O encontro - José Fernando Rezende
José Fernando Rezende
José Fernando Rezende é formado em história e trabalha atualmente como arquivista em empresa do terceiro setor.
Reside em Santa Bárbara d'Oeste, interior de SP.
Apaixonado desde criança pelos gêneros terror e horror, ainda na adolescência passou a escrever suas próprias histórias, tendo como principais inspirações H.P.Lovecraft, Algernon Blackwood e Stephen King.
Fascinado também pela literatura brasileira, elenca como mestres Graciliano Ramos, Lima Barreto, Machado de Assis, Monteiro Lobato e Jorge Amado.
Além dos contos de horror, é torcedor do São Paulo F.C e um diletante na arte culinária.






O encontro

       Ruídos e murmúrios se fizeram ouvir na mata próxima. O punhal era empunhado com ódio inédito, as veias das mãos saltavam como se por elas corresse lava. Nas chamas das velas negras que dançavam ao vento sem se extinguir, Domenico via cada um das ignomínias da sua vida, acontecimentos vexatórios que arranhavam sua autoestima e desdenhavam de seu caráter de homem italiano íntegro. Ali, como queimavam os pavios, como o vento arrancava folhas das copas intangíveis das árvores perdidas no escuro da noite, renegou, por três vezes, Javé. O deus que o haviam ensinado a amar e a temer abandonara-o, tanto no velho mundo, quando a família afundou-se na miséria e bebês morreram famélicos, quanto no novo mundo, lugar onde seu brio foi arrastado no chão imundo de um botequim. Igualmente, renegou ao seu covarde filho, arrancando do pescoço o crucifixo e atirando-o para se perder nos limites da mata fechada que circundava a encruzilhada. Ao termo do ato denegatório e ritualístico, nenhum galo cantou como para Pedro, em eras longínquas incontáveis séculos, mas como resposta do avesso, um bode ensanguentado, negro como a mais escura das madrugadas e cujos olhos eram duas esferas rubras, saiu claudicando da mata fechada. O animal fitou Domenico nos olhos e baliu longamente. O operário, nesse momento, abriu a mão esquerda e, com o punhal, talhou a palma, produzindo um filete de sangue que escorreu, manchando a terra da encruzilhada. Com o punho cerrado, o sangue gotejava nas velas, banhando-as com a vida e a energia do ódio que ali corria e tingia o chão da encruzilhada. Logo, vários vultos, uns com faces animalescas outros cobertos com capuzes, eram vistos emergir ao lado do poderoso ritual de entrega. Domenico não sentia mais medo, apenas queimava lhe as vísceras um fogo poderoso, que incinerava os medos e as atitudes titubeantes. Queimavam assim como os pavios agora alimentados com sangue, os rostos de seus inimigos, dos que o fizeram sofrer. Ao cabo de exíguos minutos, a consciência de Domenico vacilou indo e voltando, para logo abandona-lo, em denso torpor, no chão lamacento da encruzilhada. Havia começado a chover. O bode entrou capengando novamente na mata e os vultos sombrios desvaneceram na medida em que as chamas das velas, uma a uma, eram apagadas pelas gotas insistentes da chuva que trazia consigo o romper da aurora. Apenas uma delas queimou até o fim, no lodaçal em que se tornara a encruzilhada.

Páginas: 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10

       Ruídos e murmúrios se fizeram ouvir na mata próxima. O punhal era empunhado com ódio inédito, as veias das mãos saltavam como se por elas corresse lava. Nas chamas das velas negras que dançavam ao vento sem se extinguir, Domenico via cada um das ignomínias da sua vida, acontecimentos vexatórios que arranhavam sua autoestima e desdenhavam de seu caráter de homem italiano íntegro. Ali, como queimavam os pavios, como o vento arrancava folhas das copas intangíveis das árvores perdidas no escuro da noite, renegou, por três vezes, Javé. O deus que o haviam ensinado a amar e a temer abandonara-o, tanto no velho mundo, quando a família afundou-se na miséria e bebês morreram famélicos, quanto no novo mundo, lugar onde seu brio foi arrastado no chão imundo de um botequim. Igualmente, renegou ao seu covarde filho, arrancando do pescoço o crucifixo e atirando-o para se perder nos limites da mata fechada que circundava a encruzilhada. Ao termo do ato denegatório e ritualístico, nenhum galo cantou como para Pedro, em eras longínquas incontáveis séculos, mas como resposta do avesso, um bode ensanguentado, negro como a mais escura das madrugadas e cujos olhos eram duas esferas rubras, saiu claudicando da mata fechada. O animal fitou Domenico nos olhos e baliu longamente. O operário, nesse momento, abriu a mão esquerda e, com o punhal, talhou a palma, produzindo um filete de sangue que escorreu, manchando a terra da encruzilhada. Com o punho cerrado, o sangue gotejava nas velas, banhando-as com a vida e a energia do ódio que ali corria e tingia o chão da encruzilhada. Logo, vários vultos, uns com faces animalescas outros cobertos com capuzes, eram vistos emergir ao lado do poderoso ritual de entrega. Domenico não sentia mais medo, apenas queimava lhe as vísceras um fogo poderoso, que incinerava os medos e as atitudes titubeantes. Queimavam assim como os pavios agora alimentados com sangue, os rostos de seus inimigos, dos que o fizeram sofrer. Ao cabo de exíguos minutos, a consciência de Domenico vacilou indo e voltando, para logo abandona-lo, em denso torpor, no chão lamacento da encruzilhada. Havia começado a chover. O bode entrou capengando novamente na mata e os vultos sombrios desvaneceram na medida em que as chamas das velas, uma a uma, eram apagadas pelas gotas insistentes da chuva que trazia consigo o romper da aurora. Apenas uma delas queimou até o fim, no lodaçal em que se tornara a encruzilhada.

Páginas: 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10