Abditae causae - José Fernando Rezende
José Fernando Rezende
José Fernando Rezende é formado em história e trabalha atualmente como arquivista em empresa do terceiro setor.
Reside em Santa Bárbara d'Oeste, interior de SP.
Apaixonado desde criança pelos gêneros terror e horror, ainda na adolescência passou a escrever suas próprias histórias, tendo como principais inspirações H.P.Lovecraft, Algernon Blackwood e Stephen King.
Fascinado também pela literatura brasileira, elenca como mestres Graciliano Ramos, Lima Barreto, Machado de Assis, Monteiro Lobato e Jorge Amado.
Além dos contos de horror, é torcedor do São Paulo F.C e um diletante na arte culinária.






Abditae causae

       Sobrevinha-lhe de tempos em tempos a sensação de que as pessoas, ao se afastarem dele, gradualmente ficavam melhores. Daí saber se era acaso ou causa, perfazia-se numa outra angustiante peleja interna. Empedernira-se, certa vez, numa explicação de ordem quase mística: julgou-se um aziago. Assim posto, parecia coerente crer que, de algum modo, estendia esse mau agouro aos que se aproximavam demasiado. Ao primeiro, segundo e vários outros olhares, não era lá muito diferente do que a maioria das pessoas é. E essa constatação não era autoindulgente. Antes disso, estava mesmo referendada pelo fato de nunca estar sozinho totalmente. Nada tinha a ver com tipos esquivos que, no cenário social, por excelência e com certa naturalidade, afugentava pares. Não obstante, no zênite das convivências, havia algo que apodrecia sob a aparência de normalidade. Algo cuja deterioração espraiava-se, qual peçonha incolor e inodora, porém letal. Mesmo que o acaso, puro e simples, em seu invólucro enigmático e aleatório fosse flexionado ao ponto de explicar a melhora das pessoas que se afastavam, buscava ver nisso também um índice de sua funesta influência. Sua mente angustiava-se ao reparar que as pessoas com as quais dividira certos períodos da vida, efêmeros ou duradouros, súbita e até elegantemente cessavam suas Via Crucis privadas.

       Feito um homúnculo, esses pensamentos opunham-se lhe, falando aos seus ouvidos como se fosse outro ser; e um ser tão nefasto quanto o âmago podre que ele mesmo julgava ter. Esse homenzinho, no átimo em que existia além dele, dizia coisas. Dali em diante, não ouvia seus pensamentos, por mais destrutivos que pudessem ser, mas O ouvia. E, diante da verificada alegria e faceirice das pessoas distantes de sua influência nauseabunda, tomava a si próprio como ave de mau agouro que, sem um pingo de autocomiseração, deveria perecer.

       Adveio então desse silencioso inferno interior, a ideia. A princípio, julgou ser apenas mais uma das muitas aspirações e tendências destrutivas que habitavam seu íntimo. Nessa carapaça de familiaridade na qual se revestia até então a ideia, começaram a surgir trincas e rachaduras, provocadas talvez pela duração atípica e natureza dolente do pensamento torpe. Por entre as rachaduras, ele conseguia vislumbrar o negror e a sentir a frieza de sua essência e, em determinado ponto, exaurido que estava pelas inúmeras infrutíferas tentativas de se ver livre da ideia, – que no ínterim entre sua manifestação até a constatação de seu caráter único e assustador, havia se transfigurado em odiosa obsessão – aquiesceu aos seus desmandos trevosos. No início, não passava de um ou dois pensamentos vagos ao longo do dia, fragmentos de ideias, ou resíduos de suas profundas mágoas. Antes que pudesse ligar importância e procurar meios para calar a boca maldita que vociferava impropérios, já anuía e buscava esgueirar-se das consequências que essa ideia renitente e infatigável parecia querer produzir.

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José Fernando Rezende
Abditae causae

       Sobrevinha-lhe de tempos em tempos a sensação de que as pessoas, ao se afastarem dele, gradualmente ficavam melhores. Daí saber se era acaso ou causa, perfazia-se numa outra angustiante peleja interna. Empedernira-se, certa vez, numa explicação de ordem quase mística: julgou-se um aziago. Assim posto, parecia coerente crer que, de algum modo, estendia esse mau agouro aos que se aproximavam demasiado. Ao primeiro, segundo e vários outros olhares, não era lá muito diferente do que a maioria das pessoas é. E essa constatação não era autoindulgente. Antes disso, estava mesmo referendada pelo fato de nunca estar sozinho totalmente. Nada tinha a ver com tipos esquivos que, no cenário social, por excelência e com certa naturalidade, afugentava pares. Não obstante, no zênite das convivências, havia algo que apodrecia sob a aparência de normalidade. Algo cuja deterioração espraiava-se, qual peçonha incolor e inodora, porém letal. Mesmo que o acaso, puro e simples, em seu invólucro enigmático e aleatório fosse flexionado ao ponto de explicar a melhora das pessoas que se afastavam, buscava ver nisso também um índice de sua funesta influência. Sua mente angustiava-se ao reparar que as pessoas com as quais dividira certos períodos da vida, efêmeros ou duradouros, súbita e até elegantemente cessavam suas Via Crucis privadas.

       Feito um homúnculo, esses pensamentos opunham-se lhe, falando aos seus ouvidos como se fosse outro ser; e um ser tão nefasto quanto o âmago podre que ele mesmo julgava ter. Esse homenzinho, no átimo em que existia além dele, dizia coisas. Dali em diante, não ouvia seus pensamentos, por mais destrutivos que pudessem ser, mas O ouvia. E, diante da verificada alegria e faceirice das pessoas distantes de sua influência nauseabunda, tomava a si próprio como ave de mau agouro que, sem um pingo de autocomiseração, deveria perecer.

       Adveio então desse silencioso inferno interior, a ideia. A princípio, julgou ser apenas mais uma das muitas aspirações e tendências destrutivas que habitavam seu íntimo. Nessa carapaça de familiaridade na qual se revestia até então a ideia, começaram a surgir trincas e rachaduras, provocadas talvez pela duração atípica e natureza dolente do pensamento torpe. Por entre as rachaduras, ele conseguia vislumbrar o negror e a sentir a frieza de sua essência e, em determinado ponto, exaurido que estava pelas inúmeras infrutíferas tentativas de se ver livre da ideia, – que no ínterim entre sua manifestação até a constatação de seu caráter único e assustador, havia se transfigurado em odiosa obsessão – aquiesceu aos seus desmandos trevosos. No início, não passava de um ou dois pensamentos vagos ao longo do dia, fragmentos de ideias, ou resíduos de suas profundas mágoas. Antes que pudesse ligar importância e procurar meios para calar a boca maldita que vociferava impropérios, já anuía e buscava esgueirar-se das consequências que essa ideia renitente e infatigável parecia querer produzir.

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