Urbanóia - Jorge Machado
Jorge Machado
Escritor desde os doze anos de idade (quando conheci a literatura e adotei o pseudônimo temporário de "Jorge Mamado"). Fui apresentado ao horror tarde, nas estantes da biblioteca pública do ensino médio. Desde então sigo na busca do funesto e do reprovável como forma de resistência à apatia e ao conformismo dessa geração.
Brinquei de punk durante a adolescência tardia e troquei a água pela cerveja. Depois pela pinga. Depois voltei aos livros. Viciado em gás lacrimogêneo e spray de pimenta, sonho em explodir o Ancapistão usando um artefato com a grafia "Propriedade é roubo" na fuselagem.





Urbanóia

Ou mesmo fazer a vontade de minha mãe e continuar com as aulas de canto, seguindo os passos de meu avô materno no coral da igreja, congregando com os irmãos em uma cantoria que, exatamente pela beleza, fazia esquecer o fato de que não havia nenhum deus para ouvir.

Ou talvez devesse ter continuado com a faculdade de administração de empresas e nunca ter cursado direito, mantido as antigas amizades que eram mais pautadas na reciprocidade do que na utilidade, continuado o relacionamento com Lúcia, que havia se acabado sem nenhuma razão plausível de nenhuma das partes. Poderia ter tido filhos, ampliado a peregrinação sem sentido de minha estirpe pela terra.

Ou poderia ter fundado uma banda, as letras, todas com críticas do sistema (seja lá o que “sistema” significasse), as turnês cada vez menos rentáveis, drogas a dar com pau, sexo com qualquer baranga que aparecesse pela frente, acordando sempre com um gosto gástrico na boca, saindo na mão com os colegas de banda, fodendo cabritos desavisados pelo interior a fora, tocando fogo em carros, sendo preso esporadicamente, morrendo aos vinte sete de uma forma estúpida, mas ainda assim sendo idolatrado por idiotas em todo o globo.

Ou mesmo nunca ter aparecido na porra da entrevista de emprego na Votorantim cinco anos atrás. Poderia ter arrumado outro emprego e, mesmo ganhando menos, possivelmente jamais teria me deparado com a criatura de vidro e aço que me persegue há três anos.

Continua…

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Jorge Machado
Urbanóia

Ou mesmo fazer a vontade de minha mãe e continuar com as aulas de canto, seguindo os passos de meu avô materno no coral da igreja, congregando com os irmãos em uma cantoria que, exatamente pela beleza, fazia esquecer o fato de que não havia nenhum deus para ouvir.

Ou talvez devesse ter continuado com a faculdade de administração de empresas e nunca ter cursado direito, mantido as antigas amizades que eram mais pautadas na reciprocidade do que na utilidade, continuado o relacionamento com Lúcia, que havia se acabado sem nenhuma razão plausível de nenhuma das partes. Poderia ter tido filhos, ampliado a peregrinação sem sentido de minha estirpe pela terra.

Ou poderia ter fundado uma banda, as letras, todas com críticas do sistema (seja lá o que “sistema” significasse), as turnês cada vez menos rentáveis, drogas a dar com pau, sexo com qualquer baranga que aparecesse pela frente, acordando sempre com um gosto gástrico na boca, saindo na mão com os colegas de banda, fodendo cabritos desavisados pelo interior a fora, tocando fogo em carros, sendo preso esporadicamente, morrendo aos vinte sete de uma forma estúpida, mas ainda assim sendo idolatrado por idiotas em todo o globo.

Ou mesmo nunca ter aparecido na porra da entrevista de emprego na Votorantim cinco anos atrás. Poderia ter arrumado outro emprego e, mesmo ganhando menos, possivelmente jamais teria me deparado com a criatura de vidro e aço que me persegue há três anos.

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