Urbanóia - Jorge Machado
Jorge Machado
Escritor desde os doze anos de idade (quando conheci a literatura e adotei o pseudônimo temporário de "Jorge Mamado"). Fui apresentado ao horror tarde, nas estantes da biblioteca pública do ensino médio. Desde então sigo na busca do funesto e do reprovável como forma de resistência à apatia e ao conformismo dessa geração.
Brinquei de punk durante a adolescência tardia e troquei a água pela cerveja. Depois pela pinga. Depois voltei aos livros. Viciado em gás lacrimogêneo e spray de pimenta, sonho em explodir o Ancapistão usando um artefato com a grafia "Propriedade é roubo" na fuselagem.





Urbanóia

Urbanóia, Urbanóia
Um tiro no peito do mundo perfeito
Urbanóia, Urbanóia
A vida sinônimo de medo
Começa o dia, sinal da cruz
Nada na cabeça em nome de Jesus
No buso, com sono, confuso
A solidão no meio da multidão
O trabalho, o frangalho, a exploração
Periferia S/A

A pior parte de ser perseguido é manter-se em movimento.

Escapando das armadilhas, dos becos sem saída, das emboscadas que se apresentam em cada esquina suja da metrópole, escolhendo atalhos e desvios, o olhar sempre atento para quem o observa de canto de olho nas ruas de São Paulo, aqueles olhos esguios que penetram na sua intimidade em busca de uma resposta impossível de dar. Eles estão em toda parte. Dando cobertura para a besta de concreto. Eles cederam à concreção, são como rachaduras ou sulcos na rocha, frestas que vigiam cada movimento que faço. Continuo lutando para não ser pego. Torcendo para que não tenha o fim de milhões de outros, aqueles que não suportaram a condição de caça, tragados pelo olvido das câmaras subterrâneas. Com um demônio incansável em meu encalço, olhos que parecem emergir da argamassa nas paredes, dedos compridos que parecem roçar nas costas a cada passo, a sensação de ouvir ruídos e murmúrios que seguem pelos becos, o som de vidro estilhaçando, o som hediondo como o de uma betoneira. Aqueles passos vacilantes, caóticos, desprovidos de qualquer cadência – um rastejar como o das lacraias –, preguiçoso, porém perseverante, uma letargia repleta de desejo homicida.

Eu tentava a todo custo pensar em outra coisa, deixar que o anzol da aleatoriedade de pensamentos me fisgasse para longe daquele rio de resignação tão característico, mas o rio revoltoso sempre tratava de afogar minhas esperanças, suas marolas borbulhantes – avolumadas ainda mais pelo temor do encontro inadiável com o demônio de cimento -, me levavam para longe, as margens eram encostas impenetráveis, não havia escapatória para além da correnteza.

Páginas: 1 2 3 4 5

Jorge Machado
Urbanóia

Urbanóia, Urbanóia
Um tiro no peito do mundo perfeito
Urbanóia, Urbanóia
A vida sinônimo de medo
Começa o dia, sinal da cruz
Nada na cabeça em nome de Jesus
No buso, com sono, confuso
A solidão no meio da multidão
O trabalho, o frangalho, a exploração
Periferia S/A

A pior parte de ser perseguido é manter-se em movimento.

Escapando das armadilhas, dos becos sem saída, das emboscadas que se apresentam em cada esquina suja da metrópole, escolhendo atalhos e desvios, o olhar sempre atento para quem o observa de canto de olho nas ruas de São Paulo, aqueles olhos esguios que penetram na sua intimidade em busca de uma resposta impossível de dar. Eles estão em toda parte. Dando cobertura para a besta de concreto. Eles cederam à concreção, são como rachaduras ou sulcos na rocha, frestas que vigiam cada movimento que faço. Continuo lutando para não ser pego. Torcendo para que não tenha o fim de milhões de outros, aqueles que não suportaram a condição de caça, tragados pelo olvido das câmaras subterrâneas. Com um demônio incansável em meu encalço, olhos que parecem emergir da argamassa nas paredes, dedos compridos que parecem roçar nas costas a cada passo, a sensação de ouvir ruídos e murmúrios que seguem pelos becos, o som de vidro estilhaçando, o som hediondo como o de uma betoneira. Aqueles passos vacilantes, caóticos, desprovidos de qualquer cadência – um rastejar como o das lacraias –, preguiçoso, porém perseverante, uma letargia repleta de desejo homicida.

Eu tentava a todo custo pensar em outra coisa, deixar que o anzol da aleatoriedade de pensamentos me fisgasse para longe daquele rio de resignação tão característico, mas o rio revoltoso sempre tratava de afogar minhas esperanças, suas marolas borbulhantes – avolumadas ainda mais pelo temor do encontro inadiável com o demônio de cimento -, me levavam para longe, as margens eram encostas impenetráveis, não havia escapatória para além da correnteza.

Páginas: 1 2 3 4 5