O encontro - José Fernando Rezende
José Fernando Rezende
José Fernando Rezende é formado em história e trabalha atualmente como arquivista em empresa do terceiro setor.
Reside em Santa Bárbara d'Oeste, interior de SP.
Apaixonado desde criança pelos gêneros terror e horror, ainda na adolescência passou a escrever suas próprias histórias, tendo como principais inspirações H.P.Lovecraft, Algernon Blackwood e Stephen King.
Fascinado também pela literatura brasileira, elenca como mestres Graciliano Ramos, Lima Barreto, Machado de Assis, Monteiro Lobato e Jorge Amado.
Além dos contos de horror, é torcedor do São Paulo F.C e um diletante na arte culinária.






O encontro

II

       Domenico Sforza foi acordado por repetidos golpes de pano de prato desferidos por um irritado Atanásio. O dono da bodega ralhava e açoitava com o pano engordurado o operário que, sem lembrar-se como, dormia ao lado da garrafa e do copo vazios no balcão. Despertar assim abruptamente fez com que recordasse do estranho e da conversa diabólica que travaram em algum lugar no passado recente. Ao notar a ausência do sujeito na banqueta vizinha, Domenico arrastou-se para fora do boteco e pôs-se a caminhar a esmo, ainda ouvindo os desagravos e injúrias proferidas pelo dono do bar. A julgar pelo frio e pelo ermo da rua, certamente a noite desaguara na madrugada. Cambaleante e atordoado, o operário errou por entre as ruelas da favela, caindo aqui e ali, já que não se aguentava em pé por muito tempo. Domenico não tinha ideia de quanto tempo já perambulava, quase sem rumo pela favela, sem achar o caminho para casa, quando começou a ventar. O vento notívago baixara a temperatura da enregelante madrugada e o homem tinha para si, fantasias do álcool ou não, que essas ventarolas traziam palavras torpes e gargalhadas sinistras aos seus ouvidos. Domenico chorava e lutava para controlar as pernas bambas e o andar trôpego. Na mente, os desaforos carregados pelo vento: cornuto! Covarde! Espurco! Domenico tapava os ouvidos com as mãos trêmulas e continuava a andar, perdido entre os barracos em ruelas imundas que pareciam sempre as mesmas. A tortura da ventania e da confusão labiríntica que o operário tinha se metido desde que deixara a bodega cessou, de repente e por completo, quando uma das vielas desembocou numa grande e deserta encruzilhada em forma de T. Ambas as extremidades terminavam em mata fechada, e além, via-se igualmente um cinturão de árvores de um aspecto doentio e terrível. Jamais vira tal cenário perto do casebre. Sua mente febril e ébria calculou apressadamente que desviara-se totalmente do trajeto para casa.

       Desviara-se talvez horas. Tremeu ao sentir o frio rigoroso da madrugada que reinava e ao ver, contrariando todas as leis naturais, que sete velas pretas queimavam no centro da encruzilhada, sentiu um calafrio percorrer lhe a espinha. O pavor de Domenico foi ainda maior quando avistou que, entre as velas, enterrado no chão de terra da encruzilhada, repousava um punhal. A visão da arma trouxe a tona na mente um fragmento do infame colóquio. Antes que qualquer consideração de qualquer natureza lhe arrancasse o ímpeto avassalador de ódio e fúria que irremediavelmente tinha tomado as rédeas de seu comportamento, Domenico correu, atabalhoado e ajoelhou, igualmente desajeitado, em frente ás velas, desenterrando e empunhando o punhal enegrecido. O rosto da mulata fulgurou na luz bruxuleante das velas e o operário a odiou ainda mais.

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II

       Domenico Sforza foi acordado por repetidos golpes de pano de prato desferidos por um irritado Atanásio. O dono da bodega ralhava e açoitava com o pano engordurado o operário que, sem lembrar-se como, dormia ao lado da garrafa e do copo vazios no balcão. Despertar assim abruptamente fez com que recordasse do estranho e da conversa diabólica que travaram em algum lugar no passado recente. Ao notar a ausência do sujeito na banqueta vizinha, Domenico arrastou-se para fora do boteco e pôs-se a caminhar a esmo, ainda ouvindo os desagravos e injúrias proferidas pelo dono do bar. A julgar pelo frio e pelo ermo da rua, certamente a noite desaguara na madrugada. Cambaleante e atordoado, o operário errou por entre as ruelas da favela, caindo aqui e ali, já que não se aguentava em pé por muito tempo. Domenico não tinha ideia de quanto tempo já perambulava, quase sem rumo pela favela, sem achar o caminho para casa, quando começou a ventar. O vento notívago baixara a temperatura da enregelante madrugada e o homem tinha para si, fantasias do álcool ou não, que essas ventarolas traziam palavras torpes e gargalhadas sinistras aos seus ouvidos. Domenico chorava e lutava para controlar as pernas bambas e o andar trôpego. Na mente, os desaforos carregados pelo vento: cornuto! Covarde! Espurco! Domenico tapava os ouvidos com as mãos trêmulas e continuava a andar, perdido entre os barracos em ruelas imundas que pareciam sempre as mesmas. A tortura da ventania e da confusão labiríntica que o operário tinha se metido desde que deixara a bodega cessou, de repente e por completo, quando uma das vielas desembocou numa grande e deserta encruzilhada em forma de T. Ambas as extremidades terminavam em mata fechada, e além, via-se igualmente um cinturão de árvores de um aspecto doentio e terrível. Jamais vira tal cenário perto do casebre. Sua mente febril e ébria calculou apressadamente que desviara-se totalmente do trajeto para casa.

       Desviara-se talvez horas. Tremeu ao sentir o frio rigoroso da madrugada que reinava e ao ver, contrariando todas as leis naturais, que sete velas pretas queimavam no centro da encruzilhada, sentiu um calafrio percorrer lhe a espinha. O pavor de Domenico foi ainda maior quando avistou que, entre as velas, enterrado no chão de terra da encruzilhada, repousava um punhal. A visão da arma trouxe a tona na mente um fragmento do infame colóquio. Antes que qualquer consideração de qualquer natureza lhe arrancasse o ímpeto avassalador de ódio e fúria que irremediavelmente tinha tomado as rédeas de seu comportamento, Domenico correu, atabalhoado e ajoelhou, igualmente desajeitado, em frente ás velas, desenterrando e empunhando o punhal enegrecido. O rosto da mulata fulgurou na luz bruxuleante das velas e o operário a odiou ainda mais.

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