Carpe noctem - José Fernando Rezende
José Fernando Rezende
José Fernando Rezende é formado em história e trabalha atualmente como arquivista em empresa do terceiro setor.
Reside em Santa Bárbara d'Oeste, interior de SP.
Apaixonado desde criança pelos gêneros terror e horror, ainda na adolescência passou a escrever suas próprias histórias, tendo como principais inspirações H.P.Lovecraft, Algernon Blackwood e Stephen King.
Fascinado também pela literatura brasileira, elenca como mestres Graciliano Ramos, Lima Barreto, Machado de Assis, Monteiro Lobato e Jorge Amado.
Além dos contos de horror, é torcedor do São Paulo F.C e um diletante na arte culinária.






Carpe noctem

Como se fosse um horroroso quadro, cuja moldura era a própria janela, uma silhueta obscurecida pela luz fraca de uma lua minguante estava parada no lado de fora, olhando para dentro do cômodo. Meu corpo gelou de imediato, não mexi um músculo, os pensamentos restaram desordenados ante o terrível evento.

Fechei os olhos com força e tornei abrir, mas o que se seguiu apenas teve o condão de piorar o que já se anunciava com a estranha silhueta. Ao abrir novamente os olhos, pude, para minha desgraça, vislumbrar o rosto sem a cobertura das trevas. O que estava ali, parado na janela do meu quarto, olhando para dentro, para mim, era algo de hediondo. Era uma mulher extremamente velha, com o rosto adornado terrivelmente por sulcos na pele de uma palidez incrível. Os cabelos eram desgrenhados, pareciam orbitar sebosos, ao redor da cabeça de pesadelos. Contudo, antes que eu pudesse ter forças para desprender o olhar de tal horror, os caprichos da má sorte me fizeram fitar os olhos daquilo. Eram arregalados, de um acastanhado quase imperceptível, uma vez que a pupila negra dilatava-se por quase todo olho. Parados, como se me visse e enxergasse através de mim, ou para dentro de mim. A boca fina e de lábios castigados, entreaberta, deixava a mostra poucos dentes de um amarelo doentio e perturbador, mas era apenas um detalhe perto dos olhos, daqueles olhos que pareciam poder envenenar uma alma. Não soube, nem sei hoje, precisar o tempo que durou o contato maldito com aquele olhar de puro horror, mas de repente a velha virou-se e foi pela escuridão. No mesmo instante, descobri que seu desaparecimento não me causou qualquer alivio, e então tive certeza de que meu calvário sobre a terra tinha começado.

Maldição, desgraça, desespero; era, dei-me conta ali e nos dias que se seguiram, um desterrado em meu próprio espírito. Havia sido, com o infame acontecido, envenenado e a peçonha só fazia tomar mais e mais conta de meu corpo. Acerca dessas condições, relatei no início, portanto meu estado lamentável, mental e físico, é de conhecimento dos que puderem ler.

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José Fernando Rezende
Carpe noctem

Como se fosse um horroroso quadro, cuja moldura era a própria janela, uma silhueta obscurecida pela luz fraca de uma lua minguante estava parada no lado de fora, olhando para dentro do cômodo. Meu corpo gelou de imediato, não mexi um músculo, os pensamentos restaram desordenados ante o terrível evento.

Fechei os olhos com força e tornei abrir, mas o que se seguiu apenas teve o condão de piorar o que já se anunciava com a estranha silhueta. Ao abrir novamente os olhos, pude, para minha desgraça, vislumbrar o rosto sem a cobertura das trevas. O que estava ali, parado na janela do meu quarto, olhando para dentro, para mim, era algo de hediondo. Era uma mulher extremamente velha, com o rosto adornado terrivelmente por sulcos na pele de uma palidez incrível. Os cabelos eram desgrenhados, pareciam orbitar sebosos, ao redor da cabeça de pesadelos. Contudo, antes que eu pudesse ter forças para desprender o olhar de tal horror, os caprichos da má sorte me fizeram fitar os olhos daquilo. Eram arregalados, de um acastanhado quase imperceptível, uma vez que a pupila negra dilatava-se por quase todo olho. Parados, como se me visse e enxergasse através de mim, ou para dentro de mim. A boca fina e de lábios castigados, entreaberta, deixava a mostra poucos dentes de um amarelo doentio e perturbador, mas era apenas um detalhe perto dos olhos, daqueles olhos que pareciam poder envenenar uma alma. Não soube, nem sei hoje, precisar o tempo que durou o contato maldito com aquele olhar de puro horror, mas de repente a velha virou-se e foi pela escuridão. No mesmo instante, descobri que seu desaparecimento não me causou qualquer alivio, e então tive certeza de que meu calvário sobre a terra tinha começado.

Maldição, desgraça, desespero; era, dei-me conta ali e nos dias que se seguiram, um desterrado em meu próprio espírito. Havia sido, com o infame acontecido, envenenado e a peçonha só fazia tomar mais e mais conta de meu corpo. Acerca dessas condições, relatei no início, portanto meu estado lamentável, mental e físico, é de conhecimento dos que puderem ler.

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