Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Leonardo Duprates
Leonardo Duprates desenvolvedor de software, compositor, baixista e escritor.
Fã de Edgar Allan Poe e H.P. Lovercraft, foi nos roteiros de R.F. Lucchetti e nos filmes de José Mojica Marins que buscou inspiração para escrever seus contos de terror.









Tormenta

Lá fora, o vento já assobia nas quinas dos casarões e as trovoadas iluminam a rua. A clientela, que ocupava a calçada em frente ao bar, entra para se proteger do eminente temporal. O China anuncia o show no microfone e começamos o espetáculo de forma frenética. O som alto e voraz anima a todos que se exprimem na pequena peça balançando as cabeças e batendo os pés contra o chão. Na quinta música, o som dos amplificadores desaparece e as luzes do bar piscam alegoricamente até se apagarem completamente.
O bar mergulha na escuridão, que é quebrada aleatoriamente pelos clarões dos relâmpagos que revelam uma cortina cinza de chuva. A porta sanfonada cai, causando um estrondo violento. A temperatura se torna ainda mais insuportável. A insegurança se converte em ansiedade acompanhada de horror. Conto os segundos entre os relâmpagos e o som dos trovões, tentando calcular se a tormenta está se afastando. Mas é em vão. A quantidade de estrondos seguidos de clarões é tanta que se torna impossível adivinhar a qual relâmpago o som pertence.
Um novo revés, uma dezena de telhas de barro caem violentamente sobre o chão, uma cachoeira de água despenca em meio ao bar. Uma onda de terror toma conta de todos, a água desliza pelo chão em direção ao meio fio, onde uma corredeira carrega todo o tipo de detrito que encontra pelo caminho. No final da ladeira, a praça General Daltro Filho transforma-se em uma lagoa, ornamentada por carros que boiam como pedalinhos.
Quinze minutos, a tormenta que causou o apocalipse, milagrosamente, se converte em um inofensivo chuvisco. Sebo está desolado, Nádia está abraçada em outro rapaz. Beto desconsolado, todo o seu equipamento está encharcado no fundo do bar. Eu, aflito, procuro por Clara, mas não a encontro. Deduzo que tenha partido com outro rapaz.
Por hora, preciso me preocupar em como voltar para casa. Enquanto arquitetamos um plano, as más notícias circulam. Os ônibus e táxis desapareceram como num passe de mágica durante o temporal. Em um rádio a pilha, o locutor noticia que toda a cidade está sem energia elétrica e que relatos assustadores de saques, assassinatos e estupros são denunciados a todo o momento pelos ouvintes.

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Lá fora, o vento já assobia nas quinas dos casarões e as trovoadas iluminam a rua. A clientela, que ocupava a calçada em frente ao bar, entra para se proteger do eminente temporal. O China anuncia o show no microfone e começamos o espetáculo de forma frenética. O som alto e voraz anima a todos que se exprimem na pequena peça balançando as cabeças e batendo os pés contra o chão. Na quinta música, o som dos amplificadores desaparece e as luzes do bar piscam alegoricamente até se apagarem completamente.
O bar mergulha na escuridão, que é quebrada aleatoriamente pelos clarões dos relâmpagos que revelam uma cortina cinza de chuva. A porta sanfonada cai, causando um estrondo violento. A temperatura se torna ainda mais insuportável. A insegurança se converte em ansiedade acompanhada de horror. Conto os segundos entre os relâmpagos e o som dos trovões, tentando calcular se a tormenta está se afastando. Mas é em vão. A quantidade de estrondos seguidos de clarões é tanta que se torna impossível adivinhar a qual relâmpago o som pertence.
Um novo revés, uma dezena de telhas de barro caem violentamente sobre o chão, uma cachoeira de água despenca em meio ao bar. Uma onda de terror toma conta de todos, a água desliza pelo chão em direção ao meio fio, onde uma corredeira carrega todo o tipo de detrito que encontra pelo caminho. No final da ladeira, a praça General Daltro Filho transforma-se em uma lagoa, ornamentada por carros que boiam como pedalinhos.
Quinze minutos, a tormenta que causou o apocalipse, milagrosamente, se converte em um inofensivo chuvisco. Sebo está desolado, Nádia está abraçada em outro rapaz. Beto desconsolado, todo o seu equipamento está encharcado no fundo do bar. Eu, aflito, procuro por Clara, mas não a encontro. Deduzo que tenha partido com outro rapaz.
Por hora, preciso me preocupar em como voltar para casa. Enquanto arquitetamos um plano, as más notícias circulam. Os ônibus e táxis desapareceram como num passe de mágica durante o temporal. Em um rádio a pilha, o locutor noticia que toda a cidade está sem energia elétrica e que relatos assustadores de saques, assassinatos e estupros são denunciados a todo o momento pelos ouvintes.

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