Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Leonardo Duprates
Leonardo Duprates desenvolvedor de software, compositor, baixista e escritor.
Fã de Edgar Allan Poe e H.P. Lovercraft, foi nos roteiros de R.F. Lucchetti e nos filmes de José Mojica Marins que buscou inspiração para escrever seus contos de terror.









Bad trip

Um clarão quebra a escuridão do quarto seguido pelo estrondo de um trovão que faz a janela de PVC do apartamento tremer. Congelo por alguns segundos, cerro os olhos com força tentando lembrar onde estou, que dia é hoje e quanto tempo estou dormindo? Mas só consigo aumentar a dor de cabeça, provavelmente o resultado de mais uma ressaca. Quero levantar, mas não consigo me apoiar, o meu braço direito está dormente. Espera aí! Quem é essa guria deitada aqui? Parece uma mocreia. Empurro a cabeça para tentar reanimar o meu braço. Que loucura! Tenho que parar de usar ácido, o barato está indo longe demais. Sento na cama e fico massageando o braço morto até que começo a sentir um formigamento e lentamente consigo voltar a mexer a ponta dos dedos. Escuto uma voz de homem. Fico chocado! A mocreia não é uma mulher. Eu me viro torcendo que seja só um flashback causado pela alucinação, mas a vejo, ou melhor, o vejo arrumando a peruca loira e tocando os seios artificiais. A essa altura já consigo colocar as duas mãos na cabeça em sinal de desespero e pergunto quem é ele, ou ela, ou diabos queira ser. A resposta sai sensual e aveludada: – Larissão!

A pergunta é reciproca e respondo calmamente com a voz rouca: −Prazer, Bodão! − Para quem não me conhece, não passo de uma figura excêntrica, sou descendente de africanos e devo estar pesando uns cento e trinta quilos. Me visto só com os melhores ternos importados e o meu sapato está sempre um brilho, faço questão de engraxar todos os dias na praça da Rua da Praia. Aos dezoito anos me tornei um dos mais promissores trompetistas de Porto Alegre, aos vinte e dois um viciado em álcool, ácido lisérgico e sexo, aos vinte e seis já tinha cometido todas as gafes possíveis e aos trinta anos me tornei uma persona non grata em todos os bares e casas noturnas da cidade. O que me restou? O empreendedorismo. Iniciei meu próprio negócio focado em logística, sou importador de selos, especializado no transporte da fronteira do Paraguai até Porto Alegre. Pelo amor de Deus, não me diz que tu pensou em cartas, correspondências e correios? Selo é o codinome para o papel onde é mergulhada e seca a solução de LSD. Barato doido, meu rei! Dei a volta por cima com os negócios, recuperei todo o meu carisma, voltei para a alta sociedade de Porto Alegre e hoje toco nas melhores bandas de blues da cidade.

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Um clarão quebra a escuridão do quarto seguido pelo estrondo de um trovão que faz a janela de PVC do apartamento tremer. Congelo por alguns segundos, cerro os olhos com força tentando lembrar onde estou, que dia é hoje e quanto tempo estou dormindo? Mas só consigo aumentar a dor de cabeça, provavelmente o resultado de mais uma ressaca. Quero levantar, mas não consigo me apoiar, o meu braço direito está dormente. Espera aí! Quem é essa guria deitada aqui? Parece uma mocreia. Empurro a cabeça para tentar reanimar o meu braço. Que loucura! Tenho que parar de usar ácido, o barato está indo longe demais. Sento na cama e fico massageando o braço morto até que começo a sentir um formigamento e lentamente consigo voltar a mexer a ponta dos dedos. Escuto uma voz de homem. Fico chocado! A mocreia não é uma mulher. Eu me viro torcendo que seja só um flashback causado pela alucinação, mas a vejo, ou melhor, o vejo arrumando a peruca loira e tocando os seios artificiais. A essa altura já consigo colocar as duas mãos na cabeça em sinal de desespero e pergunto quem é ele, ou ela, ou diabos queira ser. A resposta sai sensual e aveludada: – Larissão!

A pergunta é reciproca e respondo calmamente com a voz rouca: −Prazer, Bodão! − Para quem não me conhece, não passo de uma figura excêntrica, sou descendente de africanos e devo estar pesando uns cento e trinta quilos. Me visto só com os melhores ternos importados e o meu sapato está sempre um brilho, faço questão de engraxar todos os dias na praça da Rua da Praia. Aos dezoito anos me tornei um dos mais promissores trompetistas de Porto Alegre, aos vinte e dois um viciado em álcool, ácido lisérgico e sexo, aos vinte e seis já tinha cometido todas as gafes possíveis e aos trinta anos me tornei uma persona non grata em todos os bares e casas noturnas da cidade. O que me restou? O empreendedorismo. Iniciei meu próprio negócio focado em logística, sou importador de selos, especializado no transporte da fronteira do Paraguai até Porto Alegre. Pelo amor de Deus, não me diz que tu pensou em cartas, correspondências e correios? Selo é o codinome para o papel onde é mergulhada e seca a solução de LSD. Barato doido, meu rei! Dei a volta por cima com os negócios, recuperei todo o meu carisma, voltei para a alta sociedade de Porto Alegre e hoje toco nas melhores bandas de blues da cidade.

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