorosa para meu novo destino, percebi que o demônio de concreto estava brincando com minha mente, sugestionando a todo o momento que estava à espreita, aguardando um curso de ação que tinha como objetivo me encurralar em algum beco escuro. Ela sussurrava através das gretas do esgoto da cidade, seu hálito de cal espiralando no ar, dizendo coisas ininteligíveis que causavam contrações involuntárias em meu sistema auditivo. Era um discurso hitlerista, desprovido de paixão, indiferente ao sofrimento que causava, uma reverberação que parecia sair diretamente de um campo de concentração, como um lamento que rasgava o tecido da história, a elevação definitiva de tudo que era natural ao subsolo.

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Jorge Machado
Urbanoia – parte 2

Corri o mais rápido que minhas pernas machucadas permitiam, trotando como um bêbado, usando o braço bom para me equilibrar nos postes e nas paredes. Os passantes, enlouquecidos, me julgavam com olhares que iam da pena ao medo.
O corpo humano, após milhões de anos de seleção, se acostumou com a fuga como uma situação temporária com a qual lida descarregando adrenalina na corrente sanguínea e fornecendo o máximo de energia necessária para escapar do perigo e poder se recompor. No entanto, nem mesmo a natureza em sua infinita capacidade de adaptação, foi capaz de supor um mecanismo de defesa para uma fuga que durasse a vida inteira. Simplesmente não há depósito de energia suficiente para manter o ritmo de uma escapada para sempre. Isso exigiria um repositório infinito de energia. Eu sabia, já nos primeiros anos de caça, que estava fadado à extinção. Nada poderia escapar de tamanha força persecutória.
No primeiro ano de fuga, confuso pela nova condição, martelando os pensamentos em busca de uma solução minimamente dolorosa para meu novo destino, percebi que o demônio de concreto estava brincando com minha mente, sugestionando a todo o momento que estava à espreita, aguardando um curso de ação que tinha como objetivo me encurralar em algum beco escuro. Ela sussurrava através das gretas do esgoto da cidade, seu hálito de cal espiralando no ar, dizendo coisas ininteligíveis que causavam contrações involuntárias em meu sistema auditivo. Era um discurso hitlerista, desprovido de paixão, indiferente ao sofrimento que causava, uma reverberação que parecia sair diretamente de um campo de concentração, como um lamento que rasgava o tecido da história, a elevação definitiva de tudo que era natural ao subsolo.

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