Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Leonardo Duprates
Leonardo Duprates desenvolvedor de software, compositor, baixista e escritor.
Fã de Edgar Allan Poe e H.P. Lovercraft, foi nos roteiros de R.F. Lucchetti e nos filmes de José Mojica Marins que buscou inspiração para escrever seus contos de terror.









Tormenta

O sangue escorre pelas paredes sagradas do templo de Cristo e orquestradamente se concentra sobre o altar, ganhando a forma humana de Beto. Fico incrédulo, aquele teatro macabro atua sobre minha consciência, me deixando maluco. Estendo a mão e clamo pelo perdão de meu amigo. Beto me olha fixamente, sequestrando os meus últimos vestígios de sanidade. Por trás do seu corpo, a imponente cruz do presbitério, que abençoa a nave, cai levando-o ao chão e fragmentando-o em milhares de pedaços.
Um rangido quebra a alucinação. Vejo a porta da igreja se abrir, me recolho no estande e seguro firme o pedaço de vidro que corta ainda mais a minha mão. Sinto uma pessoa caminhar pela sala e chegar até o altar. Só consigo ver sombras mesmo quando os relâmpagos iluminam a igreja. Será que é o canalha do carro?
Fecho os olhos e me projeto para fora do confessionário. Encontro um homem, que se vira rapidamente ao ouvir o som dos meus passos. Salto sobre o seu corpo e o acerto no rosto. Ele me empurra e leva o pedaço de vidro incrustado na bochecha. Caminho para trás numa tentativa de ganhar espaço. O homem grita horrorizado tentando tirar o naco de vidro que mergulhei em sua cabeça.
Meu algoz pega algo de cima do altar e arremessa acertando meu peito. Tateio o chão e encontro o objeto. É uma bíblia. A agarro e saio correndo para cima dele. Acerto uma joelhada em seu abdômen e tombamos os dois. No chão, ele chuta e soqueia o ar tentando me encontrar. Pulo para cima e o imobilizo. Hesito antes de bater em sua cabeça com o livro sagrado, que parece um tijolo maciço. O primeiro golpe acerta em cheio, provavelmente deslocou o maxilar pelo estalo seco que escutei. O segundo e o terceiro afundam o crânio. No último eu já não tinha força, foi só a desforra.
Deito ao lado do corpo desfigurado e gozo de prazer. Sinto a força de um predador que desfruta da vitória após eliminar a presa. Permito-me ser levado pelo triunfo e inflo meu peito. Assobio o Tema da Vitória lembrando do punho erguido e triunfante do piloto de Formula Um nos domingos de manhã. Sou interrompido pelo gemido do homem.
Maldito, como ousa ainda estar vivo! Ergo o meu tronco e sento ao lado do corpo. Mexo em seus bolsos e encontro uma carteira. De dentro retiro um documento. A escuridão não permite ler o nome, mas consigo enxergar a foto. Sinto um enjoo e respiro fundo.

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O sangue escorre pelas paredes sagradas do templo de Cristo e orquestradamente se concentra sobre o altar, ganhando a forma humana de Beto. Fico incrédulo, aquele teatro macabro atua sobre minha consciência, me deixando maluco. Estendo a mão e clamo pelo perdão de meu amigo. Beto me olha fixamente, sequestrando os meus últimos vestígios de sanidade. Por trás do seu corpo, a imponente cruz do presbitério, que abençoa a nave, cai levando-o ao chão e fragmentando-o em milhares de pedaços.
Um rangido quebra a alucinação. Vejo a porta da igreja se abrir, me recolho no estande e seguro firme o pedaço de vidro que corta ainda mais a minha mão. Sinto uma pessoa caminhar pela sala e chegar até o altar. Só consigo ver sombras mesmo quando os relâmpagos iluminam a igreja. Será que é o canalha do carro?
Fecho os olhos e me projeto para fora do confessionário. Encontro um homem, que se vira rapidamente ao ouvir o som dos meus passos. Salto sobre o seu corpo e o acerto no rosto. Ele me empurra e leva o pedaço de vidro incrustado na bochecha. Caminho para trás numa tentativa de ganhar espaço. O homem grita horrorizado tentando tirar o naco de vidro que mergulhei em sua cabeça.
Meu algoz pega algo de cima do altar e arremessa acertando meu peito. Tateio o chão e encontro o objeto. É uma bíblia. A agarro e saio correndo para cima dele. Acerto uma joelhada em seu abdômen e tombamos os dois. No chão, ele chuta e soqueia o ar tentando me encontrar. Pulo para cima e o imobilizo. Hesito antes de bater em sua cabeça com o livro sagrado, que parece um tijolo maciço. O primeiro golpe acerta em cheio, provavelmente deslocou o maxilar pelo estalo seco que escutei. O segundo e o terceiro afundam o crânio. No último eu já não tinha força, foi só a desforra.
Deito ao lado do corpo desfigurado e gozo de prazer. Sinto a força de um predador que desfruta da vitória após eliminar a presa. Permito-me ser levado pelo triunfo e inflo meu peito. Assobio o Tema da Vitória lembrando do punho erguido e triunfante do piloto de Formula Um nos domingos de manhã. Sou interrompido pelo gemido do homem.
Maldito, como ousa ainda estar vivo! Ergo o meu tronco e sento ao lado do corpo. Mexo em seus bolsos e encontro uma carteira. De dentro retiro um documento. A escuridão não permite ler o nome, mas consigo enxergar a foto. Sinto um enjoo e respiro fundo.

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