Urbanoia - parte 2 - Jorge Machado
Jorge Machado
Escritor desde os doze anos de idade (quando conheci a literatura e adotei o pseudônimo temporário de "Jorge Mamado"). Fui apresentado ao horror tarde, nas estantes da biblioteca pública do ensino médio. Desde então sigo na busca do funesto e do reprovável como forma de resistência à apatia e ao conformismo dessa geração.
Brinquei de punk durante a adolescência tardia e troquei a água pela cerveja. Depois pela pinga. Depois voltei aos livros. Viciado em gás lacrimogêneo e spray de pimenta, sonho em explodir o Ancapistão usando um artefato com a grafia "Propriedade é roubo" na fuselagem.





Urbanoia – parte 2

A fome foi ficando cada vez menor conforme revirava os latões de lixo espalhados pela cidade, montanhas sem fim de alimentos em situação de semipodridão, tomates, espigas, ervas, ossos, cascas, frascos plásticos com resquícios azedos de iogurte, latas de alumínio com vestígios de açúcar e sal, ração para animais descartadas por pet shops, a sociedade do descarte provendo o combustível de minha fuga, o problema da distribuição de alimentos dando as caras onde as filmadoras onipresentes do século XXI com suas funções de câmera ultra avançadas não chegam, nos subterrâneos da civilização.
O céu da São Paulo estava cinzento como um aterro nuclear abandonado, a sensação térmica era um produto das descargas poluentes dos automóveis, o asfalto absorvia o calor e cozinhava lentamente a população, o que indicava que o clima estava bom para passear com a família e tomar um pouco de ar puro. Os imigrantes faziam os exercícios matinais no bairro do bom retiro, senhoras coreanas que haviam acabado as asanas de yoga jogavam conversa fora com suas amigas na praça, um senhor japonês alimentava os pombos de rua com biscoitos de arroz, um casal boliviano se preparava para iniciar o expediente nas indústrias de tecelagem que se espremiam no mesmo quarteirão como se fossem galerias de um Shopping Center, véus e quipás protegiam os cocurutos de homens e mulheres que iam e vinham em meu campo visual, crianças subiam e desciam nas gangorras da área de lazer pública, venezuelanos e haitianos em fuga de crises humanitárias desproporcionalmente consideradas por “amantes” dos direitos humanos vagavam pelas ruas fazendo bicos aqui e ali enquanto sonhavam com uma vaga definitiva, pedreiros, jornaleiros, balconistas, advogados, faxineiros, estoquistas, engenheiros, um vaivém de pés calçados em sapatos, tênis, sandálias, pessoas apressadas e tranquilas, trambiqueiras e honestas, uma movimentação mecânica que lembrava os movimentos fluidos de vítimas de hipnose, uma movimentação repulsiva como a de vermes fervilhando na terra quente, uma multidão reduzida a marchar indefinidamente para lugar nenhum.

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Jorge Machado
Urbanoia – parte 2

A fome foi ficando cada vez menor conforme revirava os latões de lixo espalhados pela cidade, montanhas sem fim de alimentos em situação de semipodridão, tomates, espigas, ervas, ossos, cascas, frascos plásticos com resquícios azedos de iogurte, latas de alumínio com vestígios de açúcar e sal, ração para animais descartadas por pet shops, a sociedade do descarte provendo o combustível de minha fuga, o problema da distribuição de alimentos dando as caras onde as filmadoras onipresentes do século XXI com suas funções de câmera ultra avançadas não chegam, nos subterrâneos da civilização.
O céu da São Paulo estava cinzento como um aterro nuclear abandonado, a sensação térmica era um produto das descargas poluentes dos automóveis, o asfalto absorvia o calor e cozinhava lentamente a população, o que indicava que o clima estava bom para passear com a família e tomar um pouco de ar puro. Os imigrantes faziam os exercícios matinais no bairro do bom retiro, senhoras coreanas que haviam acabado as asanas de yoga jogavam conversa fora com suas amigas na praça, um senhor japonês alimentava os pombos de rua com biscoitos de arroz, um casal boliviano se preparava para iniciar o expediente nas indústrias de tecelagem que se espremiam no mesmo quarteirão como se fossem galerias de um Shopping Center, véus e quipás protegiam os cocurutos de homens e mulheres que iam e vinham em meu campo visual, crianças subiam e desciam nas gangorras da área de lazer pública, venezuelanos e haitianos em fuga de crises humanitárias desproporcionalmente consideradas por “amantes” dos direitos humanos vagavam pelas ruas fazendo bicos aqui e ali enquanto sonhavam com uma vaga definitiva, pedreiros, jornaleiros, balconistas, advogados, faxineiros, estoquistas, engenheiros, um vaivém de pés calçados em sapatos, tênis, sandálias, pessoas apressadas e tranquilas, trambiqueiras e honestas, uma movimentação mecânica que lembrava os movimentos fluidos de vítimas de hipnose, uma movimentação repulsiva como a de vermes fervilhando na terra quente, uma multidão reduzida a marchar indefinidamente para lugar nenhum.

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