Tumores de Anhangá - José Fernando Rezende
José Fernando Rezende
José Fernando Rezende é formado em história e trabalha atualmente como arquivista em empresa do terceiro setor.
Reside em Santa Bárbara d'Oeste, interior de SP.
Apaixonado desde criança pelos gêneros terror e horror, ainda na adolescência passou a escrever suas próprias histórias, tendo como principais inspirações H.P.Lovecraft, Algernon Blackwood e Stephen King.
Fascinado também pela literatura brasileira, elenca como mestres Graciliano Ramos, Lima Barreto, Machado de Assis, Monteiro Lobato e Jorge Amado.
Além dos contos de horror, é torcedor do São Paulo F.C e um diletante na arte culinária.






Tumores de Anhangá

       – Quer uma chupada no pau?

       A voz rouca e envolta pela fumaça acinzentada de um cigarro chegou-lhe aos ouvidos primeiro como um chamado distante, para logo depois subir um ou dois tons e tornar-se incompreensível.

       A figura ereta parada a sua frente, em pé no meio-fio continuava a falar, mas para ele não era mais que um borrão gesticulando e emitindo um som parecido com algo tocado em câmara lenta. Tateou pela calçada suja e úmida da chuva que caíra e do chuvisco insistente que envolvia a madrugada e esforçou-se para levantar o corpo, que sofria de pequenos tremores e choques. Ignorando o solilóquio ao qual tinha se entregado a figura borrada, andou trôpego pela rua escura sob a chuva da madrugada. Aos poucos, alguma força voltava às pernas e permitiam continuar com a empreitada de chegar ao final da rua. Lembrava-se de algo estranho, assim mesmo amargo e, de súbito, tateou o bolso da calça enlameada. Assim que as pontas dos dedos tocaram algo frio e rugoso, as memórias cravaram na mente como um prego.

       Gemeu e encostou-se a um poste e, com esforço, manteve-se de pé. As lembranças pareciam vir em pulsos, como se obedecessem ao bater do coração em ritmo acelerado. A visão piorara consideravelmente e, os ouvidos, quase nada captavam do entorno.

       A floresta parecia estar ali, próxima ao poste, os odores e o ruído horrível de aves desconhecidas lhe prenunciavam. Odores de coisas esquecidas e passadas. O estômago pesou quando a memória revelou novamente os cheiros impossíveis. O contato com a realidade eram as costas apoiadas ao poste de cimento. Algo passou ao lado, rápido. A morosidade dos sentidos não permitiu que visse mais que um vulto sob a garoa que agora aumentava de intensidade. Numa oscilação, real ou fruto de sua confusão sensorial, aconteceu na luz do poste. Como num istmo, viu novamente a criatura. Arregalou os olhos, esfregando-os desajeitadamente, fazendo com que os óculos caíssem. Abrir os olhos apenas fez com que a floresta o envolvesse mais. Agora o poste era um tronco de árvore. Sentia os cipós que pendiam dos galhos e caíam-lhe pelos ombros. O odor sufocante das árvores que se fechavam. Cambaleou e andou para longe do tronco-poste. Vislumbres da calçada que logo no outro instante era um caminho de terra batida quase totalmente coberto pela relva escura. O som recomeçara pouco depois de andar tropeçando por uns dois metros para longe do poste. Era um som desgraçadamente familiar, agora. Ouvira-o no início da noite (era ainda o mesmo dia?) e então não o surpreendia, mas ainda tinha o estranho condão de enregelar a alma. O volume no bolso da calça pareceu contorcer-se. Enfiando as mãos febrilmente nos bolsos, arrancou o conteúdo que encontrou e jogou no chão o mais longe que suas débeis forças puderam conseguir. A coisa rugosa e semovente pareceu gemer ao chocar-se com o chão. Sabia o que eram agora. As lembranças, embaladas pelo som rústico do tambor, trouxeram de volta a visão. Sentara-se na relva e meditara aos pés da árvore centenária e sombria. Foi então que os tambores teriam começado a romper o silêncio. Talvez também fora aquele o momento que vislumbrou, de olhos semicerrados, vários pontos de luminosidade esverdeada e doentia no caule da imensa árvore.

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José Fernando Rezende
Tumores de Anhangá

       – Quer uma chupada no pau?

       A voz rouca e envolta pela fumaça acinzentada de um cigarro chegou-lhe aos ouvidos primeiro como um chamado distante, para logo depois subir um ou dois tons e tornar-se incompreensível.

       A figura ereta parada a sua frente, em pé no meio-fio continuava a falar, mas para ele não era mais que um borrão gesticulando e emitindo um som parecido com algo tocado em câmara lenta. Tateou pela calçada suja e úmida da chuva que caíra e do chuvisco insistente que envolvia a madrugada e esforçou-se para levantar o corpo, que sofria de pequenos tremores e choques. Ignorando o solilóquio ao qual tinha se entregado a figura borrada, andou trôpego pela rua escura sob a chuva da madrugada. Aos poucos, alguma força voltava às pernas e permitiam continuar com a empreitada de chegar ao final da rua. Lembrava-se de algo estranho, assim mesmo amargo e, de súbito, tateou o bolso da calça enlameada. Assim que as pontas dos dedos tocaram algo frio e rugoso, as memórias cravaram na mente como um prego.

       Gemeu e encostou-se a um poste e, com esforço, manteve-se de pé. As lembranças pareciam vir em pulsos, como se obedecessem ao bater do coração em ritmo acelerado. A visão piorara consideravelmente e, os ouvidos, quase nada captavam do entorno.

       A floresta parecia estar ali, próxima ao poste, os odores e o ruído horrível de aves desconhecidas lhe prenunciavam. Odores de coisas esquecidas e passadas. O estômago pesou quando a memória revelou novamente os cheiros impossíveis. O contato com a realidade eram as costas apoiadas ao poste de cimento. Algo passou ao lado, rápido. A morosidade dos sentidos não permitiu que visse mais que um vulto sob a garoa que agora aumentava de intensidade. Numa oscilação, real ou fruto de sua confusão sensorial, aconteceu na luz do poste. Como num istmo, viu novamente a criatura. Arregalou os olhos, esfregando-os desajeitadamente, fazendo com que os óculos caíssem. Abrir os olhos apenas fez com que a floresta o envolvesse mais. Agora o poste era um tronco de árvore. Sentia os cipós que pendiam dos galhos e caíam-lhe pelos ombros. O odor sufocante das árvores que se fechavam. Cambaleou e andou para longe do tronco-poste. Vislumbres da calçada que logo no outro instante era um caminho de terra batida quase totalmente coberto pela relva escura. O som recomeçara pouco depois de andar tropeçando por uns dois metros para longe do poste. Era um som desgraçadamente familiar, agora. Ouvira-o no início da noite (era ainda o mesmo dia?) e então não o surpreendia, mas ainda tinha o estranho condão de enregelar a alma. O volume no bolso da calça pareceu contorcer-se. Enfiando as mãos febrilmente nos bolsos, arrancou o conteúdo que encontrou e jogou no chão o mais longe que suas débeis forças puderam conseguir. A coisa rugosa e semovente pareceu gemer ao chocar-se com o chão. Sabia o que eram agora. As lembranças, embaladas pelo som rústico do tambor, trouxeram de volta a visão. Sentara-se na relva e meditara aos pés da árvore centenária e sombria. Foi então que os tambores teriam começado a romper o silêncio. Talvez também fora aquele o momento que vislumbrou, de olhos semicerrados, vários pontos de luminosidade esverdeada e doentia no caule da imensa árvore.

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