O encontro - José Fernando Rezende
José Fernando Rezende
José Fernando Rezende é formado em história e trabalha atualmente como arquivista em empresa do terceiro setor.
Reside em Santa Bárbara d'Oeste, interior de SP.
Apaixonado desde criança pelos gêneros terror e horror, ainda na adolescência passou a escrever suas próprias histórias, tendo como principais inspirações H.P.Lovecraft, Algernon Blackwood e Stephen King.
Fascinado também pela literatura brasileira, elenca como mestres Graciliano Ramos, Lima Barreto, Machado de Assis, Monteiro Lobato e Jorge Amado.
Além dos contos de horror, é torcedor do São Paulo F.C e um diletante na arte culinária.






O encontro

       Mas sabia, no íntimo, que não. E, por isso, Domenico foi invadido por um incontrolável desejo de gargalhar, até que as lágrimas aumentassem, sobre o cadáver de sua agora finada amásia. Antes mesmo dos primeiros arroubos de gargalhadas que tomaram conta do operário, saiu pelas vielas, rindo alto, perturbadoramente por entre a pobreza dos barracos. Ainda gargalhando, ao ponto das donas de casa apontar as cabeças nas janelas e portas das vielas imundas pelas quais passava, tropeçando e se batendo, chegou à rua principal que dava acesso à cidade lá embaixo. O peito doía-lhe pela violência das gargalhadas e pela potência do choro que, amiúde, continuava a enlouquecê-lo. Antes mesmo que terminar sua trajetória até o asfalto, Domenico foi segurado por dois policiais, cuja viatura e um superior, estavam parados na frente da bodega, onde conversavam com o velho Atanásio. O proprietário ouvia e meneava a cabeça, tinha a expressão assustada e até pesarosa. O operário não cessava as estrondosas gargalhadas, mesmo violentamente admoestado pelos guardas, que já o haviam algemado e jogado no xadrez da rádio patrulha. As gargalhadas iam cessando, na medida em que as lágrimas, em profusão, caiam pelo rosto perturbado do operário. O oficial superior ainda trocou algumas palavras com o dono do botequim antes de entrar na rádio patrulha. Domenico não tinha noção do que estava acontecendo. Contudo, quando a viatura manobrava para descer a ladeira da favela até o asfalto, Domenico olhou para dentro do bar. Lá de dentro, nas sombras do estabelecimento escurecido pelo dia nublado, o estranho que lhe fizera companhia, levantou um copo de cachaça como que brindando à saúde do operário. Para o desespero e assombro dos policiais, Domenico pôs-se a berrar, aterrorizado e a debater-se ao ponto de a viatura ser parada e um dos policiais o espancar com um cassetete. Um das pancadas o fez desmaiar. No turvado da perda dos sentidos, descansou.

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       Mas sabia, no íntimo, que não. E, por isso, Domenico foi invadido por um incontrolável desejo de gargalhar, até que as lágrimas aumentassem, sobre o cadáver de sua agora finada amásia. Antes mesmo dos primeiros arroubos de gargalhadas que tomaram conta do operário, saiu pelas vielas, rindo alto, perturbadoramente por entre a pobreza dos barracos. Ainda gargalhando, ao ponto das donas de casa apontar as cabeças nas janelas e portas das vielas imundas pelas quais passava, tropeçando e se batendo, chegou à rua principal que dava acesso à cidade lá embaixo. O peito doía-lhe pela violência das gargalhadas e pela potência do choro que, amiúde, continuava a enlouquecê-lo. Antes mesmo que terminar sua trajetória até o asfalto, Domenico foi segurado por dois policiais, cuja viatura e um superior, estavam parados na frente da bodega, onde conversavam com o velho Atanásio. O proprietário ouvia e meneava a cabeça, tinha a expressão assustada e até pesarosa. O operário não cessava as estrondosas gargalhadas, mesmo violentamente admoestado pelos guardas, que já o haviam algemado e jogado no xadrez da rádio patrulha. As gargalhadas iam cessando, na medida em que as lágrimas, em profusão, caiam pelo rosto perturbado do operário. O oficial superior ainda trocou algumas palavras com o dono do botequim antes de entrar na rádio patrulha. Domenico não tinha noção do que estava acontecendo. Contudo, quando a viatura manobrava para descer a ladeira da favela até o asfalto, Domenico olhou para dentro do bar. Lá de dentro, nas sombras do estabelecimento escurecido pelo dia nublado, o estranho que lhe fizera companhia, levantou um copo de cachaça como que brindando à saúde do operário. Para o desespero e assombro dos policiais, Domenico pôs-se a berrar, aterrorizado e a debater-se ao ponto de a viatura ser parada e um dos policiais o espancar com um cassetete. Um das pancadas o fez desmaiar. No turvado da perda dos sentidos, descansou.

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