Urbanóia - Jorge Machado
Jorge Machado
Escritor desde os doze anos de idade (quando conheci a literatura e adotei o pseudônimo temporário de "Jorge Mamado"). Fui apresentado ao horror tarde, nas estantes da biblioteca pública do ensino médio. Desde então sigo na busca do funesto e do reprovável como forma de resistência à apatia e ao conformismo dessa geração.
Brinquei de punk durante a adolescência tardia e troquei a água pela cerveja. Depois pela pinga. Depois voltei aos livros. Viciado em gás lacrimogêneo e spray de pimenta, sonho em explodir o Ancapistão usando um artefato com a grafia "Propriedade é roubo" na fuselagem.





Urbanóia

Na tarde do dia 19 de Abril de 2019, tomado por uma crise de ansiedade a despeito da superdose de ansiolíticos que havia acabado de ingerir, ouvi pela primeira vez o som da betoneira enquanto realizava cópias de um contrato. O tremor me fazia leves cócegas nos pés, uma perturbação antinatural que ameaçava dobrar o corredor a qualquer momento. A maioria dos homens que conheço esperaria para verificar com os próprios olhos o que estava acontecendo, teceriam explicações racionais para deduzir de que se tratava aquele estranho fenômeno, e, certamente, todos estes homens estariam mortos neste exato momento. Confiando no apuro de meus instintos, corri como nunca havia corrido em toda a vida, controlando a respiração para calibrar corretamente a distribuição de oxigênio para os músculos, aproveitando a descarga de adrenalina ocasionada pelo risco de vida, passando por todos os meus antigos colegas de trabalho sem dizer adeus. Certifiquei-me de não olhar para trás com medo de ser transformado em sal como ocorreu com a mulher de Ló. O som da betoneira foi diminuindo à medida que descia as escadas. Como não ouvi gritos, inferi que o Golem estava especificamente à minha procura. Passei pela catraca eletrônica num único salto e segui pelas calçadas do centro enquanto os passantes, mesmerizados pela rotina urbana, olhavam para mim como se fosse eu o louco! Eu! O único a fugir do demônio de concreto, o único capaz de racionalizar o melhor curso de ação para escapar daquele evento insólito. Mas talvez eu nunca devesse ter fugido naquela tarde de abril. Agora, na situação em que me encontro, olhando com o distanciamento adequado, percebo que a morte por esmagamento, por laceração, por choque anafilático, seja qual for, em que situação for, pode ainda não ser a pior coisa que pode acometer um homem.

Talvez eu jamais devesse ter fugido da morte.

Ou talvez devesse ter ficado em Jundiaí mantendo o legado de meu pai na loja de ferragens. Poderia ter estudado o negócio com o intuito de expandir uma rede de lojas pelo município, encontrar soluções inteligentes de logística e vendas, unir a tradição à inovação.

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Jorge Machado
Urbanóia

Na tarde do dia 19 de Abril de 2019, tomado por uma crise de ansiedade a despeito da superdose de ansiolíticos que havia acabado de ingerir, ouvi pela primeira vez o som da betoneira enquanto realizava cópias de um contrato. O tremor me fazia leves cócegas nos pés, uma perturbação antinatural que ameaçava dobrar o corredor a qualquer momento. A maioria dos homens que conheço esperaria para verificar com os próprios olhos o que estava acontecendo, teceriam explicações racionais para deduzir de que se tratava aquele estranho fenômeno, e, certamente, todos estes homens estariam mortos neste exato momento. Confiando no apuro de meus instintos, corri como nunca havia corrido em toda a vida, controlando a respiração para calibrar corretamente a distribuição de oxigênio para os músculos, aproveitando a descarga de adrenalina ocasionada pelo risco de vida, passando por todos os meus antigos colegas de trabalho sem dizer adeus. Certifiquei-me de não olhar para trás com medo de ser transformado em sal como ocorreu com a mulher de Ló. O som da betoneira foi diminuindo à medida que descia as escadas. Como não ouvi gritos, inferi que o Golem estava especificamente à minha procura. Passei pela catraca eletrônica num único salto e segui pelas calçadas do centro enquanto os passantes, mesmerizados pela rotina urbana, olhavam para mim como se fosse eu o louco! Eu! O único a fugir do demônio de concreto, o único capaz de racionalizar o melhor curso de ação para escapar daquele evento insólito. Mas talvez eu nunca devesse ter fugido naquela tarde de abril. Agora, na situação em que me encontro, olhando com o distanciamento adequado, percebo que a morte por esmagamento, por laceração, por choque anafilático, seja qual for, em que situação for, pode ainda não ser a pior coisa que pode acometer um homem.

Talvez eu jamais devesse ter fugido da morte.

Ou talvez devesse ter ficado em Jundiaí mantendo o legado de meu pai na loja de ferragens. Poderia ter estudado o negócio com o intuito de expandir uma rede de lojas pelo município, encontrar soluções inteligentes de logística e vendas, unir a tradição à inovação.

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