O encontro - José Fernando Rezende
José Fernando Rezende
José Fernando Rezende é formado em história e trabalha atualmente como arquivista em empresa do terceiro setor.
Reside em Santa Bárbara d'Oeste, interior de SP.
Apaixonado desde criança pelos gêneros terror e horror, ainda na adolescência passou a escrever suas próprias histórias, tendo como principais inspirações H.P.Lovecraft, Algernon Blackwood e Stephen King.
Fascinado também pela literatura brasileira, elenca como mestres Graciliano Ramos, Lima Barreto, Machado de Assis, Monteiro Lobato e Jorge Amado.
Além dos contos de horror, é torcedor do São Paulo F.C e um diletante na arte culinária.






O encontro

       “Não, não precisa. Não tem nada que o obrigue, além da covardia e da culpa que te corroem como vermes a ferver num cadáver. Pode ser você a rir, pode ser você a deslindar esse imbróglio que te mata lentamente.” Os olhos do estranho pareciam brilhar como um archote na escuridão. Ao mesmo tempo, pareciam feitos do tecido lúgubre que compõe as trevas. Domenico tremeu, mesmo com a metade da garrafa de pinga já alojada em seus miolos. Estremeceu porque viu seus pensamentos mais torpes materializados ali, pela língua ferina do estranho. Pensara nisso várias vezes, mas sua criação católica dispersara essas nuvens negras antes que desabassem a tempestade que gestavam. Às vezes, na oficina, de posse de um martelo, refletira, com os olhos perdidos no escritório precário que se pendurava num mezanino, como seria bom acertar o chefe com um golpe. Um golpe que poderia rachar-lhe o crânio e com sorte atingir-lhe os miolos. Como nas diversas vezes que, cozinhando ou fazendo as refeições ao lado da traidora, teceu fantasias grotescas que versavam sobre jogar a fervura em seu rosto luxurioso e maledicente, talvez o único modo de tirar de seus lábios grossos e voluptuosos o sorriso debochado, ou esfaquear, repetidas vezes, até que os músculos o traíssem, o corpo que desposara, mas que era de tantos outros tipos ordinários. Odiava amá-la e deseja-la mais que a própria vida, mas era um caminho sem volta, a julgar pelo que vivenciara até então.

       Não consigo – disse ao estranho. Não posso mata-la. Nem sequer posso matar o porco que me humilha pelo mirrado ordenado. Confessou, mas não baixou a cabeça. Tinha nos olhos a tristeza conformada da presa, a opacidade do fracasso e a chama virulenta da culpa.

       “Não é necessário sujar suas mãos calejadas, homem. Sabemos que não é feito do material inflamável que existe no espírito de alguns dos filhos do Covarde. O que tem de fazer é simples. Um pouco antes, um pouco depois” – respondeu o estranho, que agora parara de sorrir e tinha no rosto um aspecto ríspido e duro.

       O operário sentiu pavor do que estava por trás daquelas palavras áridas. Mas anuiu, com a cabeça e com monossílabos, a tudo o que aquele estranho homem dizia. Era torpe, doentio e, sobretudo horroroso. Mas concordou que não havia outro jeito. Concordou que era a hora

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       “Não, não precisa. Não tem nada que o obrigue, além da covardia e da culpa que te corroem como vermes a ferver num cadáver. Pode ser você a rir, pode ser você a deslindar esse imbróglio que te mata lentamente.” Os olhos do estranho pareciam brilhar como um archote na escuridão. Ao mesmo tempo, pareciam feitos do tecido lúgubre que compõe as trevas. Domenico tremeu, mesmo com a metade da garrafa de pinga já alojada em seus miolos. Estremeceu porque viu seus pensamentos mais torpes materializados ali, pela língua ferina do estranho. Pensara nisso várias vezes, mas sua criação católica dispersara essas nuvens negras antes que desabassem a tempestade que gestavam. Às vezes, na oficina, de posse de um martelo, refletira, com os olhos perdidos no escritório precário que se pendurava num mezanino, como seria bom acertar o chefe com um golpe. Um golpe que poderia rachar-lhe o crânio e com sorte atingir-lhe os miolos. Como nas diversas vezes que, cozinhando ou fazendo as refeições ao lado da traidora, teceu fantasias grotescas que versavam sobre jogar a fervura em seu rosto luxurioso e maledicente, talvez o único modo de tirar de seus lábios grossos e voluptuosos o sorriso debochado, ou esfaquear, repetidas vezes, até que os músculos o traíssem, o corpo que desposara, mas que era de tantos outros tipos ordinários. Odiava amá-la e deseja-la mais que a própria vida, mas era um caminho sem volta, a julgar pelo que vivenciara até então.

       Não consigo – disse ao estranho. Não posso mata-la. Nem sequer posso matar o porco que me humilha pelo mirrado ordenado. Confessou, mas não baixou a cabeça. Tinha nos olhos a tristeza conformada da presa, a opacidade do fracasso e a chama virulenta da culpa.

       “Não é necessário sujar suas mãos calejadas, homem. Sabemos que não é feito do material inflamável que existe no espírito de alguns dos filhos do Covarde. O que tem de fazer é simples. Um pouco antes, um pouco depois” – respondeu o estranho, que agora parara de sorrir e tinha no rosto um aspecto ríspido e duro.

       O operário sentiu pavor do que estava por trás daquelas palavras áridas. Mas anuiu, com a cabeça e com monossílabos, a tudo o que aquele estranho homem dizia. Era torpe, doentio e, sobretudo horroroso. Mas concordou que não havia outro jeito. Concordou que era a hora

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