Urbanóia - Jorge Machado
Jorge Machado
Escritor desde os doze anos de idade (quando conheci a literatura e adotei o pseudônimo temporário de "Jorge Mamado"). Fui apresentado ao horror tarde, nas estantes da biblioteca pública do ensino médio. Desde então sigo na busca do funesto e do reprovável como forma de resistência à apatia e ao conformismo dessa geração.
Brinquei de punk durante a adolescência tardia e troquei a água pela cerveja. Depois pela pinga. Depois voltei aos livros. Viciado em gás lacrimogêneo e spray de pimenta, sonho em explodir o Ancapistão usando um artefato com a grafia "Propriedade é roubo" na fuselagem.





Urbanóia

Ainda me lembro de seu sussurro exasperado nos corredores do escritório, uma rachadura que partiu ao meio um mundo inteiro de inocência. Ela rastejava como uma praga lançada, letárgica, paciente, intimidadora em sua falsa mansidão, confiante de que cedo ou tarde acabaria me alcançando. Seu objetivo nunca fora expresso, porém, não foi preciso mais do que seu gemido para perceber que aquele súcubo de concreto era a mandatária de meu assassinato. Não há local seguro para se esconder, pois seu olho é o mundo inteiro, penetrante, onipresente, paciente na consumação do sadismo. Ela adora me ver correndo. Tenho certeza de que isso a excita. Ela me quer acuado, amedrontado, tal como não posso deixar de estar enquanto escrevo estas palavras.

Talvez eu nunca devesse ter fugido naquela tarde de abril na Votorantim Associados. O prédio que abrigava cinco empresas de advocacia na região de São Paulo, uma estrutura de aparência monolítica composta de aço e concreto, bruta como a vida urbana – urbanóica por natureza –, era um muro que dividia a cidade em dois hemisférios iguais de calamidade, um a contraparte caótica que servia de alimentação para o outro. A São Paulo pulsava como um organismo em crise peristáltica, ruindo em slow motion, perdendo gradativamente o fôlego, derretendo silenciosamente como as calotas polares. Mas o edifício continuava suas atividades, indiferente ao caos. Como uma área de quarentena que emulava uma colônia de férias. Cada cidadão era um paciente teimoso que se recusava a marcar uma consulta.

Páginas: 1 2 3 4 5

Jorge Machado
Urbanóia

Ainda me lembro de seu sussurro exasperado nos corredores do escritório, uma rachadura que partiu ao meio um mundo inteiro de inocência. Ela rastejava como uma praga lançada, letárgica, paciente, intimidadora em sua falsa mansidão, confiante de que cedo ou tarde acabaria me alcançando. Seu objetivo nunca fora expresso, porém, não foi preciso mais do que seu gemido para perceber que aquele súcubo de concreto era a mandatária de meu assassinato. Não há local seguro para se esconder, pois seu olho é o mundo inteiro, penetrante, onipresente, paciente na consumação do sadismo. Ela adora me ver correndo. Tenho certeza de que isso a excita. Ela me quer acuado, amedrontado, tal como não posso deixar de estar enquanto escrevo estas palavras.

Talvez eu nunca devesse ter fugido naquela tarde de abril na Votorantim Associados. O prédio que abrigava cinco empresas de advocacia na região de São Paulo, uma estrutura de aparência monolítica composta de aço e concreto, bruta como a vida urbana – urbanóica por natureza –, era um muro que dividia a cidade em dois hemisférios iguais de calamidade, um a contraparte caótica que servia de alimentação para o outro. A São Paulo pulsava como um organismo em crise peristáltica, ruindo em slow motion, perdendo gradativamente o fôlego, derretendo silenciosamente como as calotas polares. Mas o edifício continuava suas atividades, indiferente ao caos. Como uma área de quarentena que emulava uma colônia de férias. Cada cidadão era um paciente teimoso que se recusava a marcar uma consulta.

Páginas: 1 2 3 4 5