Carpe noctem - José Fernando Rezende
José Fernando Rezende
José Fernando Rezende é formado em história e trabalha atualmente como arquivista em empresa do terceiro setor.
Reside em Santa Bárbara d'Oeste, interior de SP.
Apaixonado desde criança pelos gêneros terror e horror, ainda na adolescência passou a escrever suas próprias histórias, tendo como principais inspirações H.P.Lovecraft, Algernon Blackwood e Stephen King.
Fascinado também pela literatura brasileira, elenca como mestres Graciliano Ramos, Lima Barreto, Machado de Assis, Monteiro Lobato e Jorge Amado.
Além dos contos de horror, é torcedor do São Paulo F.C e um diletante na arte culinária.






Carpe noctem

Se existe um clichê que poderia abrir esse relato, seria este: por que coisas ruins acontecem com pessoas boas? É uma boa oração, sintética e direta, um clamor subjacente pelas injustiças que acometem esse ou aquele vivente. Estilismos a parte, o que acontece é que, clichê ou fraseado rebuscado, nada consegue dar conta do que me aconteceu há exatamente dez anos atrás. Um momento, coisa mundana, efêmero, mas que se engastou fundo nas lembranças e enraizou espécie de trauma. Ora, me indagam a respeito de meus arrepios ao sentir o cálido vento dos verões tropicais ou da agradável brisa que invade os dormitórios nas madrugadas dessa alegre estação. Arrepios e certa repulsa, sobrevém, tomam conta. Não é de outro modo, um desgosto pela estação ou a preferência por climas mais frios. É o rememorar da noite nefanda que evoca essa treva e mutila de pouco em pouco minha psique combalida. Não que antes fosse eu uma pessoa efusiva e cheia de energia, nem que tivesse um grande grupo de amigos e companheiros, mas o que se deu naquela noite acentuou mais ainda a já incipiente propensão a uma vida mais reclusa. Nas poucas e raríssimas vezes que conseguia sair um pouco de meus aposentos, para estar com os meus ou ver alguns conhecidos de tempos, a aflição me dominava e sempre voltava depressa para o meu claustro. Nunca fui religioso e sequer espiritualista, portanto meu retiro voluntário nada tinha a ver com a reclusão monástica dos homens e mulheres que buscam o sagrado. Era algo deveras prático: havia algo lá fora e eu não queria correr nenhum risco de encontrar. Sopesei os limites desse raciocínio infantil e simplista, mas quem consegue elaborar melhor os produtos de uma mente horrorizada? Não sair das quatro paredes que configuravam meu dormitório na velha casa de meus pais era a tradução mais literal dessa horrível experiência e suas consequências. A janela, onde teve lugar o pavoroso episódio, começou a ser trancada a cadeado, depois, obstruída por uma pesada estante de livros para finalmente, no ápice de minha aflição, arrancada e fechada com alvenaria. O sumiço da abertura deveria ter acalmado minha mente apavorada, mas, na escuridão das longas madrugadas insones, ao ter o olhar atraído para o local na parede onde outrora abria-se a janela, eu procurava distinguir seus antigos contornos na demão de tinta dada após a reforma. Em outras vezes, apoderava-se de mim a inexorável ideia de que estava ali o recorte da janela, formando um quadrilátero de luminosidade opaca que parecia pulsar na parede. Abrir-se-ia novamente se caso eu fechasse os olhos mais demoradamente? Surgiriam as estrias na tinta e depois, as rachaduras no cimento? De onde vinha aquela luminosidade mortiça que eu acreditava enxergar?

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Se existe um clichê que poderia abrir esse relato, seria este: por que coisas ruins acontecem com pessoas boas? É uma boa oração, sintética e direta, um clamor subjacente pelas injustiças que acometem esse ou aquele vivente. Estilismos a parte, o que acontece é que, clichê ou fraseado rebuscado, nada consegue dar conta do que me aconteceu há exatamente dez anos atrás. Um momento, coisa mundana, efêmero, mas que se engastou fundo nas lembranças e enraizou espécie de trauma. Ora, me indagam a respeito de meus arrepios ao sentir o cálido vento dos verões tropicais ou da agradável brisa que invade os dormitórios nas madrugadas dessa alegre estação. Arrepios e certa repulsa, sobrevém, tomam conta. Não é de outro modo, um desgosto pela estação ou a preferência por climas mais frios. É o rememorar da noite nefanda que evoca essa treva e mutila de pouco em pouco minha psique combalida. Não que antes fosse eu uma pessoa efusiva e cheia de energia, nem que tivesse um grande grupo de amigos e companheiros, mas o que se deu naquela noite acentuou mais ainda a já incipiente propensão a uma vida mais reclusa. Nas poucas e raríssimas vezes que conseguia sair um pouco de meus aposentos, para estar com os meus ou ver alguns conhecidos de tempos, a aflição me dominava e sempre voltava depressa para o meu claustro. Nunca fui religioso e sequer espiritualista, portanto meu retiro voluntário nada tinha a ver com a reclusão monástica dos homens e mulheres que buscam o sagrado. Era algo deveras prático: havia algo lá fora e eu não queria correr nenhum risco de encontrar. Sopesei os limites desse raciocínio infantil e simplista, mas quem consegue elaborar melhor os produtos de uma mente horrorizada? Não sair das quatro paredes que configuravam meu dormitório na velha casa de meus pais era a tradução mais literal dessa horrível experiência e suas consequências. A janela, onde teve lugar o pavoroso episódio, começou a ser trancada a cadeado, depois, obstruída por uma pesada estante de livros para finalmente, no ápice de minha aflição, arrancada e fechada com alvenaria. O sumiço da abertura deveria ter acalmado minha mente apavorada, mas, na escuridão das longas madrugadas insones, ao ter o olhar atraído para o local na parede onde outrora abria-se a janela, eu procurava distinguir seus antigos contornos na demão de tinta dada após a reforma. Em outras vezes, apoderava-se de mim a inexorável ideia de que estava ali o recorte da janela, formando um quadrilátero de luminosidade opaca que parecia pulsar na parede. Abrir-se-ia novamente se caso eu fechasse os olhos mais demoradamente? Surgiriam as estrias na tinta e depois, as rachaduras no cimento? De onde vinha aquela luminosidade mortiça que eu acreditava enxergar?

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