O encontro - José Fernando Rezende
José Fernando Rezende
José Fernando Rezende é formado em história e trabalha atualmente como arquivista em empresa do terceiro setor.
Reside em Santa Bárbara d'Oeste, interior de SP.
Apaixonado desde criança pelos gêneros terror e horror, ainda na adolescência passou a escrever suas próprias histórias, tendo como principais inspirações H.P.Lovecraft, Algernon Blackwood e Stephen King.
Fascinado também pela literatura brasileira, elenca como mestres Graciliano Ramos, Lima Barreto, Machado de Assis, Monteiro Lobato e Jorge Amado.
Além dos contos de horror, é torcedor do São Paulo F.C e um diletante na arte culinária.






O encontro

I

       Depois do que havia sido um dia repleto de amarguras, Domenico Sforza caminhou pelas ruas e ruelas do bairro periférico até chegar ao botequim do qual era habitué desde sua mudança. Sentou-se numa das baquetas que estavam dispostas em frente do balcão e solicitou, com o mesmo gesto de sempre (o dedo indicador levantado e logo em seguida, apontado para baixo), o lavrado de cachaça. Atanásio, o proprietário da bodega, sujeito calvo e atarracado que ia pelos 50, mas parecia bem mais velho, enxugou com o guardanapo que trazia no ombro um dos copos americanos que repousavam no escorredor de alumínio e depositou-o na frente do cliente. Logo depois, encheu-o com cachaça e virou-se novamente para a porta do bar sem dizer palavra. Domenico fitou o copo cheio de pinga e inalou os vapores alcóolicos que se desprendiam da bebida. Pensou que o gosto, mesmo tendo o condão de queimar gargantas das mais experimentadas, não obliterava o amargor da vida. Às vezes precisava de dois ou três lavrados, ora diabos, mesmo quatro, para poder enfim caminhar até o casebre no qual vivia. Com os olhos fixos no copo quase transbordante de aguardente, atinou que não queria andar até lá, não queria e nem sequer podia, por Deus, encará-la no dia de hoje. A sexta-feira que escorria pelo relógio ensebado, ao lado do também engordurado quadro com o retrato de Vargas, não agia em seu ser de qualquer modo benéfico. Antes disso, era pleno de angústia. A oficina mecânica da qual era empregado funcionava aos sábados apenas metade do expediente. Naquele barracão sujo, amplo e ainda assim pegajoso e calorento infestado de mosquitos minúsculos e persistentes, também não estava melhor do que no barraco. Percebeu que apenas tinha um resquício, um lampejo de tranquilidade no espaço fedorento e modorrento daquela bodega. Ali não existia o culattone que lhe havia ajustado na oficina, talvez com a tácita intensão de ter alguém em quem descontar as frustrações. Também não tomava assento nos bancos decadentes para beber, a praga que era a sua amásia. Constatar isso fez Domenico esboçar um sorriso nervoso. Entornou o copo, sentido o líquido queimar o caminho até o estômago e, com uma careta, repetiu o gesto com o dedo para o dono do bar.

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       Depois do que havia sido um dia repleto de amarguras, Domenico Sforza caminhou pelas ruas e ruelas do bairro periférico até chegar ao botequim do qual era habitué desde sua mudança. Sentou-se numa das baquetas que estavam dispostas em frente do balcão e solicitou, com o mesmo gesto de sempre (o dedo indicador levantado e logo em seguida, apontado para baixo), o lavrado de cachaça. Atanásio, o proprietário da bodega, sujeito calvo e atarracado que ia pelos 50, mas parecia bem mais velho, enxugou com o guardanapo que trazia no ombro um dos copos americanos que repousavam no escorredor de alumínio e depositou-o na frente do cliente. Logo depois, encheu-o com cachaça e virou-se novamente para a porta do bar sem dizer palavra. Domenico fitou o copo cheio de pinga e inalou os vapores alcóolicos que se desprendiam da bebida. Pensou que o gosto, mesmo tendo o condão de queimar gargantas das mais experimentadas, não obliterava o amargor da vida. Às vezes precisava de dois ou três lavrados, ora diabos, mesmo quatro, para poder enfim caminhar até o casebre no qual vivia. Com os olhos fixos no copo quase transbordante de aguardente, atinou que não queria andar até lá, não queria e nem sequer podia, por Deus, encará-la no dia de hoje. A sexta-feira que escorria pelo relógio ensebado, ao lado do também engordurado quadro com o retrato de Vargas, não agia em seu ser de qualquer modo benéfico. Antes disso, era pleno de angústia. A oficina mecânica da qual era empregado funcionava aos sábados apenas metade do expediente. Naquele barracão sujo, amplo e ainda assim pegajoso e calorento infestado de mosquitos minúsculos e persistentes, também não estava melhor do que no barraco. Percebeu que apenas tinha um resquício, um lampejo de tranquilidade no espaço fedorento e modorrento daquela bodega. Ali não existia o culattone que lhe havia ajustado na oficina, talvez com a tácita intensão de ter alguém em quem descontar as frustrações. Também não tomava assento nos bancos decadentes para beber, a praga que era a sua amásia. Constatar isso fez Domenico esboçar um sorriso nervoso. Entornou o copo, sentido o líquido queimar o caminho até o estômago e, com uma careta, repetiu o gesto com o dedo para o dono do bar.

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