Carpe noctem - José Fernando Rezende
José Fernando Rezende
José Fernando Rezende é formado em história e trabalha atualmente como arquivista em empresa do terceiro setor.
Reside em Santa Bárbara d'Oeste, interior de SP.
Apaixonado desde criança pelos gêneros terror e horror, ainda na adolescência passou a escrever suas próprias histórias, tendo como principais inspirações H.P.Lovecraft, Algernon Blackwood e Stephen King.
Fascinado também pela literatura brasileira, elenca como mestres Graciliano Ramos, Lima Barreto, Machado de Assis, Monteiro Lobato e Jorge Amado.
Além dos contos de horror, é torcedor do São Paulo F.C e um diletante na arte culinária.






Carpe noctem

O isolamento, a falta de apetite crônica e o medo entranhado no mais profundo do espírito, passaram a suscitar nas poucas pessoas ao meu redor, grande preocupação. Outrossim, fisicamente houveram mudanças. A começar das olheiras, cada vez mais marcadas e fundas, resultado oriundo das vigílias embaladas por pensamentos de horror atroz. A frugal alimentação que logo se tornou em menos que o mínimo necessário moldou meu corpo antes saudável numa constituição de tísico, doentia ao ponto de angariar olhares de pena e lamentação. O medo do que sei que existe, de alguma forma e de algum jeito, posto está que vivenciei a terrífica experiência, pesa como se meu corpo estivesse pregado ao chão. Não há nada, nem ninguém, que possa me dissuadir da ideia do isolamento e, de um tempo para cá, até mesmo me furto de pensamentos muito densos. É como se eu apenas existisse sobre a cama, como se alguma parafernália que monitora sinais vitais ainda estivesse captando indício qualquer de vida, mesmo que passiva em meu corpo.

Quando resolvi por fim tomar do lápis e escrever meu penar sobre a terra, já era tarde demais para qualquer regresso. Talvez o relato tenha até o caráter de um testamento, mas o que lego à posteridade não é nada bom, mas o retrato da minha alma torturada. Os meus garranchos enchem o papel e, mesmo aqui, perco-me propositalmente em divagações e redundâncias para não rever, nem forçar a mente, de retorno ao dia que feriu-me tão profundamente o espírito. Enquanto escrevo, não deixo de olhar de soslaio para a janela que não está mais ali, contudo, está aberta em minha mente enferma. O jantar jaz intocado numa bandeja ao lado do bloco em que faço essas anotações e continuará assim. Também ao alcance da mão, está o vidro de cianureto que consegui.

A solução definitiva elaborada por uma mente que, como a minha, já não goza mais da saúde que ordinariamente suprime tais pensamentos, não é de todo descabida, quando vista em perspectiva. Como se, depois daquela noite, meu espírito ferido de morte tivesse agonizado e, nos dias seguintes, morrido aos poucos, até que em célere estado de putrefação, apodrecera todo o restante do meu corpo e mente. Findar essa animação meramente artificial não era matar nada. Não se pode matar o que já está finado. O veneno, portanto, seria a porta de saída de um porão no qual venho apodrecendo desde aquela amaldiçoada noite.

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José Fernando Rezende
Carpe noctem

O isolamento, a falta de apetite crônica e o medo entranhado no mais profundo do espírito, passaram a suscitar nas poucas pessoas ao meu redor, grande preocupação. Outrossim, fisicamente houveram mudanças. A começar das olheiras, cada vez mais marcadas e fundas, resultado oriundo das vigílias embaladas por pensamentos de horror atroz. A frugal alimentação que logo se tornou em menos que o mínimo necessário moldou meu corpo antes saudável numa constituição de tísico, doentia ao ponto de angariar olhares de pena e lamentação. O medo do que sei que existe, de alguma forma e de algum jeito, posto está que vivenciei a terrífica experiência, pesa como se meu corpo estivesse pregado ao chão. Não há nada, nem ninguém, que possa me dissuadir da ideia do isolamento e, de um tempo para cá, até mesmo me furto de pensamentos muito densos. É como se eu apenas existisse sobre a cama, como se alguma parafernália que monitora sinais vitais ainda estivesse captando indício qualquer de vida, mesmo que passiva em meu corpo.

Quando resolvi por fim tomar do lápis e escrever meu penar sobre a terra, já era tarde demais para qualquer regresso. Talvez o relato tenha até o caráter de um testamento, mas o que lego à posteridade não é nada bom, mas o retrato da minha alma torturada. Os meus garranchos enchem o papel e, mesmo aqui, perco-me propositalmente em divagações e redundâncias para não rever, nem forçar a mente, de retorno ao dia que feriu-me tão profundamente o espírito. Enquanto escrevo, não deixo de olhar de soslaio para a janela que não está mais ali, contudo, está aberta em minha mente enferma. O jantar jaz intocado numa bandeja ao lado do bloco em que faço essas anotações e continuará assim. Também ao alcance da mão, está o vidro de cianureto que consegui.

A solução definitiva elaborada por uma mente que, como a minha, já não goza mais da saúde que ordinariamente suprime tais pensamentos, não é de todo descabida, quando vista em perspectiva. Como se, depois daquela noite, meu espírito ferido de morte tivesse agonizado e, nos dias seguintes, morrido aos poucos, até que em célere estado de putrefação, apodrecera todo o restante do meu corpo e mente. Findar essa animação meramente artificial não era matar nada. Não se pode matar o que já está finado. O veneno, portanto, seria a porta de saída de um porão no qual venho apodrecendo desde aquela amaldiçoada noite.

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