Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Leonardo Duprates
Leonardo Duprates desenvolvedor de software, compositor, baixista e escritor.
Fã de Edgar Allan Poe e H.P. Lovercraft, foi nos roteiros de R.F. Lucchetti e nos filmes de José Mojica Marins que buscou inspiração para escrever seus contos de terror.









Tormenta

A Volkswagen Brasília mil novecentos e setenta e três segue em meu encalço. Cada vez mais veloz. Vejo no outro lado da rua uma janela de vidro, uma igreja com grandes vitrais. Sem hesitar, uso minha última cartada. Atravesso a avenida com muita dificuldade e por pouco não sou atropelado pelo carro. Arremesso meu corpo contra o vitral da Igreja. O impacto quebra parte do vidro. Sinto minha pele rasgar, a dor não me incomoda, fico deitado aguardando meu algoz.
Pego um pedaço de vidro improvisando uma faca. Rastejo pela igreja procurando por abrigo até achar o confessionário. Entro no pequeno estande e observo a entrada da capela através da abertura em forma de cruz coberta por uma tela vermelha. Tento tirar os pedaços de vidros de meu rosto e sinto o sangue verter por minhas mãos. As pernas doem, os músculos estão duros como pedra, é impossível movê-las. Meu corpo inteiro treme, mesmo com o calor infernal que não cessa. Enfim, cheguei à exaustão. Preciso descansar, não tenho forças nem mesmo para gritar por socorro. Decido manter a vigília no confessionário e fixo meu olhar para a grande porta em forma de cúpula na entrada.
O tempo passa lentamente. Meu nervosismo se mistura com a dor e o medo. As luzes das trovoadas atravessam os vitrais causando um efeito caleidoscópico contra as paredes da igreja. Projeções vermelhas, verdes e azuis se misturam e formam imagens multicoloridas que se mexem em uma rapidez delirante, formando alucinações bizarras. Sinto minha cabeça girar e as pupilas dilatarem.
A frequência dos relâmpagos se torna mais intensa e as formas ganham vida. As imagens desfocadas se transformam em dezenas de corpos rastejantes como daqueles miseráveis pisoteados no viaduto. Uma intensa luz se forma sobre elas, se transformando em labaredas que queimam os corpos expondo a sua carne crua. O fogo arde, até os ossos incendiados se tornarem pó.
Das cinzas surge uma forma graciosa que dança pelo templo, se materializando na sedutora Clara. Ela me encara sorrindo inocentemente. Com movimentos sutis, permite que as alças do vestido escorreguem pelos ombros, deixando-a nua. Como a desejo! Ela dança até que um relâmpago atravessa os vitrais e como uma lâmina corta a garganta jorrando sangue para todo os lados.

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A Volkswagen Brasília mil novecentos e setenta e três segue em meu encalço. Cada vez mais veloz. Vejo no outro lado da rua uma janela de vidro, uma igreja com grandes vitrais. Sem hesitar, uso minha última cartada. Atravesso a avenida com muita dificuldade e por pouco não sou atropelado pelo carro. Arremesso meu corpo contra o vitral da Igreja. O impacto quebra parte do vidro. Sinto minha pele rasgar, a dor não me incomoda, fico deitado aguardando meu algoz.
Pego um pedaço de vidro improvisando uma faca. Rastejo pela igreja procurando por abrigo até achar o confessionário. Entro no pequeno estande e observo a entrada da capela através da abertura em forma de cruz coberta por uma tela vermelha. Tento tirar os pedaços de vidros de meu rosto e sinto o sangue verter por minhas mãos. As pernas doem, os músculos estão duros como pedra, é impossível movê-las. Meu corpo inteiro treme, mesmo com o calor infernal que não cessa. Enfim, cheguei à exaustão. Preciso descansar, não tenho forças nem mesmo para gritar por socorro. Decido manter a vigília no confessionário e fixo meu olhar para a grande porta em forma de cúpula na entrada.
O tempo passa lentamente. Meu nervosismo se mistura com a dor e o medo. As luzes das trovoadas atravessam os vitrais causando um efeito caleidoscópico contra as paredes da igreja. Projeções vermelhas, verdes e azuis se misturam e formam imagens multicoloridas que se mexem em uma rapidez delirante, formando alucinações bizarras. Sinto minha cabeça girar e as pupilas dilatarem.
A frequência dos relâmpagos se torna mais intensa e as formas ganham vida. As imagens desfocadas se transformam em dezenas de corpos rastejantes como daqueles miseráveis pisoteados no viaduto. Uma intensa luz se forma sobre elas, se transformando em labaredas que queimam os corpos expondo a sua carne crua. O fogo arde, até os ossos incendiados se tornarem pó.
Das cinzas surge uma forma graciosa que dança pelo templo, se materializando na sedutora Clara. Ela me encara sorrindo inocentemente. Com movimentos sutis, permite que as alças do vestido escorreguem pelos ombros, deixando-a nua. Como a desejo! Ela dança até que um relâmpago atravessa os vitrais e como uma lâmina corta a garganta jorrando sangue para todo os lados.

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