O encontro - José Fernando Rezende
José Fernando Rezende
José Fernando Rezende é formado em história e trabalha atualmente como arquivista em empresa do terceiro setor.
Reside em Santa Bárbara d'Oeste, interior de SP.
Apaixonado desde criança pelos gêneros terror e horror, ainda na adolescência passou a escrever suas próprias histórias, tendo como principais inspirações H.P.Lovecraft, Algernon Blackwood e Stephen King.
Fascinado também pela literatura brasileira, elenca como mestres Graciliano Ramos, Lima Barreto, Machado de Assis, Monteiro Lobato e Jorge Amado.
Além dos contos de horror, é torcedor do São Paulo F.C e um diletante na arte culinária.






O encontro

III

       Quando despertou, Domenico sentiu as roupas encharcadas, embora a chuva já tivesse cessado. Abriu os olhos e contemplou por instantes o céu plúmbeo do dia nublado e agourento. O corte na mão, profundo, não mais sangrava, contudo, percebeu que não estava mais na estranha encruzilhada. Não se lembrava de ter andado logo depois da loucura que vivenciara, ou sonhara, em algum lugar no passado. Jazia deitado num pequeno e improvisado campo de futebol, usado pelos moleques da favela. O corpo doía, a mente pregava-lhe peças perversas sobre o que realmente acontecera logo depois que entrara no botequim ao cair da tarde, após o expediente. Levantou-se com dificuldade e andou como um doente para o aglomerado feio de barracos que estava nos limites da várzea. Na metade do caminho para seu casebre, atinou sobre a razoável possibilidade de ter se metido numa bebedeira enorme. Por certo, Atanásio tocara-o do boteco e então, completamente ébrio, rindo como um palhaço, perdera-se e caíra, dormitando aqui e ali até que, enfraquecidos os efeitos do álcool, despertara e conseguira então julgar o absurdo do que sonhara ou delirara durante o porre. O corte na mão, fundo e diagonal, atribuíra a um dos muitos tombos que certamente tomara enquanto errava bêbedo pela imensa favela. No entanto, não conseguia evitar o frio fantasmagórico e potente que irradiava-se por sua coluna quanto, por lampejos de lembranças, o rosto esbranquiçado do estranho, as velas acesas no vento, o bode machucado e capenga atingiam suas certezas e as enfraqueciam. Se fosse um sonho, ou melhor, um pesadelo, era muito real, desconcertantemente real.

       Ainda tentava encontrar o fio da meada do que lhe acontecera quando estacou diante da porta entreaberta do barraco. A porta de madeira velha e carcomida movia-se desconjuntada no desgastado batente improvisado. Não havia na situação nada de tão atípico, mas seu estômago gelou e um súbito mal estar tomou conta de seus sentidos. Titubeou por vezes sem conta até afirmar as pernas para conseguir dar os poucos passos que lhe separavam da porta. Logo que abriu-a de uma vez, viu que no cômodo que servia de sala e cozinha para o barraco, estava Filomena estirada no chão, ao lado da pequena mesa de madeira. Domenico colocou as duas mãos na boca para evitar o grito de pavor quando, ao avançar mais dois passos, viu que a mulata tinha o rosto, o mesmo pelo qual se apaixonara fatalmente, desfigurado. As lágrimas corriam pelo rosto imundo do operário, e, a cada uma delas, as lembranças do ritual, feito em sonhos ou não, feriam sua consciência. Mordeu as costas da mão esquerda ao contemplar, aterrorizado, a massa disforme que restara de Filomena. O rádio envelhecido no qual a mulher ouvia as intermináveis novelas havia desaparecido. “É a hora, não é?” – a voz rouca e ainda assim melíflua do estranho havia indagado. Sim, respondera. O rosto de Filomena havia fulgurado nas chamas das velas malditas, tinham recebido sangue, beberam os vultos e talvez o bode, que balira satisfeito pelo auto sacrifício que o operário fizera. As lembranças o atingiam como setas embebidas em veneno mortal, e Domenico viu-se ajoelhando ao lado do corpo da mulher assassinada. Um roubo – atinou profundamente aturdido. Um roubo e a acertaram.

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III

       Quando despertou, Domenico sentiu as roupas encharcadas, embora a chuva já tivesse cessado. Abriu os olhos e contemplou por instantes o céu plúmbeo do dia nublado e agourento. O corte na mão, profundo, não mais sangrava, contudo, percebeu que não estava mais na estranha encruzilhada. Não se lembrava de ter andado logo depois da loucura que vivenciara, ou sonhara, em algum lugar no passado. Jazia deitado num pequeno e improvisado campo de futebol, usado pelos moleques da favela. O corpo doía, a mente pregava-lhe peças perversas sobre o que realmente acontecera logo depois que entrara no botequim ao cair da tarde, após o expediente. Levantou-se com dificuldade e andou como um doente para o aglomerado feio de barracos que estava nos limites da várzea. Na metade do caminho para seu casebre, atinou sobre a razoável possibilidade de ter se metido numa bebedeira enorme. Por certo, Atanásio tocara-o do boteco e então, completamente ébrio, rindo como um palhaço, perdera-se e caíra, dormitando aqui e ali até que, enfraquecidos os efeitos do álcool, despertara e conseguira então julgar o absurdo do que sonhara ou delirara durante o porre. O corte na mão, fundo e diagonal, atribuíra a um dos muitos tombos que certamente tomara enquanto errava bêbedo pela imensa favela. No entanto, não conseguia evitar o frio fantasmagórico e potente que irradiava-se por sua coluna quanto, por lampejos de lembranças, o rosto esbranquiçado do estranho, as velas acesas no vento, o bode machucado e capenga atingiam suas certezas e as enfraqueciam. Se fosse um sonho, ou melhor, um pesadelo, era muito real, desconcertantemente real.

       Ainda tentava encontrar o fio da meada do que lhe acontecera quando estacou diante da porta entreaberta do barraco. A porta de madeira velha e carcomida movia-se desconjuntada no desgastado batente improvisado. Não havia na situação nada de tão atípico, mas seu estômago gelou e um súbito mal estar tomou conta de seus sentidos. Titubeou por vezes sem conta até afirmar as pernas para conseguir dar os poucos passos que lhe separavam da porta. Logo que abriu-a de uma vez, viu que no cômodo que servia de sala e cozinha para o barraco, estava Filomena estirada no chão, ao lado da pequena mesa de madeira. Domenico colocou as duas mãos na boca para evitar o grito de pavor quando, ao avançar mais dois passos, viu que a mulata tinha o rosto, o mesmo pelo qual se apaixonara fatalmente, desfigurado. As lágrimas corriam pelo rosto imundo do operário, e, a cada uma delas, as lembranças do ritual, feito em sonhos ou não, feriam sua consciência. Mordeu as costas da mão esquerda ao contemplar, aterrorizado, a massa disforme que restara de Filomena. O rádio envelhecido no qual a mulher ouvia as intermináveis novelas havia desaparecido. “É a hora, não é?” – a voz rouca e ainda assim melíflua do estranho havia indagado. Sim, respondera. O rosto de Filomena havia fulgurado nas chamas das velas malditas, tinham recebido sangue, beberam os vultos e talvez o bode, que balira satisfeito pelo auto sacrifício que o operário fizera. As lembranças o atingiam como setas embebidas em veneno mortal, e Domenico viu-se ajoelhando ao lado do corpo da mulher assassinada. Um roubo – atinou profundamente aturdido. Um roubo e a acertaram.

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