Urbanoia - parte 2 - Jorge Machado
Jorge Machado
Escritor desde os doze anos de idade (quando conheci a literatura e adotei o pseudônimo temporário de "Jorge Mamado"). Fui apresentado ao horror tarde, nas estantes da biblioteca pública do ensino médio. Desde então sigo na busca do funesto e do reprovável como forma de resistência à apatia e ao conformismo dessa geração.
Brinquei de punk durante a adolescência tardia e troquei a água pela cerveja. Depois pela pinga. Depois voltei aos livros. Viciado em gás lacrimogêneo e spray de pimenta, sonho em explodir o Ancapistão usando um artefato com a grafia "Propriedade é roubo" na fuselagem.





Urbanoia – parte 2

Todos os imigrantes haviam fugido para cá, o local de minha partida. Ocorreu-me que o que ocasiona a fuga de alguns é justamente o que outros estão sedentos por encontrar.
“E orai para que vossa fuga não aconteça no inverno nem no sábado!”, um grito no meio da praça, voz rouca, olhos vidrados, ambição notória de formar uma nova seita urbana, um homem vestido em um terno menos surrado do que o que eu usava há dois anos, barba grossa sem nenhum fio de cabelo grisalho, recitando uma passagem que podia estar no livro sagrado ou no para-choque de uma carreta (talvez em ambos). A frase era uma referência aos povos conquistados da antiguidade, a fuga dos homens que não haviam sido degolados e das mulheres que não haviam sido violadas, as inúmeras famílias que, após uma invasão do exército inimigo, não tinham opção que não a fuga pelo deserto que separava as cidades, caminhando por imensos descampados, sem comida e com frio, no escuro ou no sol escaldante, a única linha de fuga possível após a completa destruição de suas perspectivas, a dura realidade da eterna perseguição de homens contra homens, cristãos e ateus, palmeirenses e corintianos, unidos em sua verdadeira vocação.

Continua…

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Jorge Machado
Urbanoia – parte 2

Todos os imigrantes haviam fugido para cá, o local de minha partida. Ocorreu-me que o que ocasiona a fuga de alguns é justamente o que outros estão sedentos por encontrar.
“E orai para que vossa fuga não aconteça no inverno nem no sábado!”, um grito no meio da praça, voz rouca, olhos vidrados, ambição notória de formar uma nova seita urbana, um homem vestido em um terno menos surrado do que o que eu usava há dois anos, barba grossa sem nenhum fio de cabelo grisalho, recitando uma passagem que podia estar no livro sagrado ou no para-choque de uma carreta (talvez em ambos). A frase era uma referência aos povos conquistados da antiguidade, a fuga dos homens que não haviam sido degolados e das mulheres que não haviam sido violadas, as inúmeras famílias que, após uma invasão do exército inimigo, não tinham opção que não a fuga pelo deserto que separava as cidades, caminhando por imensos descampados, sem comida e com frio, no escuro ou no sol escaldante, a única linha de fuga possível após a completa destruição de suas perspectivas, a dura realidade da eterna perseguição de homens contra homens, cristãos e ateus, palmeirenses e corintianos, unidos em sua verdadeira vocação.

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