Urbanoia - parte 2 - Jorge Machado
Jorge Machado
Escritor desde os doze anos de idade (quando conheci a literatura e adotei o pseudônimo temporário de "Jorge Mamado"). Fui apresentado ao horror tarde, nas estantes da biblioteca pública do ensino médio. Desde então sigo na busca do funesto e do reprovável como forma de resistência à apatia e ao conformismo dessa geração.
Brinquei de punk durante a adolescência tardia e troquei a água pela cerveja. Depois pela pinga. Depois voltei aos livros. Viciado em gás lacrimogêneo e spray de pimenta, sonho em explodir o Ancapistão usando um artefato com a grafia "Propriedade é roubo" na fuselagem.





Urbanoia – parte 2

Ela demorava semanas para reaparecer. Suspenso pela expectativa de sua aparição aprendi a dormir sentado, as costas sempre apoiadas em uma parede, memorizando o local antes de adormecer para poder agir com celeridade quando necessário, acordando subitamente a cada ruído, desejando que, se não houvesse outra saída, o demônio me encontrasse em pleno sono e desse cabo de minha vida antes que pudesse perceber o horror de sua mastigação. Mas a besta de cimento continuava apenas me observando. Por vezes, tive a sensação, ao acordar, sobressaltado, de que ela me fitava com seus olhos de vidraça, enxergando ao mesmo tempo nada e tudo, estudando como me faria sofrer além do merecimento, extasiando-se com a aplicação da tortura. Ela era um monumento à hipervigilância, seus olhos eram como as janelas mais bem posicionadas em toda a terra, a vista era o suspiro derradeiro de minha humanidade.
O braço esquerdo, trincado em pelo menos duas partes, os dedos mínimo e anelar arrancados durante os meses de fuga, jazia pendurado em lenta decomposição, a carne cheirava mal, o sangramento havia parado, mas um líquido viscoso insistia em verter em grossas gotas, o osso era exibido à luz do sol, a necrose lentamente o inutilizava. Não havia como realizar o tratamento. Ele se tornava um fardo cada vez maior a cada novo dia. Meu maior desejo era que ele despencasse do tronco e ficasse esquecido na calçada de concreto. As pessoas enlouquecidas na rua olhavam apenas de relance. Ninguém se importava o suficiente para me incomodar, mas vários agiam, virando o rosto rapidamente em nítido nojo, como se eu fosse o verdadeiro causador do incômodo.
A fome se tornou um problema menor quando descobri que poderia me livrar mais facilmente do braço inutilizado.
Aprendi a ignorar o gosto de bile da carne apodrecida à medida que comia minha mão esquerda e, contra todas as expectativas que tinha, descobri um estranho prazer ao engolir os longos nacos dos músculos anteriores e posteriores do braço inutilizado. Vomitei em algumas ocasiões, mas tratei de engolir novamente a estrutura carnosa em estágio de decomposição. Não queria desperdiçar aquela possível fonte de energia, mesmo diante da ideia repulsiva do autocanibalismo.

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Jorge Machado
Urbanoia – parte 2

Ela demorava semanas para reaparecer. Suspenso pela expectativa de sua aparição aprendi a dormir sentado, as costas sempre apoiadas em uma parede, memorizando o local antes de adormecer para poder agir com celeridade quando necessário, acordando subitamente a cada ruído, desejando que, se não houvesse outra saída, o demônio me encontrasse em pleno sono e desse cabo de minha vida antes que pudesse perceber o horror de sua mastigação. Mas a besta de cimento continuava apenas me observando. Por vezes, tive a sensação, ao acordar, sobressaltado, de que ela me fitava com seus olhos de vidraça, enxergando ao mesmo tempo nada e tudo, estudando como me faria sofrer além do merecimento, extasiando-se com a aplicação da tortura. Ela era um monumento à hipervigilância, seus olhos eram como as janelas mais bem posicionadas em toda a terra, a vista era o suspiro derradeiro de minha humanidade.
O braço esquerdo, trincado em pelo menos duas partes, os dedos mínimo e anelar arrancados durante os meses de fuga, jazia pendurado em lenta decomposição, a carne cheirava mal, o sangramento havia parado, mas um líquido viscoso insistia em verter em grossas gotas, o osso era exibido à luz do sol, a necrose lentamente o inutilizava. Não havia como realizar o tratamento. Ele se tornava um fardo cada vez maior a cada novo dia. Meu maior desejo era que ele despencasse do tronco e ficasse esquecido na calçada de concreto. As pessoas enlouquecidas na rua olhavam apenas de relance. Ninguém se importava o suficiente para me incomodar, mas vários agiam, virando o rosto rapidamente em nítido nojo, como se eu fosse o verdadeiro causador do incômodo.
A fome se tornou um problema menor quando descobri que poderia me livrar mais facilmente do braço inutilizado.
Aprendi a ignorar o gosto de bile da carne apodrecida à medida que comia minha mão esquerda e, contra todas as expectativas que tinha, descobri um estranho prazer ao engolir os longos nacos dos músculos anteriores e posteriores do braço inutilizado. Vomitei em algumas ocasiões, mas tratei de engolir novamente a estrutura carnosa em estágio de decomposição. Não queria desperdiçar aquela possível fonte de energia, mesmo diante da ideia repulsiva do autocanibalismo.

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