O encontro - José Fernando Rezende
José Fernando Rezende
José Fernando Rezende é formado em história e trabalha atualmente como arquivista em empresa do terceiro setor.
Reside em Santa Bárbara d'Oeste, interior de SP.
Apaixonado desde criança pelos gêneros terror e horror, ainda na adolescência passou a escrever suas próprias histórias, tendo como principais inspirações H.P.Lovecraft, Algernon Blackwood e Stephen King.
Fascinado também pela literatura brasileira, elenca como mestres Graciliano Ramos, Lima Barreto, Machado de Assis, Monteiro Lobato e Jorge Amado.
Além dos contos de horror, é torcedor do São Paulo F.C e um diletante na arte culinária.






O encontro

IV

       Os dias eram todos iguais. Não mais era possível contar a passagem deles, sequer separar dia e noite, semana ou feriado. A grade nas janelas do dormitório de um branco amarelado era sempre o mesmo, mas uma macha de umidade crescia e Domenico observava a mesma espraiar-se pelo teto como um câncer. Os remédios, os choques terapêuticos, as injeções que culminavam em dolorosas convulsões. O tratamento. Mulheres de branco e sujeitos de óculos enormes de lente garrafais trajando jalecos impecáveis aplicavam o tratamento. Comida insossa e fria. Na mente, o vazio deixado por essa rotina. Só uma coisa o tratamento não conseguia ofuscar: os olhos do estranho do bar, olhos que eram poços escuros, onde as almas se afogavam. Poço das almas. Antes, o rosto desfigurado da mulata estava entre as lembranças, também o bode, as velas. O tratamento só deixou o sujeito e seus olhos de um negror pegajoso e doente. Estavam na vigília e no sono, irredutíveis. Além dos sons da cidade lá fora, do sino de uma igreja distante e o ruído dos bondes que trafegavam nas linhas, ás vezes ouvia o balido. Alto e satisfeito. Alto e de gelar as almas fracas. Um dia qualquer Domenico foi levado a presença de alguém que as mulheres de branco disseram ser um casuístico. Pouca coisa Domenico guardou do fugaz encontro, mas, afora a surpresa de ouvir novamente seu nome, ficou sabendo que a polícia o acusava de dois assassínios, o da mulata e do seu antigo patrão.

       Contou o homem engravatado e de voz afetada que, segundo testemunhas, logo depois que Domenico deixara a oficina na tarde da fatídica sexta-feira, o velho escroque fora encontrado morto, em seu escritório. Fora assassinado, contou o engomado, a golpes de martelo. Nesse dia, após ouvir essas revelações, Domenico fechou-se em irremediável estado catatônico, do qual jamais se libertou. Dentro do silêncio doentio ao qual recolhera sua consciência, fulguravam, como as velas ao relento, os olhos negros que eram poços para as almas, sem fundo. Os vultos sem rostos, sem forma definida, vagueavam irritados e impacientes. Os olhos de Domenico dançavam pelo quarto, tentando afastá-los, adiar-lhes a tarefa. Os olhos negros, não queria saltar neles. Os olhos que eram poços sem fundo, de afogar almas.

 

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IV

       Os dias eram todos iguais. Não mais era possível contar a passagem deles, sequer separar dia e noite, semana ou feriado. A grade nas janelas do dormitório de um branco amarelado era sempre o mesmo, mas uma macha de umidade crescia e Domenico observava a mesma espraiar-se pelo teto como um câncer. Os remédios, os choques terapêuticos, as injeções que culminavam em dolorosas convulsões. O tratamento. Mulheres de branco e sujeitos de óculos enormes de lente garrafais trajando jalecos impecáveis aplicavam o tratamento. Comida insossa e fria. Na mente, o vazio deixado por essa rotina. Só uma coisa o tratamento não conseguia ofuscar: os olhos do estranho do bar, olhos que eram poços escuros, onde as almas se afogavam. Poço das almas. Antes, o rosto desfigurado da mulata estava entre as lembranças, também o bode, as velas. O tratamento só deixou o sujeito e seus olhos de um negror pegajoso e doente. Estavam na vigília e no sono, irredutíveis. Além dos sons da cidade lá fora, do sino de uma igreja distante e o ruído dos bondes que trafegavam nas linhas, ás vezes ouvia o balido. Alto e satisfeito. Alto e de gelar as almas fracas. Um dia qualquer Domenico foi levado a presença de alguém que as mulheres de branco disseram ser um casuístico. Pouca coisa Domenico guardou do fugaz encontro, mas, afora a surpresa de ouvir novamente seu nome, ficou sabendo que a polícia o acusava de dois assassínios, o da mulata e do seu antigo patrão.

       Contou o homem engravatado e de voz afetada que, segundo testemunhas, logo depois que Domenico deixara a oficina na tarde da fatídica sexta-feira, o velho escroque fora encontrado morto, em seu escritório. Fora assassinado, contou o engomado, a golpes de martelo. Nesse dia, após ouvir essas revelações, Domenico fechou-se em irremediável estado catatônico, do qual jamais se libertou. Dentro do silêncio doentio ao qual recolhera sua consciência, fulguravam, como as velas ao relento, os olhos negros que eram poços para as almas, sem fundo. Os vultos sem rostos, sem forma definida, vagueavam irritados e impacientes. Os olhos de Domenico dançavam pelo quarto, tentando afastá-los, adiar-lhes a tarefa. Os olhos negros, não queria saltar neles. Os olhos que eram poços sem fundo, de afogar almas.

 

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