Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Leonardo Duprates
Leonardo Duprates desenvolvedor de software, compositor, baixista e escritor.
Fã de Edgar Allan Poe e H.P. Lovercraft, foi nos roteiros de R.F. Lucchetti e nos filmes de José Mojica Marins que buscou inspiração para escrever seus contos de terror.









Tormenta

Ao longe, um paredão negro avança sobre o céu devorando o degradê de cores azul, laranja e amarelo do entardecer. Os relâmpagos, que iluminam como flashes os contornos deformes das nuvens que vagam lentamente através do horizonte, anunciam a grandiosidade da tormenta que se aproxima.
As chuvas que ocorrem sistematicamente no final da tarde deveriam ser um sinal de alívio, porém, na verdade, se tornam uma punição. O mormaço que se esconde no asfalto é libertado com a enxurrada e toma as ruas carregando o cheiro de lodo que se acumula junto ao meio fio.
A chuva segue seu caminho e eu me apresso para trilhar o meu. Hoje vou me encontrar com alguns amigos na Cidade Baixa para tocarmos algumas músicas em uma das espeluncas mais tradicionais do centro. O magnífico bar do Chinês, um cubículo completamente enfeitado de caveiras, bonecos de voodoos, peças de carros e todo o tipo de tranqueira relacionada com estradas e filmes de terror.
Tudo na bodega confronta a decência e desafia a elegância das velhas casas tombadas pelo patrimônio histórico. Começando pela fachada, nunca pintada e completamente pichada. O chão é grudento e o bar inteiro fede a cerveja choca. Pode parecer estranho, mas o odor de birra velha disfarça o cheiro de mijo do banheiro, que seguramente é bem mais desagradável.
O China, dono do bar, é um acumulador compulsivo, vive para encher as prateleiras e paredes de penduricalhos exóticos. O boteco muitas vezes parece um albergue, abrigando desde a escória que vaga a esmo pelo centro até estudantes e homens de terno, todos bebendo e se divertindo com as histórias do China, que herdou o apelido do antigo dono, um japonês que fundou o bar e o vendeu para o gringo que nada tem de oriental. Enfim, o paraíso para quem quer rock, diversão, dominó e álcool barato.
Logo ao entrar, vejo o Sebo, amigo de longa data, segurando um copo plástico com cerveja e flertando com duas meninas. Observo-as indiscretamente. A loira é a Maria Clara, salivo só de descrevê-la. Baixinha, coxas grossas e torneadas, peitos pequenos, rosto delicado com olhos verdes escuros, tão escuros que se eu não estivesse tão interessado passariam por castanhos. A morena é troncuda e se chama Nádia. Poderia usar o Teorema de Pitágoras para descrevê-la, basta imaginar dois catetos e a hipotenusa. Mas vou facilitar. De costas parece um homem, o rosto lembra uma cuia, os ombros são desnivelados, o quadril é retangular e a voz parece uma serra rasgando a madeira.

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Ao longe, um paredão negro avança sobre o céu devorando o degradê de cores azul, laranja e amarelo do entardecer. Os relâmpagos, que iluminam como flashes os contornos deformes das nuvens que vagam lentamente através do horizonte, anunciam a grandiosidade da tormenta que se aproxima.
As chuvas que ocorrem sistematicamente no final da tarde deveriam ser um sinal de alívio, porém, na verdade, se tornam uma punição. O mormaço que se esconde no asfalto é libertado com a enxurrada e toma as ruas carregando o cheiro de lodo que se acumula junto ao meio fio.
A chuva segue seu caminho e eu me apresso para trilhar o meu. Hoje vou me encontrar com alguns amigos na Cidade Baixa para tocarmos algumas músicas em uma das espeluncas mais tradicionais do centro. O magnífico bar do Chinês, um cubículo completamente enfeitado de caveiras, bonecos de voodoos, peças de carros e todo o tipo de tranqueira relacionada com estradas e filmes de terror.
Tudo na bodega confronta a decência e desafia a elegância das velhas casas tombadas pelo patrimônio histórico. Começando pela fachada, nunca pintada e completamente pichada. O chão é grudento e o bar inteiro fede a cerveja choca. Pode parecer estranho, mas o odor de birra velha disfarça o cheiro de mijo do banheiro, que seguramente é bem mais desagradável.
O China, dono do bar, é um acumulador compulsivo, vive para encher as prateleiras e paredes de penduricalhos exóticos. O boteco muitas vezes parece um albergue, abrigando desde a escória que vaga a esmo pelo centro até estudantes e homens de terno, todos bebendo e se divertindo com as histórias do China, que herdou o apelido do antigo dono, um japonês que fundou o bar e o vendeu para o gringo que nada tem de oriental. Enfim, o paraíso para quem quer rock, diversão, dominó e álcool barato.
Logo ao entrar, vejo o Sebo, amigo de longa data, segurando um copo plástico com cerveja e flertando com duas meninas. Observo-as indiscretamente. A loira é a Maria Clara, salivo só de descrevê-la. Baixinha, coxas grossas e torneadas, peitos pequenos, rosto delicado com olhos verdes escuros, tão escuros que se eu não estivesse tão interessado passariam por castanhos. A morena é troncuda e se chama Nádia. Poderia usar o Teorema de Pitágoras para descrevê-la, basta imaginar dois catetos e a hipotenusa. Mas vou facilitar. De costas parece um homem, o rosto lembra uma cuia, os ombros são desnivelados, o quadril é retangular e a voz parece uma serra rasgando a madeira.

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