Zé da Talha (Parte 01) - Leonardo Duprates
Leonardo Duprates
Leonardo Duprates desenvolvedor de software, compositor, baixista e escritor.
Fã de Edgar Allan Poe e H.P. Lovercraft, foi nos roteiros de R.F. Lucchetti e nos filmes de José Mojica Marins que buscou inspiração para escrever seus contos de terror.









Zé da Talha (Parte 01)

O semblante de Manuel reflete a gravidade do crime. Ele está parado com as mãos na cintura há mais de cinco minutos. Junto aos seus pés, o corpo de uma menina brutalmente assassinada. Impressionado com o estado da infeliz, cobre o corpo com pedaços de papelão, uma tentativa inútil de preservá-la dos curiosos que se aglomeram em torno.

Sigo desenrolando a fita amarela para delimitar o perímetro de investigação. Pelo jeito o legista ainda vai demorar para chegar. No último status que recebi pelo rádio, ele estava ilhado entre a avenida Mauá e o Mercado Público. Não era de se admirar, foi uma epopeia chegar até a cena do crime.

Interceptei a chamada na viatura e imediatamente me voluntariei para atender o caso, mas não esperava que a chuva homérica que caía me impedisse de me deslocar até o lugar. O vento era tão forte que arremessava galhos sob o carro enquanto a chuva alagava o estacionamento. Ilhado, tive que aguardar a tormenta estiar.

Surpreendentemente, Manuel foi o primeiro a chegar à cena do crime, mas não a tempo de socorrer a pobre garota, que ficou agonizando junto ao meio fio da calçada, sob a chuva forte. A força da água foi tanta que carregou o sangue que brotava da enorme fenda na cabeça, pintando o asfalto de vermelho.

Contemplo o plano formado pela velha arquitetura cinza do centro e o rubro efêmero do sangue na calçada, entre eles, o corpo inerte. Não me contenho e empurro o papelão com a ponta da bota para bisbilhotar. A menina é uma beldade, vestida com um delicado vestido branco com estampa de flor de camomila, pele clara como a lua, cabelo ruivo da cor do fogo, coxas grossas e torneadas, peitos pequenos e arredondados, um verdadeiro pitéu. Seria uma Miss se não estivesse com o rosto esfolado, arranhado, cortado, triturado como guisado, enfim, completamente desfigurado.

O objeto usado para cometer a atrocidade ainda permanecia socado no orifício do olho esquerdo. Com muito cuidado, apoio a cabeça da moça com a sola do pisante e puxo a arma com a ponta dos dedos. O pegador do objeto parece feito de louça ou osso lapidado e escorrega dos meus dedos. Meu corpo se projeta para trás e para equilibrar pressiono o crânio com meu pé, causando um enorme estrago.

Manuel me observa com um sorriso insolente, se divertindo com o insucesso da minha incursão. Sem jeito, tento justificar:

− Cara, saca só! Essa merda está incrustado no osso do crânio e não sai nem a pau!

Rindo baixo, meu parceiro puxa, de dentro da jaqueta jeans, dez reais e a coloca no bolso da minha camisa, apostando que a arma do crime é uma chave de fenda. Eu não me contenho e tiro duas garças da carteira e aposto em uma chaira de amolar facas. A essa altura, escutamos o rangido do velho carro papa-defunto virando a esquina.

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Leonardo Duprates
Zé da Talha (Parte 01)

O semblante de Manuel reflete a gravidade do crime. Ele está parado com as mãos na cintura há mais de cinco minutos. Junto aos seus pés, o corpo de uma menina brutalmente assassinada. Impressionado com o estado da infeliz, cobre o corpo com pedaços de papelão, uma tentativa inútil de preservá-la dos curiosos que se aglomeram em torno.

Sigo desenrolando a fita amarela para delimitar o perímetro de investigação. Pelo jeito o legista ainda vai demorar para chegar. No último status que recebi pelo rádio, ele estava ilhado entre a avenida Mauá e o Mercado Público. Não era de se admirar, foi uma epopeia chegar até a cena do crime.

Interceptei a chamada na viatura e imediatamente me voluntariei para atender o caso, mas não esperava que a chuva homérica que caía me impedisse de me deslocar até o lugar. O vento era tão forte que arremessava galhos sob o carro enquanto a chuva alagava o estacionamento. Ilhado, tive que aguardar a tormenta estiar.

Surpreendentemente, Manuel foi o primeiro a chegar à cena do crime, mas não a tempo de socorrer a pobre garota, que ficou agonizando junto ao meio fio da calçada, sob a chuva forte. A força da água foi tanta que carregou o sangue que brotava da enorme fenda na cabeça, pintando o asfalto de vermelho.

Contemplo o plano formado pela velha arquitetura cinza do centro e o rubro efêmero do sangue na calçada, entre eles, o corpo inerte. Não me contenho e empurro o papelão com a ponta da bota para bisbilhotar. A menina é uma beldade, vestida com um delicado vestido branco com estampa de flor de camomila, pele clara como a lua, cabelo ruivo da cor do fogo, coxas grossas e torneadas, peitos pequenos e arredondados, um verdadeiro pitéu. Seria uma Miss se não estivesse com o rosto esfolado, arranhado, cortado, triturado como guisado, enfim, completamente desfigurado.

O objeto usado para cometer a atrocidade ainda permanecia socado no orifício do olho esquerdo. Com muito cuidado, apoio a cabeça da moça com a sola do pisante e puxo a arma com a ponta dos dedos. O pegador do objeto parece feito de louça ou osso lapidado e escorrega dos meus dedos. Meu corpo se projeta para trás e para equilibrar pressiono o crânio com meu pé, causando um enorme estrago.

Manuel me observa com um sorriso insolente, se divertindo com o insucesso da minha incursão. Sem jeito, tento justificar:

− Cara, saca só! Essa merda está incrustado no osso do crânio e não sai nem a pau!

Rindo baixo, meu parceiro puxa, de dentro da jaqueta jeans, dez reais e a coloca no bolso da minha camisa, apostando que a arma do crime é uma chave de fenda. Eu não me contenho e tiro duas garças da carteira e aposto em uma chaira de amolar facas. A essa altura, escutamos o rangido do velho carro papa-defunto virando a esquina.

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