Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
José Fernando Rezende
José Fernando Rezende é formado em história e trabalha atualmente como arquivista em empresa do terceiro setor.
Reside em Santa Bárbara d'Oeste, interior de SP.
Apaixonado desde criança pelos gêneros terror e horror, ainda na adolescência passou a escrever suas próprias histórias, tendo como principais inspirações H.P.Lovecraft, Algernon Blackwood e Stephen King.
Fascinado também pela literatura brasileira, elenca como mestres Graciliano Ramos, Lima Barreto, Machado de Assis, Monteiro Lobato e Jorge Amado.
Além dos contos de horror, é torcedor do São Paulo F.C e um diletante na arte culinária.






Espelhos

Passou-se a noite e, no meu quarto, no escuro, jazia o embrulho amarelado num canto e eu insone noutro, remoendo pensamentos. Como eu ficara estranho após aquela tarde no casarão! Amanheceu o dia de Corpus Christi e toda a família aprontava-se para igreja e depois para a festa no salão paroquial. Todos estavam animados e contentes e eu desembrulhara enfim o que trouxera. Eu pendurei em meu pequeno quarto, aquela parte surrupiada da bizarra penteadeira. Eu trouxera o espelho.

O que sucedeu foi depois da festança. Despedi-me de Faísca no portão de casa e entrei. Fiquei aquela noite quase toda olhando aquele pedaço de vidro, agora estranho, devido à falta da moldura que o deixava com ar real. Era agora um pedaço de vidro apenas, como se fosse um vidro oval e estranho. Coloquei um banquinho na frente dele e passei a contemplar meu próprio rosto refletido ali. As sardas, os cabelos vermelhos e os dentes que faltavam aos montes. Analisei cada linha do meu rosto naquela noite, mas até hoje não entendo o motivo que me mantinha ali, sentando, apático. Foi quando, já alta hora, eu me preparava para deitar e o suspiro se fez ouvir alto pelo quarto. Meu sangue gelou. Engoli seco e procurei por algo a esmo no meu pequeno quarto. Parado, só ouvia os grilos no jardinzinho lá fora e as batidas de meu próprio coração. Outra vez…

Olhei para o espelho. O que eu vi ali, meu Deus, me fez gritar e acordar toda minha casa, e quem sabe parte da vizinhança. Lembro-me que me pai veio me acudir e deu uma bronca quando constatou que não existia nenhum problema na verdade. Eu tentava balbuciar algo, mas as palavras me pregavam peças e saíam desordenadas e sem sentido. Lembro-me apenas de ter implorado a meu pai para que tirasse dali o objeto de meu pavor, e ele o fez, resmungando e carrancudo. Não dormi aquela noite e tampouco nas que se seguiram. Não tinha mais ânimo nenhum para brincar e Faísca tentou inúmeras vezes me tirar do escuro do quarto. Eu caíra em depressão. O médico da vila dizia, num tom sistemático, que nada mais era que “coisas da idade”.

Eu sabia que não, e sabia por que não.

Os anos foram se passamos e meu pai depois de muita luta, conseguiu comprar para nós uma casa no centro, e foi então que deixamos o bairro onde eu nascera e me criara. Foram dias tristes de despedida e lembro-me de ter chorado quando Faísca, com os olhos marejados, me colocou no pescoço seu precioso patuá: “Você vai precisar mais do que eu, Chico”.

Ele correu pela rua abaixo e foi essa a última vez que vi meu valente amigo. Não tem um dia no qual eu não me lembre dele e de suas peripécias.

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Passou-se a noite e, no meu quarto, no escuro, jazia o embrulho amarelado num canto e eu insone noutro, remoendo pensamentos. Como eu ficara estranho após aquela tarde no casarão! Amanheceu o dia de Corpus Christi e toda a família aprontava-se para igreja e depois para a festa no salão paroquial. Todos estavam animados e contentes e eu desembrulhara enfim o que trouxera. Eu pendurei em meu pequeno quarto, aquela parte surrupiada da bizarra penteadeira. Eu trouxera o espelho.

O que sucedeu foi depois da festança. Despedi-me de Faísca no portão de casa e entrei. Fiquei aquela noite quase toda olhando aquele pedaço de vidro, agora estranho, devido à falta da moldura que o deixava com ar real. Era agora um pedaço de vidro apenas, como se fosse um vidro oval e estranho. Coloquei um banquinho na frente dele e passei a contemplar meu próprio rosto refletido ali. As sardas, os cabelos vermelhos e os dentes que faltavam aos montes. Analisei cada linha do meu rosto naquela noite, mas até hoje não entendo o motivo que me mantinha ali, sentando, apático. Foi quando, já alta hora, eu me preparava para deitar e o suspiro se fez ouvir alto pelo quarto. Meu sangue gelou. Engoli seco e procurei por algo a esmo no meu pequeno quarto. Parado, só ouvia os grilos no jardinzinho lá fora e as batidas de meu próprio coração. Outra vez…

Olhei para o espelho. O que eu vi ali, meu Deus, me fez gritar e acordar toda minha casa, e quem sabe parte da vizinhança. Lembro-me que me pai veio me acudir e deu uma bronca quando constatou que não existia nenhum problema na verdade. Eu tentava balbuciar algo, mas as palavras me pregavam peças e saíam desordenadas e sem sentido. Lembro-me apenas de ter implorado a meu pai para que tirasse dali o objeto de meu pavor, e ele o fez, resmungando e carrancudo. Não dormi aquela noite e tampouco nas que se seguiram. Não tinha mais ânimo nenhum para brincar e Faísca tentou inúmeras vezes me tirar do escuro do quarto. Eu caíra em depressão. O médico da vila dizia, num tom sistemático, que nada mais era que “coisas da idade”.

Eu sabia que não, e sabia por que não.

Os anos foram se passamos e meu pai depois de muita luta, conseguiu comprar para nós uma casa no centro, e foi então que deixamos o bairro onde eu nascera e me criara. Foram dias tristes de despedida e lembro-me de ter chorado quando Faísca, com os olhos marejados, me colocou no pescoço seu precioso patuá: “Você vai precisar mais do que eu, Chico”.

Ele correu pela rua abaixo e foi essa a última vez que vi meu valente amigo. Não tem um dia no qual eu não me lembre dele e de suas peripécias.

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