Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
José Fernando Rezende
José Fernando Rezende é formado em história e trabalha atualmente como arquivista em empresa do terceiro setor.
Reside em Santa Bárbara d'Oeste, interior de SP.
Apaixonado desde criança pelos gêneros terror e horror, ainda na adolescência passou a escrever suas próprias histórias, tendo como principais inspirações H.P.Lovecraft, Algernon Blackwood e Stephen King.
Fascinado também pela literatura brasileira, elenca como mestres Graciliano Ramos, Lima Barreto, Machado de Assis, Monteiro Lobato e Jorge Amado.
Além dos contos de horror, é torcedor do São Paulo F.C e um diletante na arte culinária.






Espelhos

Faísca e eu estávamos tramando de ir ver a moça filha dos doutores noutro bairro, que ficava um tanto longe do nosso, e para isso, aproveitamos que todos estavam perdidos e atarefados nos preparativos para a festa religiosa e ninguém daria por nossa falta. Além de ir vê-la, também esquivávamos da obrigação de ter de mexer os tachos nas cozinhas quentes ou ajudar o reverendo a enfeitar a igreja. “Nem morto!” – dizia Faísca, rindo enquanto atravessávamos o pasto que separava o nosso bairro do da moça. Eu ria, correndo atrás dele e ver por outra, atirando pedras nos cupinzeiros e nos bois que pastavam ali, tediosos.

Caia uma tarde mansa e quente e nós pulamos como de costume o muro da velha construção para atingir nosso posto de observação com algum tempo de sobra. O velho casarão tinha um aspecto sombrio, o que não podia deixar de ser, uma vez que havia pertencido a uma mulher reclusa, cujos retratos severos forravam as paredes. Faísca, que era filho duma negra empregada, dizia que a velha proprietária morrera sozinha, e que ficara viúva cedo. Nunca tivera filhos e isso, somado com a viuvez precoce, lançou-a nas trevas do desespero e os braços lânguidos e frios da solidão. Eu nunca disse nada ou negrinho, mas, quando adentrávamos no salão principal do lúgubre solar, eu sempre sentia um arrepio, mas escondia o braço com pelinhos eriçados para que ele não percebesse e não contasse aos outros que eu tinha medo de assombração. Faísca era o que as pessoas chamam de temerário. Saia urinar na alta noite, pois o banheiro de seu pobre casebre ficava do lado de fora. “Se eu vejo um lubisomê” – dizia ele, valente – “Eu pego ele na unha!” e levantava o bracinho preto e mirrado. Eu também era um porra louca, mas não me equiparava ao Faísca. O salão principal era grande e imponente e já vira decerto tempos de glória. Um quadro pesado e imenso da velha viúva pendia na parede central, perto das escadarias, tal um guarda de olhos frios e mortíferos. Eu tinha medo do casarão. Mas, bem, todos conhecem o que é um garoto entrando na adolescência e os hormônios se mostravam mais fortes que o medo. E eu estava com Faísca. Diabo de negrinho arretado carregava orgulho um patuá dado por sua avó. Atribuía ao pequeno saquinho que trazia amarrado a um colar, poderes mágicos de proteção. Eu acreditava inspirado pela inocência fantasiosa e muitas vezes prejudicial da infância. O fato é que aquela tarde a moça demorava a aparecer e Faísca teimou em andar pelo casarão, que não sabíamos o motivo, mas ainda estava com toda a mobília. Eu achava que a velha não tinha herdeiros, e, portanto ninguém reclamara o casarão. Tudo estava trancado e mofando. Nós entrávamos sempre por uma vidraça quebrada. Começamos nossa expedição, mesmo com todos os meus protestos, pela cozinha. Tinha um ar de antiga e a nostalgia contida nos móveis e aparatos era carregada ali. Faísca distraiu-se com um conjunto de facas que encontrou guardado numa das gavetas da cozinha. Eu olhava tudo com receio.

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Faísca e eu estávamos tramando de ir ver a moça filha dos doutores noutro bairro, que ficava um tanto longe do nosso, e para isso, aproveitamos que todos estavam perdidos e atarefados nos preparativos para a festa religiosa e ninguém daria por nossa falta. Além de ir vê-la, também esquivávamos da obrigação de ter de mexer os tachos nas cozinhas quentes ou ajudar o reverendo a enfeitar a igreja. “Nem morto!” – dizia Faísca, rindo enquanto atravessávamos o pasto que separava o nosso bairro do da moça. Eu ria, correndo atrás dele e ver por outra, atirando pedras nos cupinzeiros e nos bois que pastavam ali, tediosos.

Caia uma tarde mansa e quente e nós pulamos como de costume o muro da velha construção para atingir nosso posto de observação com algum tempo de sobra. O velho casarão tinha um aspecto sombrio, o que não podia deixar de ser, uma vez que havia pertencido a uma mulher reclusa, cujos retratos severos forravam as paredes. Faísca, que era filho duma negra empregada, dizia que a velha proprietária morrera sozinha, e que ficara viúva cedo. Nunca tivera filhos e isso, somado com a viuvez precoce, lançou-a nas trevas do desespero e os braços lânguidos e frios da solidão. Eu nunca disse nada ou negrinho, mas, quando adentrávamos no salão principal do lúgubre solar, eu sempre sentia um arrepio, mas escondia o braço com pelinhos eriçados para que ele não percebesse e não contasse aos outros que eu tinha medo de assombração. Faísca era o que as pessoas chamam de temerário. Saia urinar na alta noite, pois o banheiro de seu pobre casebre ficava do lado de fora. “Se eu vejo um lubisomê” – dizia ele, valente – “Eu pego ele na unha!” e levantava o bracinho preto e mirrado. Eu também era um porra louca, mas não me equiparava ao Faísca. O salão principal era grande e imponente e já vira decerto tempos de glória. Um quadro pesado e imenso da velha viúva pendia na parede central, perto das escadarias, tal um guarda de olhos frios e mortíferos. Eu tinha medo do casarão. Mas, bem, todos conhecem o que é um garoto entrando na adolescência e os hormônios se mostravam mais fortes que o medo. E eu estava com Faísca. Diabo de negrinho arretado carregava orgulho um patuá dado por sua avó. Atribuía ao pequeno saquinho que trazia amarrado a um colar, poderes mágicos de proteção. Eu acreditava inspirado pela inocência fantasiosa e muitas vezes prejudicial da infância. O fato é que aquela tarde a moça demorava a aparecer e Faísca teimou em andar pelo casarão, que não sabíamos o motivo, mas ainda estava com toda a mobília. Eu achava que a velha não tinha herdeiros, e, portanto ninguém reclamara o casarão. Tudo estava trancado e mofando. Nós entrávamos sempre por uma vidraça quebrada. Começamos nossa expedição, mesmo com todos os meus protestos, pela cozinha. Tinha um ar de antiga e a nostalgia contida nos móveis e aparatos era carregada ali. Faísca distraiu-se com um conjunto de facas que encontrou guardado numa das gavetas da cozinha. Eu olhava tudo com receio.

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