Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
José Fernando Rezende
José Fernando Rezende é formado em história e trabalha atualmente como arquivista em empresa do terceiro setor.
Reside em Santa Bárbara d'Oeste, interior de SP.
Apaixonado desde criança pelos gêneros terror e horror, ainda na adolescência passou a escrever suas próprias histórias, tendo como principais inspirações H.P.Lovecraft, Algernon Blackwood e Stephen King.
Fascinado também pela literatura brasileira, elenca como mestres Graciliano Ramos, Lima Barreto, Machado de Assis, Monteiro Lobato e Jorge Amado.
Além dos contos de horror, é torcedor do São Paulo F.C e um diletante na arte culinária.






Espelhos

Para muitas pessoas, um espelho é somente um espelho. Objeto do cotidiano, sem maiores serventias. Todos habituados a olhá-lo com indiferença pela manhã e com o eterno cansaço no entardecer. Ele está sempre ali… Parado. Refletindo sempre o azulejo desgastado do banheiro ou o escuro guarda-roupa do quarto. Pra mim, um espelho é muito mais que vidro, uma camada de prata e uma de tinta protetora. Eu não mais gosto deles. Eu nunca mais olhei para espelhos, e fico desconfortável em vitrinas nas quais conseguimos enxergar-nos. Eu nunca mais olhei para espelhos desde aquela noite quieta e agourenta na casa antiga de meus pais, nos subúrbios.

Eu tinha apenas 15 anos e era um garoto comum, sardento, desses que vemos todos os dias jogando bola ou empinando pipa e maranhões perto das redes elétricas. Garotos terríveis, cuja fama se estende vizinhança afora. Eu era assim. Bolinava em tudo quanto era possível e quando não havia mais traquinagens para fazer, eu me ocupava em atormentar as vacas e os bois que pastavam sossegadamente num campo verde que fazia divisa com o bairro pobre onde morávamos durante minha infância.

Eu também, como qualquer garoto, traquinas ou não, gostava de mulheres. Perdia horas e horas trepado em árvores e dentro de construções inacabadas para tentar ver as moças tomando banho, ou até mesmo embelezando-se diante da penteadeira para esperar o namorado ou noivo. Eu e faísca, um negrinho tinhoso e rápido como ele só, tínhamos uma preferida. Era uma filha de médicos que morava num sobrado, do lado dum solar, porém este último, abandonado. Faísca e eu pulávamos o muro alto da residência e logo estávamos no aposento que ficava próximo a janela do quarto dela. Ela… Nunca soubemos o nome da moça, mas não era necessário devido aos nossos anseios infantis, imaturos. Nosso contentamento se encerrava na possibilidade luxuriosa de admirar suas ancas e seios, boquiabertos e pasmados, enquanto escolhia a roupa. Os olhos grandes de faíscas vidravam-se quando ela se despia ali, como se atuasse num show particular pra nós. Eu ficava atônito, e como não poderia deixar de ser, a moça do sobrado foi minha inspiração para tantas noites na cama e demoras no banheiro. Coisas de criança. Apesar de tudo, gostaria que esse tempo bom voltasse. Faísca, jamais tornei a ver e tampouco aquele subúrbio. Tenho saudades, mas, quando as recordações do que se deu no Corpus Christi assombram a minha mente, afasto logo todas as memórias, até as boas, para não me lembrar.

Devem estar querendo saber o que aconteceu naquela noite, e vou lhes contar, uma vez que esse segredo que levo em mim age, ás vezes, como potente veneno em minha alma. Procuro no relato, também uma possível paz em relação ao que se passou.

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Para muitas pessoas, um espelho é somente um espelho. Objeto do cotidiano, sem maiores serventias. Todos habituados a olhá-lo com indiferença pela manhã e com o eterno cansaço no entardecer. Ele está sempre ali… Parado. Refletindo sempre o azulejo desgastado do banheiro ou o escuro guarda-roupa do quarto. Pra mim, um espelho é muito mais que vidro, uma camada de prata e uma de tinta protetora. Eu não mais gosto deles. Eu nunca mais olhei para espelhos, e fico desconfortável em vitrinas nas quais conseguimos enxergar-nos. Eu nunca mais olhei para espelhos desde aquela noite quieta e agourenta na casa antiga de meus pais, nos subúrbios.

Eu tinha apenas 15 anos e era um garoto comum, sardento, desses que vemos todos os dias jogando bola ou empinando pipa e maranhões perto das redes elétricas. Garotos terríveis, cuja fama se estende vizinhança afora. Eu era assim. Bolinava em tudo quanto era possível e quando não havia mais traquinagens para fazer, eu me ocupava em atormentar as vacas e os bois que pastavam sossegadamente num campo verde que fazia divisa com o bairro pobre onde morávamos durante minha infância.

Eu também, como qualquer garoto, traquinas ou não, gostava de mulheres. Perdia horas e horas trepado em árvores e dentro de construções inacabadas para tentar ver as moças tomando banho, ou até mesmo embelezando-se diante da penteadeira para esperar o namorado ou noivo. Eu e faísca, um negrinho tinhoso e rápido como ele só, tínhamos uma preferida. Era uma filha de médicos que morava num sobrado, do lado dum solar, porém este último, abandonado. Faísca e eu pulávamos o muro alto da residência e logo estávamos no aposento que ficava próximo a janela do quarto dela. Ela… Nunca soubemos o nome da moça, mas não era necessário devido aos nossos anseios infantis, imaturos. Nosso contentamento se encerrava na possibilidade luxuriosa de admirar suas ancas e seios, boquiabertos e pasmados, enquanto escolhia a roupa. Os olhos grandes de faíscas vidravam-se quando ela se despia ali, como se atuasse num show particular pra nós. Eu ficava atônito, e como não poderia deixar de ser, a moça do sobrado foi minha inspiração para tantas noites na cama e demoras no banheiro. Coisas de criança. Apesar de tudo, gostaria que esse tempo bom voltasse. Faísca, jamais tornei a ver e tampouco aquele subúrbio. Tenho saudades, mas, quando as recordações do que se deu no Corpus Christi assombram a minha mente, afasto logo todas as memórias, até as boas, para não me lembrar.

Devem estar querendo saber o que aconteceu naquela noite, e vou lhes contar, uma vez que esse segredo que levo em mim age, ás vezes, como potente veneno em minha alma. Procuro no relato, também uma possível paz em relação ao que se passou.

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