Urbanóia - Jorge Machado
Jorge Machado
Escritor desde os doze anos de idade (quando conheci a literatura e adotei o pseudônimo temporário de "Jorge Mamado"). Fui apresentado ao horror tarde, nas estantes da biblioteca pública do ensino médio. Desde então sigo na busca do funesto e do reprovável como forma de resistência à apatia e ao conformismo dessa geração.
Brinquei de punk durante a adolescência tardia e troquei a água pela cerveja. Depois pela pinga. Depois voltei aos livros. Viciado em gás lacrimogêneo e spray de pimenta, sonho em explodir o Ancapistão usando um artefato com a grafia "Propriedade é roubo" na fuselagem.





Urbanóia

Minha linha de fuga era incerta, um salto cego, a ignorância em seu estado puro. O arrependimento vem toda noite, acompanhado de um vácuo de planejamento, uma incapacidade familiar de pensar seriamente sobre um futuro que não parecia guardar nenhum tipo de alento.

Abandonei a família sem pensar duas vezes, ninguém está seguro enquanto eu estiver por perto. Minha presença se tornou uma ameaça perpétua. A ameaça a que me refiro é menos uma manifestação da natureza – embora suas ações sejam totalmente descoladas da moral humana, descoladas de qualquer racionalidade civilizada –, do que uma fissura improvável no tecido da realidade. Não é possível provar a existência de meu persecutor pela lógica humana, no entanto, uma vez que seu objetivo é meu assassinato, minha aniquilação, uma vez que os fins do sopro que o move são ilógicos, em que mudaria se sua origem fosse humana, animal ou desconhecida? O vulto que me persegue seria capaz de qualquer coisa para concluir seu projeto, independentemente de ser um homem, uma leoa, ou um demônio.

Minha fuga começou há três anos. As preocupações que mantinha no escritório da Votorantim Associados (uma pequena empresa de advocacia), as discussões com meus colegas de trabalho – a inveja que manifestavam, em gestos acanhados, pela minha formação e qualificação superiores -, os atritos diários de qualquer ambiente saudável de corporação, tudo ficou para trás, tornando-se nada diante da besta de concreto e chumbo que avançava em meu encalço. Larguei minha família, meus amigos, meu emprego, minha pesquisa de mestrado, minhas ambições na potência econômica metropolitana, todas as aspirações pessoais foram esquecidas quando percebi o que estava à minha procura.

Não era Dagon, nem Nyarlathotep. Também não tinha nome, mas a criatura – forjada em uma simbiose de concreto, vidro e aço -, era a perdição em seu estado puro, a face desmascarada do desespero, um sopro gélido em costas desnudas, a última palavra de um discurso de ódio, perseverante em sua tarefa de me sugar para o vórtice de morte e solidão da capital paulista.

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Jorge Machado
Urbanóia

Minha linha de fuga era incerta, um salto cego, a ignorância em seu estado puro. O arrependimento vem toda noite, acompanhado de um vácuo de planejamento, uma incapacidade familiar de pensar seriamente sobre um futuro que não parecia guardar nenhum tipo de alento.

Abandonei a família sem pensar duas vezes, ninguém está seguro enquanto eu estiver por perto. Minha presença se tornou uma ameaça perpétua. A ameaça a que me refiro é menos uma manifestação da natureza – embora suas ações sejam totalmente descoladas da moral humana, descoladas de qualquer racionalidade civilizada –, do que uma fissura improvável no tecido da realidade. Não é possível provar a existência de meu persecutor pela lógica humana, no entanto, uma vez que seu objetivo é meu assassinato, minha aniquilação, uma vez que os fins do sopro que o move são ilógicos, em que mudaria se sua origem fosse humana, animal ou desconhecida? O vulto que me persegue seria capaz de qualquer coisa para concluir seu projeto, independentemente de ser um homem, uma leoa, ou um demônio.

Minha fuga começou há três anos. As preocupações que mantinha no escritório da Votorantim Associados (uma pequena empresa de advocacia), as discussões com meus colegas de trabalho – a inveja que manifestavam, em gestos acanhados, pela minha formação e qualificação superiores -, os atritos diários de qualquer ambiente saudável de corporação, tudo ficou para trás, tornando-se nada diante da besta de concreto e chumbo que avançava em meu encalço. Larguei minha família, meus amigos, meu emprego, minha pesquisa de mestrado, minhas ambições na potência econômica metropolitana, todas as aspirações pessoais foram esquecidas quando percebi o que estava à minha procura.

Não era Dagon, nem Nyarlathotep. Também não tinha nome, mas a criatura – forjada em uma simbiose de concreto, vidro e aço -, era a perdição em seu estado puro, a face desmascarada do desespero, um sopro gélido em costas desnudas, a última palavra de um discurso de ódio, perseverante em sua tarefa de me sugar para o vórtice de morte e solidão da capital paulista.

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